Xande de Pilares lança disco solo com convidados como Zeca Pagodinho

Novo álbum de Xande de Pilares é biográfico e tem a mãe como convidada

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postado em 23/08/2017 07:30

Guto Costa/Divulgacao
 
 
 
Três anos após deixar o comando dos vocais do Revelação, o cantor e compositor Xande de Pilares lança o segundo álbum da carreira solo. O disco Esse menino sou eu reúne 17 faixas, escolhidas em um repertório que abrangia 45 canções, e revela, de certo modo, a intimidade do cantor. No álbum, Xande divide os vocais com a mãe, Maura Helena, traz os ídolos e amigos Zeca Pagodinho (Homem de lata) e Jorge Aragão (A lã e o cobertor) e ainda apresenta canções que retratam o seu início no samba, como Cavaco vadio.

Exímio compositor, foram as letras que introduziram o artista no samba. No início, Xande de Pilares queria apenas escrever canções e não se imaginava cantando. Venceu a timidez e as limitações, como ele mesmo diz, e assumiu os vocais do Revelação, para anos depois seguir o próprio caminho em uma trajetória rumo ao espaço no ritmo criado por nomes como Almir Guineto e Zeca Pagodinho.

Ao Correio, Xande de Pilares relembra o início da trajetória e os desafios da carreira solo, fala sobre o novo álbum, a força das letras e ainda analisa o cenário do samba na música atual. “A música ainda é um santo remédio. Ela tem um poder muito grande na vida das pessoas”, define.



PONTO A PONTO // Xande de Pilares


Resgate
Minha intenção não foi fazer um disco biográfico, mas de resgate, algo que eu sempre fiz. Acabou que chegamos num repertório que, praticamente, virou um álbum biográfico, com músicas como Mãe, que foi gravada com a minha mãe, Maura Helena, e Cavaco vadio, que é o tipo de música que eu consumia quando era criança.


Repertório
Eu e o Prateado (produtor do álbum) descobrimos que vivemos as mesmas coisas, quando começamos a falar das músicas, ele contava o que ouvia e eu escutava também. Acabamos num repertório de 45 músicas e depois ficou fechado em 35. Então, o álbum foi dividido em duas partes. Se eu pudesse teria lançado um CD duplo. Eu fiz questão de contar a minha história na música, que é muito extensa e pode ser contada mais para frente. Mas Esse menino sou tem tudo que eu já queria falar há muito tempo, como a história da música Mãe.


Presença materna
Eu achei bacana cantar com a minha mãe. Ela achou que era brincadeira minha quando fiz o convite. O interessante é que eu já vi muitos cantores cantando com os pais e as mães, mas o que me chama atenção nessa música é que ela parece uma conversa entre mãe e filho, em que minha mãe agradece minha obediência e, eu, por ela ter sido tão rigorosa. Na infância, ninguém gosta de levar palmadas, mas quando chega lá na frente, entende porque apanhou. Eu agradeço e reconheço o valor. A música é um bate-papo bem íntimo entre nós, que temos uma história muito bonita. Apesar de não ter tido algumas coisas, tive uma infância muito legal. Nunca passamos fome, ela sempre trabalhou e a única forma que eu tenho de retribuir é colocando minha mãe na minha história.


Nomes do samba
A escolha do Zeca (Pagodinho) já era algo imaginado. Se eu pudesse, eu gravava com ele em todos os discos que faço. Todo mundo sabe da minha admiração. Ele é um cara que quando tem que dar um puxão de orelha, ele dá. Ele faz parte das minhas influências. O Jorge Aragão é um gênio, tanto escrevendo quanto interpretando. Ele é meu amigo e fizemos uma canção juntos (A lã e o cobertor). Também teve participação do André Renato, que é filho do Sereno do Fundo de Quintal. Ele é um compositor que eu conheço há muito tempo. No ano passado, no Dia de São Jorge, ele me convidou para prestar uma homenagem e acabei gostando da música.


Mensagem
Eu gosto muito de gravar o que vai tocar no coração das pessoas. É muito legal você cantar que vai beber, que vai deixar alguém, que vai jogar bola, mas você sempre tem que pensar que do outro lado pode ter alguém precisando ouvir algo positivo. Recentemente, um amigo me contou que estava pensado em tirar a própria vida, chegou a escrever uma carta para a família e, no dia, escutou Tá escrito, que é um grande sucesso, e viu que devia parar. Acho que como artistas temos que continuar levando letras boas para as pessoas. A música ainda é um santo remédio. Ela tem um poder muito grande na vida das pessoas e pode fazer mudanças. O Brasil está precisando de muita música que tenha um tipo de mensagem para as pessoas não desistirem, que o mundo não vai acabar agora, que a gente não deve entrar em desespero.


Cenário musical
Eu sempre bato na mesma tecla e tenho idade suficiente para dizer isso. Eu peguei o tempo de Jovem Guarda, que foi um auge danado. E o samba estava ali com Martinho da Vila com moral, tinha Elza Soares, Elizeth Cardoso... Nos anos 1980, tinha a banda Originais do Samba e era o auge do pop rock, que crescia com o Barão Vermelho. Depois veio o Milton Manhães com um disco que revelou Jovelina Pérola Negra e Zeca Pagodinho. Em seguida veio o fenômeno do Beto Barbosa e estava a galera do Raça Negra. Depois veio o pessoal da Bahia com o axé divertindo o povo. Hoje estamos com o sertanejo no auge, num lugar onde já esteve o funk. Daqui a pouco o samba volta. A moda vai e volta e o samba nunca acaba, ele só sai da mídia e faz um desvio necessário de volta ao reduto dele. Quem quiser curtir um samba sempre tem o Samba do Trabalhador, o Templo em São Paulo.


Início
Na realidade, eu queria ser compositor, eu fazia música pra lá e pra cá. Mostrava e não conseguia nada. Até que consegui que o Bira gravasse minha música na banda Só Bamba, que era um grupo de uma rapaziada do Rio de Janeiro. Até que pintou o lance de gravar o primeiro disco do Revelação. Eu não queria cantar de jeito nenhum. Fui me adaptando e acabei criando um estilo próprio. Eu uso meus recursos, como a improvisação. Eu nunca fui apressado, esperei o momento certo com o Revelação. A gente trabalhou muito até que eu saí. Vendemos bastante discos, conhecemos vários países e cidades do Brasil, ajudamos muita gente... Desde quando eu saí, dei uma parada para olhar o caminho que tinha. Não tinha asfalto, acostamento e tinha uma ponte para ser construída. A ponte, eu considero que, hoje, já construí.


Carreira solo
O mais desafiador (de sair do Revelação) foi a readaptação, superar aquele medo de subir ao palco sozinho e encarar a realidade de ter que abandonar o cavaquinho por um período no show. Eu precisava abrir mão e não queria de jeito nenhum. Para que eu pudesse encontrar minha diretriz, tive que ceder. Foi um desafio, porque até hoje eu sou tímido. Essa coisa de voltar a segurar o microfone no show foi difícil. Primeiro eu cantava com o microfone na mão, depois larguei para cantar junto com o cavaquinho. Acho que outro ponto desafiador foi tirar da cabeça das pessoas qualquer tipo de individualismo, qualquer tipo de ideia que era para ganhar mais e sim uma satisfação de poder dar continuidade a algo que Almir Guineto começou, assim com o próprio Bezerra da Silva e Zeca Pagodinho. A minha carreira solo foi uma forma de me oferecer, como um voluntário para continuar, pelo prazer de cantar o Brasil e poder dividir também entre trabalhar e viver.




Esse menino sou eu
De Xande de Pilares. Universal Music Divulgação, 17 faixas. Preço médio: R$ 21,90. 
 
 
 
 
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