Jorge Helder, mago do contrabaixo, fala ao Correio sobre a carreira

Formado em Brasília, Jorge Helder se prepara para lançar disco solo e comemora parcerias com Chico Buarque, Maria Bethânia e Rosa Passos

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postado em 10/09/2017 06:00

Leo Aversa/Divulgação
 
Edu Lobo, Gilberto Gil, Francis Hime, Guinga, João Bosco e Ruy Guerra são notáveis compositores da música popular brasileira, parceiros de Chico Buarque. Dessa lista faz parte também Jorge Helder, contrabaixista cearense que se formou musicalmente em Brasília. É dele e de Chico, Casualmente, uma das faixas do Caravanas, o recém-lançado álbum do artista carioca.
Mas não é só. Anteriormente, os dois criaram juntos Bolero blues, do CD Carioca ao vivo (2009), e Rubato, gravado no Chico (2001). O entrosamento entre eles decorre da relação musical que mantêm há quase 25 anos. Durante esse período, o instrumentista tem sido um dos destaques da banda que acompanha o cantor, tanto em estúdio quanto no palco.

Jorge Helder, 62 anos, tomou gosto pela música ainda na infância, em Fortaleza (onde nasceu), ouvindo bandas do rock progressivo como Led Zeppelin, Black Sabbath e Urian Heep. Na adolescência, já com a atenção voltada para a obra de Pixinguinha, Cartola e Noel Rosa, chegou a acompanhar, em reuniões familiares, Rodger e Teti (do Pessoal do Ceará).

Mas foi a partir de 1982, quando veio morar na capital federal, que desenvolveu o potencial artístico, ao estudar na Escola de Música de Brasília. Ao deixar a cidade e radicar-se no Rio de Janeiro, já estava pronto para encarar desafios maiores. Inicialmente acompanhou Sandra de Sá e logo em seguida trabalhou com alguns dos maiores nomes da MPB —  de Marcos Valle a Nana Caymmi, de Edu Lobo a Gal Costa.

A convite do violonista e maestro Jaime Álem, em 1990 passou a integrar a banda de Maria Bethânia, na qual se mantém até hoje. Paralelamente grava com Rosa Passos, de quem é parceiro. Três anos depois foi levado para trabalhar com Chico Buarque. Desde então, tem marcado presença em todos os trabalhos desse ícone da MPB e da cultura brasileira.

Nos intervalos entre um e outro compromisso ao lado de artistas com quem trabalha, Jorge Helder se dedica a atividades individuais. Desde 2012, por exemplo, está empenhado na produção do primeiro disco solo e costuma aceitar convites para ministrar oficinas de contrabaixo pelo país.

Bem jovem, no começo da década de 1980, você chegou a Brasília e foi estudar na Escola de 
Música. Que recordações guarda daquela época? 
Morei em Brasília por quatro anos, mas parece que foi uma vivência ainda maior. Por orientação do meu irmão Paulo Sérgio, eu me matriculei na Escola de Música, onde busquei e consegui o aprimoramento como contrabaixista. Lá, convivi com grandes músicos como Paulo André Tavares, Lula Galvão, Marco Pereira, Tony Botelho, que foi meu professor. Fora da escola, toquei com Zélia Duncan, Cássia Eller, que se tornou uma amiga querida, e Rosa Passos, de quem nunca mais desgrudei. Fui do grupo Artimanha, ao lado de Toninho Maia, Rênio Quintas e Boca Alves. Bons tempos aqueles!

Quando e por que decidiu morar no Rio de Janeiro?
A minha vinda para o Rio se deu ao aceitar um convite para fazer parte da banda de Sandra de Sá. Ela foi fazer um show em Brasília e naquele mesmo dia eu estava me apresentando na Sala Funarte, com o Artimanha. Aí o produtor dela foi assistir e, ao final, me procurou e disse que havia gostado bastante da minha atuação e quis saber da possibilidade de integrar a banda da Sandra. Topei na hora e me mudei para o Rio.

Recebeu boa acolhida no meio artístico carioca?
Eu me enturmei logo. Lá reencontrei o Adriano Gifone, que havia conhecido quando morava em Brasília. Ele me indicou ao Marcos Valle, com quem passei a tocar também. Acompanhei o Emílio Santiago na turnê do show Aquarela e comecei a participar de gravações e outros artistas.

Como foi a ida para a banda de Maria Bethânia?
Em 1990, a Bethânia ia estrear um novo show e fui procurado pelo violonista Jaime Álem, diretor musical dela, para fazer parte da banda. Desde então, venho trabalhando ela, que nos shows, quando faz a apresentação dos músicos, ao se referir a mim, costuma dizer: “É o baixo mais disputado do Brasil”, o que, claro, me deixa orgulhoso.

Mas, mesmo morando no Rio, você continuou gravando e, por vezes, fazendo show com Rosa Passos. É outro trabalho que lhe traz satisfação?
Com certeza. Rosa é uma das maiores intérpretes da MPB. Nunca deixei de tocar com ela. Participei de vários discos dela, entre os quais, Curare, Festa, Pano pra manga, os que ela homenageia Tom Jobim, Dorival Caymmi, Djavan e Elizeth Cardoso. Estive com Rosa também numa turnê pela Europa. Sempre que ela me convida para tomar parte em algum projeto, desde que não esteja envolvido com outro compromisso, aceito de imediato.

O que representa tocar na banda do Chico Buarque? 
Para mim é um privilégio tocar com esse gênio da música brasileira. Sou da banda do Chico desde 1993, quando fui convidado pelo violonista, arranjador e diretor musical Luis Cláudio Ramos e pelo produtor Vinicius França. Gravei com ele os discos Paratodos, Uma palavra, Cidades, Carioca, Chico – os três últimos em estúdio e ao vivo – e, agora, o Caravanas.

E as parcerias, surgiram de que forma?
Eu havia feito a melodia de Bolero blues e mostrei para o Chico, que estava envolvido com a produção do CD Carioca. Ele não falou nada, mas quando fui para o estúdio, num dos dias de gravação, me mostrou a música já com a letra. Fiquei muito emocionado e, por um instante, saí um pouco. Quando voltei, já era para ensaiar. Foi um dos dias mais felizes da minha vida. Com Rubato, uma marcha três por quatro, o processo foi outro. Enviei a melodia por e-mail e ele disse que tinha gostado bastante, colocou a letra e falou que iria gravá-la. Já Casualmente, um blues, fiz para a cantora cubana Omara Portuondo, do Buena Vista Social Club, pensando no meu disco. Depois de ouvir, Chico, que havia escrito a letra, me ligou e perguntou se poderia gravar no Caravanas. Cheio de alegria, respondi que sim. Dona Omara me ligou e contou que a música estava fazendo muito sucesso em Cuba.

E o seu disco solo em que fase está?
Já está quase todo gravado, faltando apenas alguns detalhes. As músicas são todas autorais. As instrumentais e Outubro 86 e Tema novo, que compus quando ainda estava em Brasília, são as mais antigas. Esta última eu tocava aí em shows com o Renato Vasconcellos. Entre as mais atuais estão 7 de maio, que gravei com o saxofonista Proveta e orquestra; Dorivá, composta em homenagem a Dorival Caymmy, tem a participação de Dori Caymmi. Rosa Passos canta Inocente blues, uma parceria nossa. Já o cantor mineiro Sérgio Santos interpreta Bolero blues; e Renato Braz faz nova leitura de Rubato. Falta Dona Omara colocar a voz em Casualmente.
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