Pessoas com deficiência física raramente são representadas no audiovisual

Mesmo sendo quase 24% da população brasileira, faltam personagens e representações nas produções

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postado em 24/08/2017 10:00 / atualizado em 24/08/2017 10:16

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Tente pensar no último personagem com deficiência física que você viu na tevê. Tudo bem, pode até ser em alguma série ou filme. Já faz um tempo? Ele era protagonista? Se suas respostas foram “sim” e “não”, você está do lado de profissionais e pessoas com algum tipo de deficiência física que não se sentem representados em conteúdos audiovisuais, mesmo constituindo mais de 45,6 milhões de brasileiros – ou quase 24% da população, de acordo com o último senso de 2010.

“Você simplesmente não vê pessoas com deficiência nas séries, na tevê, e quanto tem é um ator, sendo que existem ótimos profissionais cadeirantes. Essa não é a realidade das ruas. Todo mundo é igual na novela? Não existem pessoas sem perna, ou sem braço? Não, né?". A contundente opinião sobre a falta de representatividade de pessoas com deficiência é da assistente jurídica e modelo, Kallyna Sampaio, 24 anos. Tetraplégica, Kallyna ainda completa: “Essa situação faz com que as pessoas com alguma deficiência se sintam mal, as fazem se sentirem que é "ok" ser excluída, ficar dentro de casa, sendo que não é”.

Para Francisco Djalma de Oliveira, diretor da Apabb (Associação de Pais, Amigos e Pessoas com Deficiência), a falta de representatividade em produções audiovisuais significa uma perpetuação da discriminação que pessoas com deficiência sofrem diariamente. “A falta de representação significa uma cristalização da exclusão das pessoas com deficiência. Isso só gera um maior ciclo de exclusões”, defende Oliveira. O diretor ainda lembra que, quando a exclusão não é completa, o caminho mais comum das produções audiovisuais é romantizar uma vida irreal para aqueles que convivem com alguma deficiência: “Eu considero que existe uma visão muito romantizada do universo das pessoas com deficiência. Não representa fatos, dificuldades, que é o que importa, mas não é representado. É sempre encontrar um amor e pronto”.


Você presta atenção nisso?


Por não vivenciarem essa falta de representatividade, a população em geral sequer presta atenção neste fato, pelo menos é o que defende Kal Brynner, 28 anos, que é paraplégico: “Eu só comecei a prestar atenção nisso depois do meu acidente, de como as pessoas com deficiência não estão na televisão, é um fato curioso”.

O atleta vítima de uma paraplegia ainda sustenta que esse panorama de falta de representação pode mudar. “Essa representação não é proporcional ao que existe na vida real, mas acho que, aos poucos, essa situação esta mudando sim. Aos poucos, vemos mais pessoas com deficiência em programas de auditório, ou até mesmo nas novelas, pelo menos é o que eu acho”, diz Brynner.

Contexto histórico

Amaralina Miranda é professora e pesquisadora da Faculdade de Educação, da Universidade de Brasília. Ela explica que a razão para a falta da representatividade de indivíduos com deficiências físicas nas produções audiovisuais tem uma explicação histórica, e por isso, difícil de contornar.

“Essa questão tem a ver essencialmente com todo um aspecto cultural. O que a gente tem de entender é o contexto histórico. A falta de representação hoje está ligada com a discriminação que ocorre há muito tempo no país”, defende Amaralina.

Mais do que alertar para a falta de representatividade, a professora ainda lembra sobre a responsabilidade da mídia para mudar esse parâmetro: “O entretenimento, a comunicação e a representação que elas causam são um importante canal para mostrar que essas pessoas são capazes, que tem valor. Quanto mais existir representatividade, quanto mais a sociedade ver, mais terá uma desconstrução de que essas pessoas são incapazes”.

Oliveira, diretor da Apabb, ainda completa com uma solução que pode mudar essencialmente o atual contexto de representações: “Uma questão que é necessária, que inclusive está na lei, são as cotas nas empresas para pessoas com deficiência. Isso é um passo muito importante para a maior integração dessas pessoas”, sintetiza.

Confira alguns personagens das telas brasileiras e mundiais que levaram a representação das pessoas com deficiências físicas ao grande público:

Maria Flor (Bruna Marquezine)

A pequena garota emocionou, em 2005, na pele de uma cega na novela América, da Rede Globo. A história para a Maria tem um final feliz de maior independência.
 
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Artie (Kevin McHale)

O adolescente mostrou força e determinação a milhares, quando interpretou um cadeirante na série Glee, de 2009 a 2015.

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Xande (Dudu Azevedo)

O bom rapaz que fica sem andar após salvar a namorada emocionou o país, em 2008, na novela Três irmãs, também da Rede Globo.

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Luciana (Alinne Moraes)

Marcada na história da teledramaturgia nacional, Luciana representou a tetraplegia na novela Viver a vida, Rede Globo, em 2008.

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Pedro (Eriberto Leão)

Na novela Insensato coração (2011), Pedro fica impedido de andar depois de uma lesão medular. 

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*Estagiário sob supervisão de Vinicius Nader
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