Livro revela correspondências entre Jorge Amado e José Saramago

Obra aborda o carinho e a admiração nascidos de uma amizade entre gênios

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postado em 19/08/2017 07:10

Acervo Zelia Gattai/Fundação Casa de Jorge Amado
José Saramago e Jorge Amado combinam um almoço no Estoril, próximo a Lisboa. Mais adiante, tentam se encontrar em Paris, mas a agenda de compromissos e palestras provoca um infeliz desencontro. Mesmo assim, Saramago deixa uma pequena encomenda para Jorge no saguão do hotel. Outro dia, o autor de Capitães de areia sofre um enfarte. O amigo português fica comovidamente preocupado. Lá pelas tantas, Saramago descobre que o Banco no qual Jorge depositava todo seu dinheiro faliu. Elegantemente, sugere que pode ajudar, caso necessário.


E o tempo inteiro os dois escritores confabulam sobre prêmios, especialmente sobre o Nobel, esse “demônio” que nunca chegava para a língua portuguesa. Dos dois, Saramago é o mais enfático: “De geografia, Estocolmo sabe tudo, menos onde ficam Brasil e Portugal…”. Era 1995 e o autor de Ensaio sobre a cegueira ainda vociferaria por três anos antes de ser agraciado pela Academia Sueca, em 1998, com o Nobel de Literatura. A troca de correspondência entre Saramago e Amado revela como uma amizade profunda ligou dois dos maiores nomes da literatura de língua portuguesa.

Publicada pela Companhia das Letras com o título de Com o mar por meio – Uma amizade em cartas, o volume compilado por Pilar del Río, jornalista e viúva do português, e Paloma Amado, filha do baiano, transborda carinho. Talvez por isso tenha sido editado tão rapidamente. Pilar já havia enviado boa parte do acervo de Saramago à fundação que leva o nome do escritor, mas guardou as cartas trocadas com Amado. Quando recebeu o pedido de Paloma, já tinha praticamente tudo organizado.

Acervo

“Respondi em seguida porque conhecia a correspondência e sabia a quantidade de vida que esses fax e cartas transportavam. Não é uma correspondência escrita com ânimo de construir biografia ou pensando futura publicação, simplesmente são fragmentos de vida que dão uma imagem do carinho e a naturalidade com que se tratavam esses dois grandes homem do século 20, dois enormes criadores”, conta Pilar, em entrevista ao Correio.

A Fundação Casa de Jorge Amado guarda hoje um acervo de 250 mil documentos. São originais dos livros, escritos pessoais, prêmios, condecorações e adaptações de peças de teatro. Nesse conjunto, há 70 mil cartas. Em 2015, a fundação começou a organizar essa correspondência, com Bete Capinam à frente dos trabalhos, assessorada por Paloma Amado na identificação de nomes, datas e contextos.

Acervo Zelia Gattai/Funda?ao Casa de Jorge Amado


Foi um trabalho difícil, já que, a partir dos anos 1990, muitas das cartas eram trocadas em forma de fax, cujo papel se deteriora com facilidade. Nos escritos, Paloma encontrou cartas de alguns dos maiores autores do século 20, como Carlos Drummond de Andrade, Pablo Neruda, João Ubaldo Ribeiro, Érico Veríssimo e Simone de Beauvoir. As de Drummond, inclusive, vêm com desenhos do poeta e pequenas gracinhas.

Amizade tardia

Paloma Amado garante que nada ficou de fora de Com o mar por meio. “Estão ali todas as cartas”, avisa. “Foi uma amizade que começou tardiamente, apesar de muito intensa. E meu pai ficou muito doente em determinado momento. Ficou cego e teve uma depressão profunda, então não falava, não escrevia.” Algumas cartas trocadas com Glauber Rocha foram publicadas no livro Cartas ao mundo, mas foi só. Há ainda muita coisa para ser editada na fundação.

Saramago e Amado se conheceram pessoalmente em 1990, durante um jantar do prêmio União Latina, em Roma. Os dois eram júri do concurso, que acontecia, naquele ano, pela primeira vez. Este último revela muito sobre os dois autores. A timidez e a seriedade de Saramago podiam passar a imagem de um homem antipático e altivo. No entanto, nas cartas enviadas ao amigo baiano, é outro personagem que se constrói.

“Tímido, sim, mas extraordinariamente afetuoso e de uma naturalidade que provocava emoção. E, de repente, vemos ao autor de Ensaio sobre a Cegueira como um igual, feliz ao receber a carta de um amigo, contente diante de um possível encontro, triste diante de algum problema, preocupado com a notícia de uma doença”, aponta Pilar.

A correspondência de Saramago com o escritor José Rodrigues Miguéis também foi alvo de um livro, publicado em 2010. São cartas trocadas entre 1959 e 1971, quando Saramago era editor de Miguéis, que vivia exilado nos Estados Unidos. Segundo Pilar, é um conteúdo diferente de Com o mar por meio. “É outro livro, que ilumina pesquisadores e pode ser lido como uma escola para editores. Há ainda algumas correspondências mais, mas não muita. Se será publicado ou não, já veremos. O importante é que, hoje, temos um objeto precioso diante de nós, o livro sobre o qual falamos”, diz a jornalista, que conversou com o Correio sobre a amizade dos dois gênios da literatura, mas também sobre política e feminismo.

Entrevista  // Pilar del Río

O que Com o mar por meio acrescenta para os leitores dos dois escritores?

O tamanho desse afeto. As confidências feitas sem preocupação indica por que caminho iam as conversas que eles mantiveram ao longo desses anos em diferentes países. É um livro de solidariedade em tempo real. Também evidenciam-se preocupações com relação à situação política do Brasil e o empenho em defender a literatura em língua portuguesa.

Amado e Saramago conversavam muito sobre prêmios e ficavam genuinamente felizes quando um ou outro era agraciado. E Saramago revela, inclusive, uma certa angústia em relação ao Nobel e às cobranças para que ganhasse. Como era essa questão dos prêmios? Era realmente uma angústia?
José Saramago chega a dizer que o Nobel é uma “invenção diabólica”, não pelo prêmio em si, claro, mas porque quando chegava outubro chegava o bombardeio de comentários, de apostas, de telefonemas sobre o assunto. E então, o escritor sentia-se angustiado, como se dependesse dele ganhar o prêmio, como se, ao não recebê-lo, estivesse decepcionando os amigos. Portanto, natural que eles também comentassem sobre isso — os dois estavam nas listas dos premiáveis —, faziam confissões e até piadas sobre o assunto. Posso assegurar que, se o Jorge Amado tivesse recebido o prêmio, José Saramago o teria acompanhado a Estocolmo. Lamentavelmente, quando Saramago recebeu, Jorge não pôde ir por razões de saúde, mas os dois, ao saberem da notícia, agradeceram aos escritores de língua portuguesa que haviam aberto caminho.

Sei que a senhora acompanha os acontecimentos políticos no Brasil. O país vive um momento especial de crise e questionamento das instituições, assim como o mundo vive uma guinada em direção ao conservadorismo. A senhora acredita que esta onda está apenas no início? Como encara esse momento?

Espero, sempre, que o sentido de responsabilidade dos cidadãos atue em benefício de todos e não de elites. Quero pensar que seremos cidadãos que, escolhendo bem, com razão, consciência e honestidade, façamos com que esta sociedade não seja só para consumidores, senão para todos. Não consigo entender que a tecnologia não nos sirva para viver melhor, mas sim para expulsar milhões de pessoas do trabalho e de uma vida em condições de dignidade e conhecimento. Não entendo que, às vezes, sejamos cúmplices de quem nos escraviza. Enfim, confio em que a lucidez com que José Saramago descreveu no Ensaio sobre a Lucidez se imponha sobre a manipulação de que somos vítimas diariamente.

Ao mesmo tempo, o Brasil também vive um momento de empoderamento de discursos feministas, relativos a identidades de gênero e de raça. Como enxerga esse movimento?
O feminismo é o movimento de igualdade de que estávamos precisando. Não ser feminista é similar a ser escravagista. A decência diz que é preciso vencer o lugar-comum e respaldar que homens e mulheres são iguais na casa, no trabalho, nas instituições, na religião; que não pode haver normas coercitivas por costumes ou interesses. Feminismo é decência , simplesmente. Nada mais e nada menos do que isso.
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