Projeto multimídia reconstitui história do choro em Brasília

Coordenado por Beth Ernest Dias, o trabalho conta com um livro, um caderno de choros e dois CDs

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postado em 02/09/2017 07:33 / atualizado em 04/09/2017 16:04



Não é indiferente o fato de Beth Ernest Dias, autora do belo projeto Sábado à Tarde: Avena de Castro, a cítara e o choro em Brasília, que resultou em um livro, um caderno de choros (melodias e cifras) deste compositor e dois CDs (A cítara e Os choros de Heitor Avena de Castro) —, ser ela mesma flautista e professora e pertencer a uma família reconhecida pelo trabalho musical também consolidado por seus irmãos e sua mãe. Essa dupla condição dá ou deu a ela, se é possível dizer, o olhar curioso, investigativo e uma espécie de compaixão esclarecida por esses músicos.

Em seu projeto, Beth pretendeu desenhar um panorama musical de Brasília no momento em que músicos excepcionais como o citarista Heitor Avena de Castro (Rio de Janeiro, 7/12/1919 — Brasília, 11/7/1981) se reuniam afetivamente para encontros de choro na cidade entre as décadas de 1960 e 1970. Mas já na introdução do livro há referência ao encontro espantado da autora com as demolições, a escassez e o silêncio dos documentos em Brasília. “Quanto aos monumentos públicos” — desabafa —, “aí mesmo é que não se encontra nada” nesta cidade “tão nova”. Tão nova quanto moderna, confiante e apressada e sem tempo para preservar?
 

Contudo, apesar da escassez de registros disponíveis confessada naquela introdução, a impressão que se tem é de que a âncora metodológica escolhida pela pesquisadora lhe permitiu avançar ao olhar e caminhar para fontes diferenciadas, reabrir o objeto de estudo e melhor iluminar alguns de seus aspectos, possibilitando uma aproximação distanciada e não menos instigante sobre a ação cultural desse grupo de músicos na cidade.

Cenas de encontros

Pelo suporte fotográfico imagens valiosas revelam no livro e no caderno algumas vistas parciais de Brasília entre as décadas de 1950 e 1960, cenas diversas de encontros musicais, programas de concertos, capas de LPs, partituras e anotações, a cítara e acessórios de Avena de Castro em um primoroso e agradável projeto gráfico bom de ver, tocar e folhear enquanto se lê e se pensa sobre ele. Para leitores e pesquisadores é muito confortável encontrar um rol de fontes bem organizado que inclui bibliografia, depoimentos, acervos, sites etc., além de dois ricos apêndices referentes às composições e à discografia de Avena de Castro.

O caderno de melodias e cifras, acertadamente bilíngue português-inglês — já que o choro anda mesmo pelo mundo! —, reúne algumas das mais significativas composições de Heitor Avena de Castro e inclui em fac-símile a sua “letra musical” como está no choro-lamento Evocação de Jacob, assinado e datado de 17 de agosto de 1969. A escrita de Avena é tão perfeita que à primeira vista nos parece igual ao documento impresso na página ao lado! Todo esse caderno é um primor generosamente cedido aos músicos e estudiosos também do choro.

Também são ótimas e valiosas as gravações nos dois CDs: a força coletiva, inspiradora e brejeira do choro tocado por instrumentistas das novas gerações no CD 1; a abertura de Jacob do Bandolim e o depoimento instrutivo, claro e sereno de Avena de Castro sobre a cítara e suas composições no CD 2. Merece registro a incrível foto-capa de sombra e luz de João Paulo Barbosa que reveste o envelope duplo que abriga os CDs.

O caminho pela defesa do patrimônio é tortuoso e por vezes interrompido pelo fato de as ações preservacionistas se moverem em campos minados de forças e de trocas político-culturais em diferentes escalas de interesses, objetivos e manobras. Contudo, ganha em avanços a compreensão sobre a necessidade de proteger a vida dos bens do patrimônio como um ato essencialmente moderno e político. Mesmo no dia a dia apressado e atropelado pela desatenção e grosseria, compreendemos a necessidade de recuperar alguns dos vínculos com nosso patrimônio cultural atribuindo-lhe valores e referências, recompondo partes da memória e da história que ele nos envia, já que somos sempre orientados ou constituídos por ele no tempo e no espaço – sempre plurais.

Esses saberes coletivos sobre o tema do patrimônio reforçam a importância de Sábado à Tarde. Pelo zelo e rigor profissional da pesquisa, pelo cuidado de combinar dados informativos com uma prosa nítida e nada linear, além do bom gosto gráfico e estético. Com a cabeça e o coração, esse projeto marca um claro compromisso com o patrimônio cultural da cidade de Brasília e também, por tratar das especificidades do gênero musical, o choro, com a cultura brasileira.

Renovação

Segundo alguns comentadores, hoje o choro é um dos gêneros musicais mais jovens do Brasil, pela sua renovação permanente. Como exemplo, o violão de 7 cordas, um parceiro importante dos chorões, é (bem) tocado do norte ao sul do país por novas gerações de instrumentistas – além das escolas de música, clubes de choros em viva atividade em várias cidades brasileiras talvez e certamente pela capacidade de agregação do próprio choro.

Por tudo isso, este Sábado à tarde provavelmente terá seu lugar de destaque; melhor, de referência. Muito provavelmente será obra companheira de outras que registram com qualidade nosso patrimônio musical, como é caso do genial O choro: reminiscências dos chorões antigos, de autoria de Alexandre Gonçalves Pinto, um carteiro de codinome Animal, que foi editado no Rio de Janeiro pela Tipografia Glória em 1936.

No início do segundo capítulo, uma surpreendente alça metodológica nos é apresentada pela narradora com o espelhamento dos textos “O quarto de Raimundo” e “O apartamento de Raimundo”. A transcrição de “O quarto de Raimundo”, verbete do livro do Animal, nos oferece o prazer da leitura também sobre esse ambiente de propriedade de Raymundo Conceição, oficial da Guarda Nacional e impressor que liberava o seu quarto para uma “república dos boêmios chorões” da cidade do Rio de Janeiro que ali ensaiavam, guardavam seus instrumentos e pernoitavam nos idos de 1890 a 1898.

Entre outras, o texto de Alexandre Gonçalves Pinto é revelador da antiga força e vitalidade do choro entre a gente brasileira. “O apartamento de Raimundo”, por sua vez, é construção e justaposição de um texto construído pela narradora, que confessa que “queria ter participado das reuniões para ter em minha memória registro de alguns bons episódios” ali ocorridos (p. 25).

Os Raimundos

Com isso a autora declara sua admiração e desejo de filiação ao estilo de Alexandre para, agora, construir o perfil do “seu” Raimundo: Raimundo de Brito, jornalista da Câmara de Deputados, dono do apartamento no bloco C da superquadra Sul 105 que o liberava aos sábados à tarde para ensaios e gravações de choro entre os anos de 1968 e 1974. E que se tornou um ponto de encontro produtivo e animado, que recebeu músicos importantes como Jacob Bittencourt, Waldir Azevedo, Pernambuco do Pandeiro, Dino 7 cordas, César Farias, todo o grupo em torno de Avena de Castro, entre muitos.

O achado desse bom recurso narrativo pelas virtudes do manejo metodológico é sofisticado: mistura os Raimundos, a sociabilidade, o choro, a “flor dos chorões” de cada tempo e espaço que, distintos, se aproximam fazendo tudo isso funcionar diferentemente – assim como nos dois CDs!
 
Atenção especial para cada artista 
 
Muito respeitosa é a forma de nomear cada artista, prática que se repete generosa e que emociona, sobretudo quando o livro quase que se fecha (mas não!) e ainda encontramos referências sobre os caminhos da cítara ao Brasil e os mestres de Avena de Castro. Seguindo os passos do texto e o texto das imagens, toda aquela ambiência provocada pela narrativa nos faz esperar com alguma curiosidade por partes da vida do protagonista que, afinal, se abre como alguém dedicado, amoroso e trabalhador. Ele foi funcionário da Casa da Moeda, no Rio de Janeiro; gerente de uma fábrica de fibras, em Ubá; morador de Paquetá até a decisão difícil da mudança para Brasília, onde faria também trabalhos como contador, mas na espera, sobretudo, das possibilidades musicais e instrumentais oferecidas pela nova capital mesmo em um quadro de efetivas mudanças no mercado cultural. Avena e sua família se viravam com o mínimo para a sobrevivência ou, como ele próprio diz em 1965 em uma correspondência citada à p. 67, “era um lutador pela sobrevivência, na luta desigual entre as necessidades grandes e os ganhos pequenos”.
 
Nos passos da pesquisa relatada no livro por Beth Ernest Dias, o que se nota é o trabalho incessante desse músico pela superação das dificuldades, participando com sua cítara de concertos, de acompanhamentos, de alguns programas de rádio, se empenhando nos encontros e ensaios e na formação de grupos musicais. O que resultou no seu reconhecimento progressivo como citarista e compositor e talvez como uma liderança explicativa na formação do gosto estético e também na prática musical do choro tocado em Brasília. Como dizia um amigo poeta, que já se foi, “esse sabido não passou porque foi o que mais trabalhou”. Salve! 
 
Mariza Guerra de Andrade é historiadora pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É autora do livro A educação exilada: Colégio do caraça, 2000, e de Anel encarnado: biografia & história em Raimundo Magalhães Junior, 2013, ambos publicados pela Autêntica Editora, Belo Horizonte.


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