Exposição 'Câmera obscura' traz o surrealismo de Alexander Muradas

Em locações abandonadas ou paisagens ao ar livre, Alexander Muradas cria um universo onírico e surrealista

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postado em 05/09/2017 07:03

Alexander Muradas/Divulgação
 

O fotógrafo Alexander Muradas gosta de pegar o carro e sair dirigindo em busca de cenários inusitados. Quando imagina uma foto, precisa percorrer alguns quilômetros para encontrar o ambiente adequado, de preferência abandonado e sem referência alguma quanto ao tempo ou localização. Foi nesse espaço vazio de alusões temporais ou geográficas que ele construiu as 32 imagens de Câmera obscura, em cartaz a partir de hoje no Museu Nacional da República.



Nascido nos Estados Unidos e filho de brasileiros, Muradas começou a trabalhar com fotografia no ramo de casamentos em Nova York. Em 2000, decidiu retornar ao Brasil e montou um estúdio em Brasília, sempre no ramo dos casamentos. Há quatro anos, no entanto, achou que era hora de mergulhar num sonho acalentado há décadas: deixar de lado os eventos e se dedicar a um projeto autoral. “Era um sonho de fazer fotos mais artísticas e conceituais”, conta.

Câmera obscura pode não ter citações de tempo ou lugar, mas tem fortes raízes na própria história da arte. A técnica do claro e escuro da pintura de Caravaggio inspira a iluminação das fotografias e o universo onírico do surrealismo toma conta das composições. “Usei a metáfora da câmara obscura do Caravaggio para criar a iluminação e, sim, é um pouco surreal, fantástico”, avisa Muradas. A técnica é antiga e foi muito usada por pintores do Renascimento no século 18.

Na série exposta no Museu da República, Muradas combina o secular com as tecnologias contemporâneas. As imagens são trabalhadas no computador de maneira que o autor possa reproduzir o número de personagens em cena. Uma modelo, por exemplo, pode aparecer seis vezes na mesma fotografia com roupas, gestos e atuações diferentes. A confusão causada pela repetição de um rosto em situações distintas no mesmo espaço ajuda a criar o clima surreal imaginado pelo fotógrafo.


Alexander Muradas/Divulgação


A mistura da inocência com o profano também aparece nas imagens. Há freiras que lidam com a nudez e modelos em roupas rígidas, com acessórios religiosos e atitudes erotizadas. “Nós todos temos um pouco da inocência e do profano e gosto que a pessoa chegue em frente à imagem e pense um pouco nessa hipocrisia. Todos nós somos um pouco bons e maus”, acredita Muradas. As imagens não têm títulos, uma estratégia para deixar ao observador a liberdade de construir sua própria narrativa a partir de referências pessoais.

O cuidado para eliminar referências temporais e geográficas também vem da vontade de deixar o campo livre para a imaginação. “Geralmente, uso lugares abandonados, neutros, para que as pessoas não identifiquem onde é para que possam, justamente, entrar nesse mundo surreal”, avisa o fotógrafo, que fez boa parte das fotos no Distrito Federal e no interior de Minas Gerais.

Quando chega às locações escolhidas, Muradas já tem na cabeça as histórias que vai contar nas fotografias. Boa parte dessas narrativas, ele encontra no próprio cotidiano. “Há algumas coisas autobiográficas ou inspiradas nas vidas de outras pessoas”, conta. Toda a produção é feita em Brasília e com colaboradores locais. O cabeleireiro Ricardo Maia ajudou com a maquiagem e todos os modelos são de agências do DF.

O preto e branco foi escolhido para suprimir a ideia de realidade. “Como não tenho muito o pé no chão e sonho demais, o preto e branco remete aos sonhos, é nostálgico”, explica. Câmera obscura é uma espécie de fecho para décadas de trabalho com fotografia, mas também o início de um novo caminho. Em dezembro, Muradas, 50 anos, volta para os Estados Unidos.



Câmera obscura
Exposição de fotografias de Alexander Muradas. Abertura hoje, às 20h, no espaço Conexão 20, no Museu Nacional da República. Visitação até 29 de outubro, de terça a domingo, das 9h às 18h30.
 
 
 
 



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