Novas paisagens despontam nas telas, em inspirada safra de fitas nacionais

Uma leva de filmes brasileiros desvenda personagens e novos cenários interioranos, antes, sem muito apelo nas telonas

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postado em 17/08/2017 07:46 / atualizado em 17/08/2017 09:59

Netflix/ divulgação

 

Seja pela coincidência na data de chegada ao circuito de cinema nacional, pelo sucesso de público ou mesmo pela interação, na associação com países em coproduções de filmes, o Brasil emplaca uma vertente de longas-metragens com narrativas ambientadas no interior. Não só a paisagem, mas ainda o retrato de protagonistas clássicos, com raízes no âmbito rural, despontam em filmes como Pedro Malasartes e o duelo com a morte, O matador (o primeiro longa nacional da Netflix, filmado em Pernambuco) e O filme da minha vida, atual sucesso nos cinemas.

“Os lugares urbanos e realistas, claro, não desapareceram de cena. Mas eles têm sido aproveitados para quando o espectador precisa se reconhecer na história contada que exija o centro. Pelas crises vivenciadas, acho que o escapismo buscado por muitos deixa todos, de verdade, mais propícios a viajar mais no cinema. O público viaja ainda mais, e melhor”, comenta Leonardo Edde, coprodutor de O filme da minha vida, de Selton Mello.
 

 

Lírico e explorando o lado onírico da narrativa, com locações espalhadas pela Serra Gaúcha – Bento Gonçalves, Garibaldi, Farroupilha e Cotiporã, junto com os municípios de Santa Tereza e Veranópolis, formaram o cenário — o longa, em apenas uma semana, se tornou a décima maior bilheteria entre os títulos brasileiros. “Com a tendência de expansão de temas e narrativas foi natural o aumento de locações no cinema. No lugar de uma identificação, pesa mais a aspiração: as pessoas querem o ar puro do campo, de onde estão longe”, comenta Leonardo Edde. Um vagão de trem, por exemplo, foi construído especialmente para o filme, e acoplado à Maria Fumaça — “uma coisa em que poucos andaram”, como reforça Edde.

Apresentado por duas semanas na cidade, o longa Esteros também acentua imagens que descortinam novidades para os espectadores: o diretor Papu Curotto apresenta na telona a cidade onde nasceu — Paso de los Libres, na fronteira entre Brasil e Argentina —, além de explorar, desde o título do filme, a região de Esteros del Iberá (Corrientes, na Argentina). Coprodução entre a Ancine (Agência Nacional do Cinema) e o Incaa (Instituto Nacional de Cinema e Artes Visuais), Esteros valoriza exatamente o cenário de estuário (ou esteiro), em que predominam terrenos pantaneiros e interioranos. O longa obteve o prêmio especial do júri e o de público no Festival de Gramado, ao mostrar um amor em suspenso entre os personagens Jerônimo (Esteban Masturini) e Matias (Ignacio Rogers).

Recentemente mostrado no Cine Brasília, o premiado Mulher do pai, de Cristiane Oliveira, abrange temática feminista e acaba de ser disponibilizado em encomendas para a tevê por assinatura. A fita, uma coprodução entre Brasil e Uruguai, esteve presente no último Festival de Berlim. Movida pela “perplexidade na reaproximação com o próprio pai” a diretora defende que ser filho e ser pai são condições a serem maturadas — “não estão prontas em nós”.

A realidade descrita por Cristiane Oliveira cerca os personagens Rubem (um distanciado pai, cego) e Nalu, adolescente. “Mulher do pai trata das fronteiras reais e daquelas que construímos para nós mesmos. Daí ter escolhido a região de fronteira com o Uruguai, que tem uma qualidade fluida muito especial — os limites às vezes não são tão rígidos e a troca cultural é permanente. Para além de locação, a fronteira é um espaço simbólico. Num filme que fala sobre toque, a pele também se apresenta como uma fronteira entre o espaço interno e o externo, um limite que se impõe também entre duas pessoas”, avalia a premiada diretora estreante.

Entre títulos com estreia no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, tendo por cenário o interior do país (entre os quais Deserto e Os pobres diabos) e que atualmente estão no circuito, Rifle, de Davi Pretto, usou como cenário as pequenas áreas de Vacaiquá e Serrilhada (perto de Dom Pedrito e Bagé, no Rio Grande do Sul). A localização geográfica está intimamente associada ao tema do filme detido nas parcas esperanças e na estagnação de um peão, diante da falta de estímulo para que se fixe no campo.

Vitrine Filmes/ divulgação


Pela estrada

Concorrente ao Festival de Gramado, que começa na sexta-feira (18/8), o longa Pela janela, da estreante Caroline Leone, é outro título que se desdobra em turismo indireto para os espectadores. “Passamos por diversas cidades no caminho entre São Paulo e Buenos Aires. Em Puerto Iguazú (Argentina), filmamos as cataratas; em Federación (na província de Entre Ríos), nos concentramos num baile e nas termas do local. Na estrada, diversas paisagens nos chamaram a atenção e também estão representadas no filme. O roteiro foi todo escrito com base em pesquisa feita nos locais, e todas as cenas escritas para as cidades e locações específicas, ou seja, indissociáveis”, comenta a diretora.

Ótimos representantes de road movie, na opinião da diretora, acompanham a proposta de Pela janela. Caroline curte Central do Brasil, Viajo porque preciso, volto porque te amo e Além da estrada, e calibrou o longa dela com “elementos da cinematografia brasileira e latina”. Filmado com equipe reduzida, e totalmente itinerante, a fita resultou em “intimismo”. “É um drama que trata de temas relacionados ao envelhecimento (da protagonista, a operária Rosália, interpretada por Magali Biff), e à ressignificação da vida”, resume. 
 
 
Geografia sexual 
 
Tendo como norte a ideia de que tanto “deslocamento quanto destino são mais importantes do que a origem” do protagonista, vindo do Nordeste, o cineasta mineiro Marcelo Caetano está à frente de Corpo elétrico, que estreia hoje. “O personagem poderia vir de Minas, de Manaus. O que me interessava era falar de um personagem que vem para São Paulo tanto para construir sua vida quanto para se sentir mais livre em relação a sua orientação sexual”, explica Caetano. 
 

Na fita, um rapaz que lida com moda faz planos de se aproximar de um colega de trabalho vindo da África. Nem quando morava em Minas, em que esteve por 20 anos, Marcelo Caetano se via como alguém conservador – “era uma luta diária”, resume. Numa labiríntica exploração de espaço, em Corpos elétricos, o protagonista Elias (Kelner Macêdo) deixa a Paraíba para estar em São Paulo – não a do cartão -postal, mas adentrando periferia e bairros operários.

 

Bebendo do documental, em parte, a fita traria hibridismo? “Sim. De bicha e de macho, de homem e de mulher, de realidade e fantasia”, diz Caetano. Mas, e o público popular ou interiorano, como se relacionará com o longa, sob a ótica do diretor? “Acho que o povo tem plena capacidade de compreender e sentir o filme. O problema que cerca o cinema autoral brasileiro diz mais respeito ao mercado exibidor do que as potencialidades intelectuais da população”, conclui. 

 

 

Três perguntas // Paulo Morelli, diretor de Pedro Malasartes 

 

Chegar a uma perspectiva “do fundo do Brasil”, mas sem intenção de crítica ou exame sociológico. A missão foi do cineasta Paulo Morelli, desde a criação do roteiro de Pedro Malasartes e o duelo com a morte, há mais de três décadas. Com o filme rodado em 2015, o diretor dispôs de montante mais do que considerável — foram empregados mais de R$ 4,5 milhões — a fim de implementar o acabamento com efeitos visuais. Mais de 50% das cenas do longa foram geradas com uso de computadores. A proposta de Morelli, entretanto, era a de fazer um filme “muito regional, falado em caipira”.

Qual a motivação maior para o projeto?
Meu filme nasceu nos anos de 1980, decorrente de uma pesquisa do folclore na extinta produtora Olhar Eletrônico, que era um coletivo de amigos (com figuras como Marcelo Tás e Fernando Meirelles). Queríamos fazer um programa de tevê, na verdade. Desenvolvi quatro episódios de meia hora cada um, tinha o Malasartes, O violeiro do diabo, outro título sobre a dicotomia Deus e o diabo, e ainda um outro, sobre a lenda do boto. Passaram-se décadas até a realização do Malasartes! Reformei o roteiro original para longa. Busquei a representação do brasileiro de raiz, ligado à terra.

Matuto é uma expressão politicamente correta, atrelada ao universo do teu filme?
Na verdade, eu uso caipira: o nosso protagonista é ingênuo. Politicamente correto é algo amplo e que incorpora matizes, aliás. É termo que me incomoda. Nisso, se pressupõe que exista o certo e o errado; como assim?! Cadê a liberdade para a diversidade de pensamentos? Quem julgou, a priori, as questões para que se definam? Meu princípio ético é de outra natureza do que a do Fla X Flu. Representando o caipira, fui atrás do que fosse autêntico. Acho delicado o contemporâneo ser o definitivo, em casos como o do Monteiro Lobato (que sofreu acusações de suposto racismo na literatura criada) que tem uma obra maior do que nossa percepção atual.

Como se deu a confluência entre um mundo interiorano representado nas telas e o uso de computação gráfica?

O estrutural é o fundamento da narrativa: tudo tem que estar a serviço dela. O conto original implicava num suporte fantástico. Com minhas pesquisas dos anos 1980, busquei textos do folclore mundial. Li muitos contos mundiais que contavam da morte. Nisso, pesquei a trama do homem que havia enganado a morte. Acoplei ao universo brasileiro a possibilidade de Malasartes enganar ou não a morte. Cada vida na história que criamos é representada por uma vela. É um filme sobre o livre-arbítrio ou a prevalência da predestinação. 

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