Cena Contemporânea encerra hoje as apresentações da edição de 2017

Festival foi marcado por textos fortes e a busca constante por dar voz às minorias e às reflexões mais urgentes da sociedade atual

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postado em 03/09/2017 07:30

VictorTakayama/Flagcxiv

 
O último fim de semana do Cena Contemporânea 2017 pode resumir bem o espírito e o movimento que tomaram conta do festival. Nos dois dias que o encerram, um espetáculo forte e bem trabalhado do Distrito Federal; a potência e a voz de uma mulher negra de Minas Gerais – Grace Passô, uma das dramaturgas mais reconhecidas da cena atual –; a fuga cotidiana em um texto que vem da Bahia; a obra carioca que trata de autoridade, política e violência; a performance em corpo nu de um artista que volta à cidade depois de ter sido detido nela. Diversidade cênica, regional e humana marcaram a programação que, em sua grande maioria, foi preenchida por monólogos. A força do indivíduo e a possibilidade de transformação de cada voz foram colocadas em evidência.

A performance de Maikon Kempinks, DNA de DAN, se destaca como um dos elementos de grande impacto e possibilidade real de transformação através da arte. O performer foi detido pela Polícia Militar em julho, quando se apresentava no mesmo local e com a mesma obra que retornou ao festival. A ideia é criar um precedente positivo e transformar a situação de violência numa possibilidade de abrir novos caminhos para outros artistas que vierem a seguir. O retorno à capital, para ele, chega como uma pequena vitória da arte sobre as forças de opressão.

A apresentação desse sábado contou ainda com o projeto Fotona, idealizado por Diego Ponce de Leon, com fotografia de Kazuo Okubo e voluntários dispostos a se despir em manifestação. “É o começo de uma ação quase educativa. Eu nunca tinha sofrido uma violência assim antes. Um artista, quando está nu em cena, isso tem vários significados, diversas leituras. Não quer dizer, necessariamente, que ele esteja dialogando sobre sexo ou erotismo”, afirma Maikon.
 

Para o performer, a falta de diálogo foi o ponto ápice da situação violenta e é exatamente essa troca de experiências e olhares que ele pretende despertar com sua segunda passagem pelo Museu da Républica.

O nu artístico aparece, dessa maneira, como possibilidade de mobilização e reflexão. A ideia do performer é despertar entre os espectadores e transeuntes uma vontade de autoconhecer-se, de entender o próprio corpo e naturalizar outros corpos. Em sua performance, quando se coloca totalmente despido em uma bolha de 7 metros, enquanto sua pele seca e se transforma em outra pele, Maikon desperta a sensação de renascimento. “Sem a roupa sou um ser humano despido de valores culturais. A roupa é um símbolo muito forte, você já sabe até mesmo a classe social de uma pessoa a partir dela.”

O objetivo do performer é trabalhar a ideia de corpo, lembrar quantos milhões de anos passaram para um corpo estar aqui presente. Para ele, o corpo existe independente das instituições, ele só depende da Terra, está ligado ao planeta. “Mas o corpo livre é uma ameaça a todas as instituições, porque elas representam falsos poderes e o corpo é verdadeiro, ele está ligado à Terra. Todo ser humano só tem seu próprio corpo como arma e expressão.”

A arte seria um dos poucos lugares possíveis de reinventar esse corpo e dar a ele outras possibilidades de existência. A nudez estaria naturalmente ligada à Terra, natureza, ancestralidade e ao corpo, para a arte, é um lugar de poder pela liberdade. “Aquela ação da polícia, quando me deteve, representa uma total falta de escuta para o que a arte quer dizer, uma imposição deles sobre o que enxergam do corpo, que o enxergam como obsceno”. Com a última apresentação de DNA de DAN e todos os voluntários que despiram os corpos e o preconceito durante o Fotona, o Cena deu ênfase à força da criação coletiva.


Criação local
 
Cena Contemporânea/Divulgação
 

Enquanto isso, o espetáculo Tsunami, com texto e direção de Jonathan Andrade e interpretação de Ana Flavia Garcia, mostrou a força da criação do DF, destacando-se como um dos pontos mais tocantes do festival. Tsunami é pura catarse em cena. O processo criativo aconteceu em parceria com 40 alunos de uma escola em Planaltina e nasceu do desejo de compartilhar criação e sensibilidade entre pessoas distintas. “O espetáculo tem o DNA de cada olhar que o incentivou e estimulou. A força está em reinventar junto. A força do coletivo. De comunicar junto. De partilhar experiências, nossas singularidades e nossas humanidades”, destaca Jonathan.

É um espetáculo lírico e poético, mas também extremamente cotidiano, espelhando a nossa humanidade de forma nua, intensa e crua. Para o diretor, existe o desejo de que o público saia um pouco de seu território confortável e tente entender a personagem em cena por outras vias, como a do sentimento. “Tsunami traz ao palco uma refugiada, uma cidadã do mundo, uma sobrevivente. O arquétipo da reinvenção de si. O espetáculo descama vários sentidos, mas, sobretudo ,a tentativa de reinventar a realidade”, destaca.

Juntos, espetáculo e performance mostraram a força da união e a potência do indivíduo, a possibilidade de transformação em cena e a capacidade de despertar novos olhares. O Cena Contemporânea se consagra como um importante espaço de troca, convívio e transformação a partir da arte, seja ela por empatia, repulsa, proximidade ou falta de entendimento. O teatro se perpetua por meio do encontro.


“A troca de experiência e a empatia são meios de transformação. Dialogar com o público contemporâneo é descobrir nossas pontes e formas de comunicar o afeto”, 
Jonathan Andrade
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