Festival Cena Contemporânea ocupa espaços abertos do DF com muito teatro

Ideia dos espetáculos é estabelecer uma relação de maior proximidade com o público

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postado em 22/08/2017 07:01 / atualizado em 22/08/2017 12:48

Mayara Monteiro/Divulgação

Com estéticas e propostas cênicas totalmente diversas, dois espetáculos brasilienses, da companhia Andaime e Dois tempos, utilizam as ruas como palco e o céu da capital como parte do cenário: Poéticas urbanas, que conta suas histórias em uma praça da Estrutural, e Inominável, que convida os espectadores a uma experiência sensorial diferente, no Parque Olhos D’Água. Os atores lembram que uma das naturezas do teatro é ser da rua. O teatro grego, o teatro medieval, a comedia del arte, aconteciam também ao ar livre.



A rua é um espaço de encontros que desconsidera a divisão de classes e nela a cidadania é prevalente. Para os integrantes da cia. Andaime é essa a maior força do teatro de rua, já que nela, todos são iguais. Sua maior importância seria criar a possibilidade de o espectador-passante ter o direito à cidade e à cidadania sensível. "Uma cidade em que as pessoas ocupam as ruas é uma cidade pulsante, viva. A rua não é apenas um lugar de passagem.

"O transeunte é desviado pela obra de arte, pela invasão poética, pelo atravessamento artístico e afetivo", destaca Tatiana Bittar, uma das atrizes que ocupam o palco de concreto ao ar livre. Ela lembra que o teatro nasce como fenômeno de manifestações sociais, ora como celebração, ora como protesto.

Para o grupo, no teatro de rua, o público tem autonomia para permanecer entre as cenas e não por etiqueta social. O que rege o espectador na rua é o envolvimento com o discurso e a estética, a troca de experiências. A cidade entra como ponto de partida para desenvolver a ação e se configura além do cenário, transformando-se na própria obra cênica.


Roteiro mutável

Mayara Monteiro/Divulgação

Os espaços de apresentação são cuidadosamente escolhidos e o grupo busca lugares que tenham muitos passantes, que ofereçam conforto urbano (sombra, lugares para sentar) e um ponto de energia elétrica. As atrizes em cena transformam e são transformadas pelo ambiente. Para a Cia. Andaime, não há um texto dramático, ou um caminho certo dentro da cidade. Existem as vivências de um roteiro mutável. "A liberdade e o risco de criar, com a rua, uma obra aberta".

O público é surpreendido de maneira repentina e Tatiana conta ser comum que algum espectador tente ajudar alguma atriz antes de compreender o contexto cênico ou que se choque e siga indignado com a presença de corpos seminus atravessando o cotidiano urbano. "Outros cantam com o elenco uma música que conhecem, oferecem um abraço ou jogam uma pedra. O espectador come a melancia oferecida, bebe a cerveja deixada num canto, enquanto o morador de rua recolhe as moedas caídas. A resposta do público também é forma de poesia, fruindo artisticamente com a cena".

Em Poéticas urbanas, os amores em tempos líquidos ganham destaque. As dificuldades em relacionar-se, as inseguranças e a rapidez dos términos viram material para a criação poética das cenas, que misturam teatro, poesia e performance. Em seu teatro de rua performativo, o grupo busca a possibilidade do erro, que não tem espaço em sociedades prontamente eficientes.

O espetáculo nasce a partir do livro de poesias Entreaberta, de Patrícia Del Rey, uma das integrantes da Aindaime. Entre os versos, temas como cidade, sexo, internet, feminino e relações líquidas ganham protagonismo. O contato com a rua ajuda nos passos seguintes, com a criação da dramaturgia e dos elementos musicais. A cada ano, a partir da experiência com diferentes públicos, novas cenas são criadas. "Ao longo desses 10 anos de trajetória nós percebemos como a companhia atrela a execução cênica às suas relações com os espaços e os espectadores".

Histórias forjadas pelo instante

Inominável utiliza o espaço externo de maneira diferente. O espetáculo intimista foi criado com o objetivo de que cada espectador se encontre com um ator, criando uma história que se alimenta das experiências daquele instante. As dramaturgias são construídas a partir da interação com o público, do acesso aos campos míticos, às memórias e aos afetos que se criam entre a cena e o ambiente. O público assiste ao ator e o ator assiste ao público, abrindo espaço para que o espectador também possa se encontrar em processo criativo.

Jordana Mascarenhas, uma das diretoras do espetáculo, destaca que ator precisa lidar, naquele momento, com o universo daquela pessoa que o acompanha. Em cena só tem você e a pessoa, não tem mais ninguém e ela sabe que não tem mais ninguém. É uma estrutura protegida, criando um espaço de confidências, afetos e troca de experiências. “As pessoas se abrem muito. Contam sobre suas vidas, suas histórias, compartilham com os atores ou personagens”, declara.

Cada ator trabalha também com o imprevisto das situações e o espectador passa de um mero observador para a participação ativa. Para o grupo, entre as funções mais importantes do fazer teatral, está o compromisso em informar e contribuir de maneira poética para uma sociedade mais justa e consciente. A criação do grupo, inspirada nos afetos, nas possibilidades do ambiente e na presença de um espectador-criador, fortalece o caráter experimental e contemporâneo das obras que compõem o festival. A ideia é mostrar ao público um teatro que dialogue diretamente com a sua sociedade e que seja capaz de despertar novas maneiras de entreter, envolver e compartilhar histórias e experiências.



Tradição brasiliense

Tatiana Bittar, da Cia. Andaime, lembra que não há como desassociar a história do teatro de Brasília do seu teatro de rua. Há grupos como: Esquadrão da Vida, Hierofante, Mestre Zezito, Celeiro das Antas, Mundin, Mamulengo Presepada, Palhaço Mandioca Frita, Circo Artetude. “O teatro de rua, o circo, os mamulengos e a performance urbana em Brasília ainda são artes marginalizadas. O espaço é restrito, o que não significa dizer que sua efetivação na cidade seja frágil, mas dispersa, o que é parte da natureza das ruas”, destaca a atriz. Os grupos tradicionais da cidade são exemplos ancestrais de ações que passam pelo anonimato das ruas com pleno acolhimento da população que esbarra com eles em algum espaço urbano.



Cena Contemporânea
De 22 de agosto a 3 de setembro. Espetáculo Poéticas Urbanas: Na Praça da Bíblia (Estrutural), amanhã (23/08), às 10h. Espetáculo O Inominável, no Parque Olhos D’água, sexta e sábado (25/08 e 26/08), às 20h30, 21h30 e 22h30.  Nesta terça (22/8), 12h, na Praça do conjunto Nacional 






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