Maria Rita Kehl defende música de Chico Buarque considerada machista

Em texto no Facebook, a psicanalista e ativista dos direitos humanos defende "a autonomia de qualquer obra de arte" e "o livre direito ao uso da ironia"

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postado em 01/09/2017 20:51

Facebook/Reprodução

 
A psicanalista Maria Rita Kehl, uma das mais respeitadas defensoras dos direitos humanos no Brasil e um das integrantes da Comissão nacional da Verdade, que apurou crimes cometidos pela ditadura militar, publicou, nesta sexta-feira (1º/9), um texto em que faz considerações sobre as acusações de machismo que o cantor e compositor Chico Buarque vem sofrendo desde que lançou a música 'Tua cantiga', que traz o verso "Largo mulher e filhos e , de joelhos, vou te seguir".
 

"Gostaria de fazer uma defesa, não do Chico individualmente, mas da autonomia de qualquer obra de arte. E sobretudo, do livre direito ao uso da ironia", diz Kehl logo no início do texto, intitulado 'Chico machista?' e divulgado em sua página no Facebook

Antes de comentar a nova música de Chico e motivo de toda a polêmica, a psicanalista lembra outras canções de Chico que atestariam seu "feminismo" (ela mesmo usa a palavra entre aspas). Entre essas obras, ela destaca 'Geni e o Zepelim', sobre uma travesti execrada por uma cidade inteira, e 'Deixa a menina', na qual um marido é criticado por não deixar sua mulher "sambar em paz". 

Kehl, então, diz que em outras de suas músicas, Chico utilizou expressões que podem incomodar, caso de "carregar a moça", na música 'Sou eu': “Porém, depois que essa mulher espalha/ seu fogo de palha no salão/ pra quem que ela arrasta a asa/ quem vai lhe apagar a brasa/ quem é que carrega a moça pra casa?" A psicanalista entende que não é certo uma mulher ser carregada, mas argumenta: "Chico estava mergulhado no ponto de visa do 'narrador'. É o narrador da música que se vangloria de não sentir ciúmes dos olhares masculinos, enquanto ela dança, porque sabe que depois vai 'carregar' a moça pra casa."
 
Responsabilidades 

Após essas considerações, ela comenta 'Tua cantiga': "Por fim, um comentário sobre 'largo mulher e filhos'... Sim, é triste ser mulher largada por um homem que vai atrás de outra. Mais triste ainda se ele nem se responsabiliza por compartilhar o cuidado e a responsabilidade com os filhos. Porém, não sei se o compositor não estaria levando ao ponto de saturação a rendição do apaixonado que se arrasta aos pés da amada (ops... machistas fazem isso?). Se não for isso, devo admitir que também não gosto da expressão, já que não aprovo a prática de 'largar' qualquer responsabilidade, afetiva ou não, para trás.

Mulheres em geral são mais responsáveis com os filhos, mas todo psicanalista conhece uma ou duas histórias nas quais uma mulher que se apaixonou por outro “largou homem e filhos” pra ir atrás dele.

Chico e Marieta (Severo), um casal apaixonado e livre (ao que se sabe, nenhum dos dois se privou de ter outros casos durante o casamento) se separaram amigavelmente há alguns anos. Ela casou-se com Aderbal Freire Filho, um grande (e muito bonito) diretor teatral. E continua amiga do ex-marido, que teve (ou ainda tem, não sei) uma bela história de amor com uma jovenzinha alardeada em canções do penúltimo CD. Ele não 'largou mulher e filhos' (filhas). Casais se separam, novos amores acontecem. Para homens e mulheres. Os filhos continuam a ser responsabilidade de ambos. Isso nunca aconteceu com vocês?"
 
 

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