Dados da Netflix apontam preferência do público por conteúdos dublados

O número foi divulgado durante o evento Vive Netflix, na Cidade do México, pelo vice-presidente de produtos da plataforma, Todd Yellin

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postado em 26/08/2017 07:30 / atualizado em 26/08/2017 11:01

Beth Dubber/Netflix
 
Cidade do México — “Oi, é a Hannah, Hannah Baker. Se acomode porque agora eu vou contar a história da minha vida. Especificamente porque minha vida chegou ao fim. E se você estiver escutando essa fita, você foi um dos motivos”. Essa é uma das frases que se tornou marco na série 13 reasons why (ou 13 porquês) e foi exatamente assim, em português, que ela foi entoada para 84% dos brasileiros que assistiram à produção na Netflix.
 
O número foi divulgado durante o evento Vive Netflix, na Cidade do México, pelo vice-presidente de produtos da plataforma, Todd Yellin, e reforça os dados do serviço de streaming de que o Brasil está entre os países que mais consomem conteúdos dublados na plataforma na América Latina. “A maioria das séries da Netflix são assistidas em formato dublado na América Latina. Por isso, estamos cada vez mais investindo nesse formato. Dublagem é uma prioridade para nós. Queremos os melhores dubladores e linguísticas envolvidos nesse processo”, afirma Yellin.
 
 

Ao Correio, o VP da Netflix divulgou números exclusivos sobre a preferência do público brasileiro. Entre as séries, o Brasil tem os maiores índices: a produção mais assistida em formato dublado é Arrow, com 93%, seguida de The vampire diaries, com 92%. Com índices próximos de 13 reasons why está Grey’s anatomy, com 86%. Entre os mais baixos, estão Vikings, com 75%, e House of cards, com 50%. Enquanto no México, Colômbia, Chile e Argentina, o maior número é de 86%, de The walking dead. Já em relação aos filmes, o longa-metragem com o maior índice de reproduções dubladas no Brasil é Velozes e furiosos 7, com 96% (no restante da América Latina, o número é de 92%), enquanto o menor é Lion — Uma jornada para casa, com 66%.
 
Arquivo Pessoal
 

Voz de Hannah

A série 13 reasons why foi o principal hit do serviço de streaming em 2017. A série acompanha a história da protagonista Hannah Baker, uma jovem que, antes de se matar, deixa sete fitas gravadas com os motivos que a levaram ao suicídio. Apesar de a personagem ser interpretada pela atriz australiana Katherine Langford, foi na voz da brasileira Fernanda Bullara que boa parte dos brasileiros conheceu a trama de Hannah.

Fernanda Bullara se tornou a voz de Hannah após fazer um teste para a Netflix. A atriz é bastante conhecida dentro do cenário da dublagem, principalmente, para o público mais jovem. Em seu currículo, ela tem vozes de Sharpey em High school musical, Lara Croft nos jogos de videogame, Scarlett Johansson em A vigilante do amanhã: Ghost in the shell, e Cara Delevingne, em Valerian e a cidade dos mil planetas. “Na verdade, comecei com 6 anos. Minha mãe trabalhava em um estúdio de dublagem e quase não tinha criança dublando, geralmente, os adultos faziam as vozes infantis. Mas as emissoras estavam interessadas em crianças. Comecei, fui ficando e não parei mais”, lembra.

Com mais de 20 anos de experiência em dublagem, Fernanda Bullara afirma que tem percebido o crescimento da preferência do público por produções dubladas. “Já faz um tempo que aumentou essa preferência. Vem crescendo e ganhando espaço. Acho isso bem bacana”, comenta. Para ela, o maior desafio da dublagem é a interpretação em si. “Você tem que interpretar para que não pareça falso. Dicção também é um ponto importante, o público tem que entender o que você fala. Tem ainda o sincronismo”, completa.
 

Dublagem em Brasília

 

A dublagem no Brasil costuma ser mais frequente no eixo RJ-SP (assim como boa parte do mercado audiovisual), no entanto, com a popularização do formato nos últimos anos — em 2015, o FilmeB mostrou em levantamento que 6 em cada 10 brasileiros preferem assistir a filmes dublados — o mercado tem se expandido no Brasil. “RJ e SP ficam muito focados na dublagem de séries, filmes e desenhos, porque é onde estão a maior parte dos dubladores. Mas o mercado tem crescido por conta da descoberta de novos talentos com os cursos”, analisa Paulo Pannaroni, um dos sócios da DJRádio, empresa que dá cursos de dublagem em Brasília. Na capital federal, a dublagem é mais focada no mercado publicitário, que envolve animações, games e projetos para multinacionais.
 
 

Criada em 1998, a DJRádio, localizada na Asa Norte, formou ao longo desse período mais de 300 dubladores e, nos últimos anos, criou o projeto Dubla voz, uma espécie de banco com as novas vozes do mercado de dublagem. A atriz Carmén Lutcha é uma das dubladoras formadas pelo local. Neste ano, ela decidiu entrar no curso como forma de ampliar suas opções dentro da atuação. “Uma das vertentes da atuação é a dublagem. Fui atrás e me apaixonei. Além disso, você colocar a voz na dublagem é um exercício muito bom para o ator”, afirma. Profissionalmente como dubladora, Cármen já trabalhou no mercado publicitário.

O brasiliense Luis Humberto Beltão é outro ator que resolveu enveredar pela dublagem. Estudante de artes cênicas, ele sempre preferiu ficar atrás das câmeras e dos palcos, a dublagem se mostrou a área ideal. “É um universo fantástico. A dublagem, em alguns pontos, acaba sendo mais difícil do que a atuação em si, principalmente, quando se dubla atores reais, porque, no filme, ele contracena com outro ator, pode usar a expressão corporal, nós precisamos fazer tudo com a voz”, define. Já o estudante de medicina e professor Thiago Carvalho entrou no mundo da dublagem por hobby. “Nunca tive um pé na arte, mas estava numa rotina estressante e surgiu a dublagem. Acabou sendo um refúgio. O que mais gosto na dublagem é dá uma proximidade com o público”, analisa o jovem.

Para o trio de dubladores da capital, o segredo do sucesso da dublagem está ligado a alguns fatores, como a facilidade, a profissionalização e a proximidade com os espectadores. “Tem muita gente que assiste a um filme ou a uma série enquanto faz outras coisas, então fica mais fácil ouvir dublado. Tem gente que não gosta de legenda, que não consegue acompanhar ou tem preguiça de ler, ou, simplesmente, quer prestar mais atenção no conteúdo”, completa Cármen Lutcha. 

*A repórter viajou a convite da Netflix

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