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Estado de Minas

Longa de Felipe Bragança abre o Festival de Brasília

O filme narra o encontro entre um adolescente e uma índia na fronteira do Brasil com o Paraguai: história recupera parte da formação da identidade brasileira


postado em 14/09/2017 07:30 / atualizado em 15/09/2017 15:10

Cena do filme (foto: Felipe Bragança/Divulgação)
Cena do filme (foto: Felipe Bragança/Divulgação)


O diretor Felipe Bragança vê na adolescência uma idade em que as pessoas são mais flexíveis e tolerantes, por isso escolheu esse momento para ambientar seu longa-metragem. Inspirado em dois contos do escritor Joca Reiners Terron, Não devore meu coração é ambientado em cidade da fronteira com o Paraguai e revisita uma parte da história do Brasil que o diretor considera fundamental para a formação da identidade brasileira.

No longa, que se passa nos dias de hoje, um adolescente se apaixona por uma índia e é irmão de um agroboy que vive um cotidiano perigoso ao se envolver com uma gangue de motoqueiros. “O olhar adolescente é um olhar que ainda se espanta e se comove com as coisas. Para mim, atravessa muito esse lugar do juvenil, do adolescente, da descoberta mesmo. Cinema é uma aventura e acho que o olhar juvenil é sempre aventuroso. Acho que me ajuda a criar”, avisa o cineasta.

Não devore meu coração foi exibido no Festival de Sundance, no início do ano, e provocou reação que surpreendeu o diretor. O filme também esteve na mostra Generation, no Festival de Berlim. Estrelado por Cauã Reymond e Eduardo Macedo, com participação de Ney Matogrosso, o filme é um espaço no qual Bragança se debruça sobre várias questões da identidade brasileira.

Apaixonado pela índia Basano, o menino Joca se depara com um passado cruel que envolve a Guerra do Paraguai e a quase extinção da cultura guarani. “O filme fala sobre a memória brasileira, a memória presente e a memória apagada. Fala da formação da identidade brasileira a partir do conflito com o Paraguai, do massacre do povo guarani na região que hoje é o Mato Grosso do Sul, e como isso determina muito quem nós somos”, avisa o diretor.

Ao descobrir o amor e olhar para o outro, Joca também vai confrontar a própria identidade. As origens dos habita ntes da região são um ponto de partida importante para que o personagem possa compreender seus próprios sonhos e desejos. “O amor deles é um catalisador para você entender o imaginário da região que, no fundo, é um dos lugares que tem a fundação para entender o que é o Brasil hoje em dia. Passa por esse amor essa relação de desejo e negação da América Latina, desejo e negação da herança nativa, tudo passa por essa relação dos dois”, explica Felipe Bragança.

A boa recepção do filme em Sundance o diretor credita à temática. O público ficou surpreso ao descobrir semelhanças entre as histórias dos indígenas na América Latina e nos Estados Unidos. “Os americanos não têm ideia das nossas origens enquanto Brasil. Pensam em outros, mas não pensam na origem indígena da nossa cultura”, diz o diretor.

Para viver o agroboy, irmão de Joca, Bragança havia convidado Cauã Reymond quatro anos antes de iniciar as filmagens. O ator leu o roteiro e gostou, mas se envolveu com outros projetos enquanto o diretor viabilizava o filme. “E um dia ele me ligou dizendo que estava fazendo outro filme sobre motos”, conta o diretor. “Falei que não era problema, tem muitos filmes possíveis com moto. E a gente tinha muitas cenas de perseguição de moto que precisavam de uma certa habilidade. E ele já vinha treinando. Então foi excelente.”

A noite de amanhã não é a primeira de Bragança no Festival de Brasília. Ele já esteve por aqui com A alegria, que levou os Candangos de melhor ator coadjuvante e melhor direção de arte em 2010. O carioca também tem experiência na confecção de roteiros premiados como Praia do futuro e O céu de Suely, ambos dirigidos por Karim Aïnouz. “Brasília é aquele festival que inventou todos os outros festivais brasileiros”, acredita o cineasta.



“Brasília é aquele festival que inventou todos os outros festivais brasileiros”
Felipe Bragança, diretor



Não devore meu coração
Filme de Felipe Bragança. Com Cauã Raymond, Eduardo Macedo e Adeli Benitez. Amanhã, às 19h, no Cine Brasília, só para convidados.
 
 
 
 
 
 



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