Javier Liñera fala ao Correio sobre a produção teatral contemporânea

O ator espanhol vem a Brasília com o espetáculo Barro Rojo, que integra a programação do Cena Contemporânea

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 20/08/2017 07:30 / atualizado em 18/08/2017 17:40

Mateo Perez/Divulgação
 
É da Espanha o premiado espetáculo Barro rojo, com texto e interpretação de um dos grandes nomes da cena teatral da região: o ator e dramaturgo Javier Liñera. Tendo dedicado boa parte de sua vida à criação cênica, ele trabalha, principalmente, por meio do desejo de dialogar com o público e provocar mudanças. Em cena, um rico retrato de outro tempo, apontando diálogos sobre o preconceito, a justiça e a violência. Javier leva ao palco uma importante reflexão sobre o respeito e a liberdade. Se para manter-se vivo entre seus contemporâneos o teatro necessita encontrar uma função, que seja a de ampliar a história cotidiana no palco, possibilitando um espaço de novas ideias e transformação.

Com o espetáculo Barro Rojo, Javier Liñera destaca a necessidade de colocar em cena realidades já vividas para que, atualmente, seja possível lutar pelos direitos que temos e a liberdade em que vivemos. Para ele, nesse momento, o teatro nasce como a possibilidade de visitar parte da história. Além disso, o palco se mostra como um caminho para proporcionar entretenimento. “Um entretenimento onde se façam perguntas, onde a beleza golpeie o público. Encontrar uma balança entre o artístico e aquilo que se quer contar. Assim, você tem uma função social, seja ela de crítica ou de catarse”, afirma o ator.
 

Ao talentoso dramaturgo, o teatro possibilita enxergar o mundo de outras maneiras, aprender outras formas de sentir e entender o ser humano. A importância de falar de preconceito no palco é a visibilidade da memória histórica. “Não esquecer o que aconteceu e entender que determinados medos e regimes autoritários podem sempre acontecer novamente”. Javier destaca a importância de lembrar as histórias daqueles que lutaram por direitos conquistados, como as mulheres, os trabalhadores, os LGTBs.

Desta maneira, o teatro aparece ainda como importante espaço de memória social. A ideia é que todas as mensagens cheguem de maneira clara e sensível aos espectadores. O medo, o ódio, os tabus e a repressão que rodeiam o amor homossexual ganham luz e protagonismo na história criada por Javier.

Em Barro Rojo, que já passou pela Espanha, Chile, Equador e França, ganham destaque situações vividas por gays em campos de concentração europeus, a relação com as famílias e o amor. “Quero que o público se sinta em uma viagem entre passado e presente. Uma viagem não apenas histórica, mas emocional, que passa do sorriso ao horror”, destaca.

O caráter de memória histórica da produção teatral ganha destaque na peça, e o espectador passa alguns instantes por duras realidades do passado e os cárceres do ditador Franco na Espanha. Sem se firmar como drama, o texto utiliza a leveza do humor e conta a história de um tio do protagonista, que foi preso em um campo de concentração por ser gay. O espetáculo mostra uma dos grandes trunfos do fazer teatral: conversar com o público sobre temas necessários e cruéis de maneira leve e bem-humorada.

A diretora Daniela Molina Castro lembra que a oportunidade de tratar de um tema tão sensível como é o da memória e dos direitos humanos apareceu como grande motivador para a produção do trabalho. Para a diretora vinda do Chile, um país que também sofreu com uma ditadura, o objetivo e a função é lembrar das atrocidades do passado, através da arte, para que elas não sejam repetidas. A partir do trabalho cênico, da relação com a dança, a música e o movimento, o palco se concretiza como local de escuta, observação e aprendizado.
 
Mateo Perez/Divulgação
 
 
Relação direta 
 
Para Alaor Rosa, curador do Cena Contemporânea, o teatro é um dos instrumentos mais potentes que temos para mostrar, dialogar e transformar, falando diretamente a seu público. “É uma oportunidade para discutir diversos problemas, desde o cotidiano social até o político e situar a ação no lugar em que ela seria necessária para contribuir”, afirma. Alaor conta que cerca de 80% do público do Cena é formado por jovens, ampliando ainda mais a importância de se discutir temas atuais. O teatro aparece como local de troca e possibilidade de apoio para aqueles que costumam ter menos espaço de voz no cotidiano.

O teatro, a partir dessa perspectiva e de trabalhos como Barro Rojo, serviria ainda como ponto de confronto para os preconceitos individuais e possibilidade de tolerância em sociedade. “Tenho uma preocupação fundamental com novos autores que falam da contemporaneidade e textos que tratam de problemas das minorias e dos excluídos. É importante também apoiar novos autores, para propagar os trabalhos que realmente interessam ao cotidiano das pessoas”.

O ponto de encontro com a música, seja ela em shows, peças e espetáculos musicais, possibilita que um público diverso acompanhe o festival. 

Entre o entretenimento e a discussão crítica, entre a memória histórica e o retrato atual, entre a mistura de linguagens e a riqueza de narrativas, o teatro se perpetua como ponto de diálogo através do tempo.  
 


Cena Contemporânea 2017
De 22 de agosto a 3 de setembro. O espetáculo Barro Rojo será apresentado em: dia 24/08, no Teatro Sesc Garagem (913 sul), às 19h, os ingressos custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada); dia 25/08, no Teatro Sesc Paulo Gracindo (Gama), às 20h, entrada gratuita; dias 26/08 e 27/08, no Teatro Sesc Newton Rossi (Ceilândia Norte), às 20h entrada gratuita.
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.