Biografia de Gardo Baquaqua é a única escrita por um escravo no Brasil

A obra revela facetas inusitadas da história do país e sai no país 163 anos depois de sua primeira edição

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Reprodução/Internet

 
Exatamente 163 anos depois de sua primeira edição em inglês, sai agora no Brasil A biografia de Mahommah Gardo Baquaqua, um nativo de Zoogoo, no interior da África. Trata-se de uma publicação singela da Uirapuru Editora, mas que é extremamente relevante porque se trata do único livro escrito (no caso, ditado) por alguém que foi escravo no Brasil. Em apenas 80 páginas, estão resumidos — por um homem que falava um inglês “de maneira imperfeita” — o horror do tráfico e da escravidão.

A vida de Baquaqua foi muito movimentada. Ele nasceu em meados da década de 1820 no atual Benin, foi trazido como escravo ao Brasil, seguindo depois para Estados Unidos, Haiti, Canadá e Inglaterra, onde desapareceu em 1857, quando tentava obter ajuda para voltar à África, na condição de pregador batista, para conduzir seus irmãos à verdadeira fé, a fé em Cristo que ele abraçara no Haiti.

Seu pai era de ascendência árabe, fé islâmica, “e não possuía compleição escura”. Sua mãe era “completamente negra”. Baquaqua teve uma infância feliz na luxuriante natureza africana, que ele descreve com carinho e acuidade..
 

A escravidão, praticada há séculos na África, era terrível, conta ele. Mas “não era nada” se comparada àquela nova modalidade em que as pessoas eram arrancadas de sua terra, conduzidas até o litoral, “trocadas por rum, tabaco e outras mercadorias” e transportadas em navios para países distantes.

“Na África, as guerras são freqüentes”, registra. Depois de um combate, Baquaqua — que ainda muito jovem havia se transformado em ajudante de um rei — foi aprisionado pela primeira vez. Teve sorte de ser liberto por sua mãe, que pagou um resgate por ele. Feito prisioneiro em outra guerra, pouco depois, foi levado em direção ao litoral. “Colocaram uma corda em meu pescoço”. Na cabeça, carregava o saco dos grãos com os quais se alimentava. A viagem seguia, dia após dia, penosamente. Ao cansaço juntava-se o medo de ser devorado pelos grandes felinos nas áreas de capim alto. De noite, acendiam fogueiras.

Agonia no porão

No caminho, via laranjas pela primeira vez. Assombrou-se diante da residência de um rei que era “ornamentada em seu exterior com crânios humanos”. Os cativos chegaram à beira do mar. “Ali estavam escravos de todas as partes do país”. Eram marcados a ferro quente, “como faziam com as tampas de barril ou qualquer outro bem ou mercadoria inanimada”. Começaram a ser levados ao navio negreiro. Mas o vento estava forte e o mar, muito agitado. Uma das canoas virou. “Cerca de trinta pessoas morreram”.

Os escravos foram enfiados no porão. “Oh! A repugnância e a sujeira daquele lugar nunca serão apagados da minha memória”. Um irônico Baquaqua diz então que “os indivíduos humanitários” que apoiavam a escravidão certamente mudariam de ideia “ao tomar o lugar do escravo no porão pernicioso de um navio negreiro por apenas uma viagem da África à América”. Só há um lugar pior que um porão de navio tumbeiro, adverte. É o inferno.

Baquaqua desembarcou em Pernambuco. “Quando um navio negreiro aporta, a notícia se espalha como as chamas do fogo.” Acorrem os interessados na “mercadoria viva”. Os escravos são exibidos como “bois ou cavalos” em um mercado. Nosso biografado foi vendido a um padeiro português que tinha quatro outros escravos. Na casa desse católico fervoroso, havia dois cultos por dia.

Os escravos tinham de fazer o sinal da cruz inúmeras vezes e pronunciar “palavras das quais não conhecíamos o significado”. A desatenção e a sonolência eram desaconselhadas pela aplicação do açoite. Baquaqua vendia pão nas ruas. Trabalhava até as nove da noite. Em geral, vendia bem. Mas, se, por acaso, o faturamento caía, a punição vinha logo. “O chicote era o meu destino.”
 
 Incontáveis espancamentos depois, considerado um “caso difícil’, o cativo foi revendido para um capitão de navio. Sua tarefa era limpar facas e garfos e polir as peças de bronze. Também cuidava da dispensa e levava as provisões ao cozinheiro. A primeira viagem foi para o Rio Grande do Sul. Trocaram a carga por carne seca e rumaram para o Rio de Janeiro. Foram depois a Santa Catarina em busca de farinha, que negociavam no Rio Grande do Sul por óleo de baleia. Retornaram ao Rio de Janeiro, onde embarcavam sacas de café para Nova Iorque. No trajeto, Baquaqua foi espancado pelo capitão, que “batia de forma aleatória em minha cabeça”. Três marinheiros se juntam ao capitão na tortura. “Foram ordenados a me chicotear, o que fizeram com muito zelo.”

Em Nova Iorque, depois de incontáveis peripécias, Baquaqua foi levado à Prefeitura de cidade. De lá foi retirado por pessoas engajadas na luta contra a escravidão. Libertado, foi enviado a Boston, onde lhe ofereceram a oportunidade de emigrar. Para a Inglaterra ou o Haiti? Achava que o clima do Haiti, similar ao da África, lhe seria mais propício. E nem tinha ideia de como seria a Inglaterra. Vai, então, para o Haiti, onde permaneceu por dois anos. “Não sabia falar uma palavra da língua daquele povo e, o pior de tudo, não possuía sequer uma moeda para comprar nem mesmo um pão velho para saciar minha fome.”

No Haiti, o africano conheceu um missionário da igreja batista americana, o pastor Judd, que o acolheu e depois consegue que ele fosse enviado de volta aos Estados Unidos. Seguiu viagem “com violentas tempestades por quase todo o caminho”. Foi então para o Central de College, em McGraville, instituição de ensino fundada por antiescravagistas. Estudou lá por três anos (1850-1853). Em Boston, dita a Samuel Moore sua história, que foi publicada em 1854. Três anos depois, já na Grã Bretanha, some sem deixar rastros. Estaria com cerca de 33 anos.

Lourenço Cazarré é escritor



A biografia de Mahommah Gardo Baquaqua
Um nativo de Zoogoo, no interior da África, Editora Uirapuru, 80 páginas
 
 
 
 
 




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