Conheça orquestras brasilienses e saiba as dificuldades que elas enfrentam

Pelo menos uma teve as atividades suspensas durante mais de quatro anos: fazer música sinfônica é um ato de resistência cultural

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postado em 22/08/2017 07:03

Cristiano Costa/Sesc DF
 

 

Mesmo com o maior teatro da cidade fechado, espaço reduzido, orçamentos e patrocínios contidos por conta da crise, Brasília insiste na música de concerto. Os últimos três anos foram difíceis para músicos de orquestra e para formações sinfônicas. O fechamento do Teatro Nacional tirou o chão da Orquestra Sinfônica Claudio Santoro (OSTNCS). A Orquestra Filarmônica ficou quatro anos sem se apresentar. Na Capital Philarmonia, as apresentações têm se limitado a três por ano. O jeito é não contar muito com o dinheiro público e investir em eventos como casamentos e o mundo corporativo. É o que fazem a orquestra JK e, eventualmente, a Obach. Para o cenário difícil dos últimos anos, é notável que a cidade ainda tenha essas formações. O Correio conta como sobrevivem algumas das orquestras da capital e como se empenham em manter a música sinfônica em atividade.

Capital Philarmonia

Em 2012, o maestro Artur Soares reuniu um grupo de amigos instrumentistas que queriam fazer música e fundou a Capital Philarmonia. No total, a formação tem 35 integrantes e realiza uma média de dois concertos por ano. Poderia ser mais, se dependesse da vontade dos músicos. Mas manter uma orquestra com agenda e local para ensaiar custa caro. Soares tira do próprio bolso recursos para o sustento da Capital. “A maior dificuldade é o patrocínio. É muito difícil requerer o tempo das pessoas sem remunerá-las por isso. Principalmente para pessoas que trabalham com música, que às vezes chegam a desmarcar uma aula para ir ao ensaio. E música custa dinheiro. Temos que comprar palheta, cordas, partitura”, explica.

Este ano, a Capital vive um bom momento. Em julho, com patrocínio do FAC, montou a ópera Fidelio, de Beethoven. Até outubro, ela toca a integral das sinfonias de Félix Mendelssohn para lembrar os 170 anos da morte do compositor. É a primeira vez que a orquestra vai cobrar ingressos da plateia.

Estudio Cabine/Divulgação

Orquestra Filarmônica
Criada em 1985 por estudantes de música da Universidade de Brasília (UnB) com o nome de Orquestra Jovem de Brasília, a Filarmônica estreou com 50 músicos e a missão de ser um espaço destinado a profissionais recém-formados. A estreia, na própria UnB, contou com regência de Claudio Santoro. Hoje, a orquestra tem uma média variável de 60 músicos e um nome que inclui não apenas concertos, mas projetos sociais com dança, teatro e música. Em 2013, a falta de patrocínio fez as apresentações minguarem. Apenas no ano passado, as atividades de palco começaram a ser retomadas, mas timidamente. “O Fundo de Apoio à Cultura (FAC) não tem recursos para grupos como o nosso”, lamenta o violinista Doner Cavalcante, um dos fundadores da Filarmônica.

Em 1991, quando o então presidente Fernando Collor de Mello revogou a Lei Sarney, a formação ficou sem patrocínio por três anos e suspendeu as apresentações. Cavalcante lembra que o melhor momento foi entre 2008 e 2013, quando havia uma agenda movimentada de apresentações.

Hoje, a Filarmônica tenta se recuperar. “Passamos por um período de escuridão. Como Brasília não tem grandes empresas, fica difícil conseguir patrocínio. E a Filarmônica sobrevive de patrocínio e de emendas parlamentares de algum deputado que queira ajudar”, lamenta Thiago Franciss, atual regente e diretor artístico da formação.

Boa parte dos músicos vêm da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, da Escola de Música de Brasília (EMB) e da UnB. “Brasília é a um celeiro de música, temos a EMB e a UnB, que fabricam esses novos profissionais, mas eles não têm onde trabalhar. Nossa meta é reorganizar a Filarmônica e colocá-la de novo nos palcos”, explica o regente, que observa com apreensão o cenário nacional da música clássica. “Este ano vimos vários problemas relacionados a orquestras no Brasil, a OSB com orçamento cortado, várias orquestras fechadas, a Osesp com problemas de orçamento”, diz. Para ele, Brasília tem público para muito mais que uma orquestra e é preciso incentivar esse potencial. A Filarmônica está fechando um patrocínio de R$ 10 milhões via Lei Rouanet com uma empresa cujo nome Franciss ainda não revela. O dinheiro vai manter a agenda de concertos por um ano, com direito a shows populares, artistas convidados e foco na formação de plateia. Em contrapartida, o regente quer criar uma orquestra jovem para absorver, principalmente, músicos egressos de projetos sociais.

Tomás Faquini/Divulgação


Obach
A Orquestra Brasileira de Arte e Cultura (Obach) sobrevive graças às atividades da produtora Toccata, que atua em vários segmentos de música para eventos. A iniciativa foi da violinista Kathia Pinheiro, aposentada da OSTNCS. “A Obach nasceu para resgatar a música barroca”, avisa a instrumentista. De dois em dois meses, sempre às 16h, a orquestra de 12 músicos realiza concertos na Igreja Dom Bosco. Os instrumentistas se vestem com roupas de época e tocam o repertório barroco. Os ensaios acontecem regularmente, duas vezes por semana e o próximo concerto será em 17 de setembro. “Montei a Obach porque não poderia parar de tocar”, conta Kathia, que conseguiu, inclusive, organizar a gravação de um DVD de uma apresentação da orquestra. Ligar a Obach à produtora ajudou a fomentar e manter o sonho de não parar de tocar música de concerto. “Essa crise deu uma afastada nos patrocinadores. Eles ficaram temerosos. E mesmo que seja através da Lei Rouanet, nem sempre eles veem com bons olhos o patrocínio. É tudo meio engessado. E como a gente quer fazer música, a gente faz”, diz.

Edy Amaro/Esp. CB/D.A Press


Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro (OSTNCS)
Criada pelo compositor e maestro Claudio Santoro em 1980, a OSTNCS é a maior de Brasília e conta hoje com 69 músicos. Desde o fechamento do Teatro Nacional, em 2014, a sinfônica ficou sem lugar fixo para as apresentações que aconteciam às terças-feiras na sala Villa-Lobos. Depois de passar por vários teatros da cidade, a OSTNCS agora se apresenta no Cine Brasília, cujo palco foi ampliado para abrigar os músicos. As apresentações continuam regularmente às terças e, este ano, um ciclo dedicado a Ludwig van Beethoven leva ao palco sinfonias e concertos para piano do compositor alemão.

A OSTNCS é um órgão público ligado à secretaria de Cultura do Distrito Federal e todos os músicos são servidores concursados, mas as sucessivas crises financeiras do GDF baqueou a orquestra, que já chegou a ter 80 músicos. Em 2014, um concurso para todos os instrumentos aprovou 20 nomes e fez um cadastro reserva de 30 instrumentistas, mas nenhum foi nomeado até agora. “Estamos aguardando”, garante o maestro Claudio Cohen, regente da OSTNCS.

Karina Santiago/Divulgação

Orquestra JK
A JK nasceu em 2007 como Brasília Big Band, sob o comando do maestro Ademir Júnior, para participar de cerimoniais do Governo do Distrito Federal (GDF). Em 2011, no entanto, a formação deixou o GDF e, no ano seguinte, se tornou a Orquestra JK, um dos braços da JK Produções Musicais, empresa que trabalha com eventos na área de música. Com duas formações que podem ter 19 ou 9 músicos, a JK é uma big band eclética que toca todo estilo de música. Muitos dos integrantes vêm de instituições que têm tradição em bandas sinfônicas, como o Corpo de Bombeiros, a Polícia Militar, a Polícia Civil e a EMB.

Este ano, a orquestra conseguiu apoio de R$ 239 mil do FAC por meio de edital de manutenção. O dinheiro vai permitir uma agenda constante de apresentações que devem começar no início de 2018. “Pensamos em fazer apresentações em teatros e praças públicas para popularizar o trabalho”, explica Ademir Júnior. Para ele, criar uma empresa e se desligar do setor público para atuar também no mercado privado foi o jeito mais seguro de conseguir manter uma banda sinfônica. “Entendemos que criar uma produtora seria a melhor forma porque tem autonomia e podemos fechar contratos e fazer shows fora sem a burocracia de estado”, explica. “O bom, no caso da produtora, é que ela abre um leque grande de opções e não fica fechado na orquestra em si.”









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