40 anos da morte de Maria Callas: Artista era mais que uma cantora

Maria Callas foi um divisor de águas em vários sentidos

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postado em 16/09/2017 07:20

Existe a ópera antes e a ópera depois de Maria Callas. Nascida Maria Cecilia Sofia Anna Kalogeropoulou, a cantora se tornou um marco da história do canto erudito ao traçar uma linha a partir da qual a emoção deixou de ser enfeite para se tornar parte fundamental da interpretação dos grandes papéis. Callas nasceu em Nova York, em 1923, e morreu em Paris, há exatos 40 anos, em um desfecho trágico para uma diva que foi reverenciada como um marco durante boa parte da vida. A cantora morreu de um enfarte fulminante, sozinha e deprimida depois do fim do relacionamento com o milionário Aristóteles Onassis, ao qual se dedicou tanto que deixou de lado a carreira.

Maria Callas foi um divisor de águas em vários sentidos. Até o final dos anos 1940, quando estreou, poucas cantoras atentavam para a expressividade exigida pelos personagens. Técnica e música estavam em primeiro lugar, mesmo que, para atingir a perfeição, fosse necessário sacrificar as emoções do personagem. Callas trouxe para o primeiro plano da cena os sentimentos genuínos das figuras que interpretou. Era preciso sentir, ou fazer o público sentir, o drama de Violettas, Normas, Toscas, Mimis, Lucias e Carmens.

É célebre seu desafino no  final de La Traviatta, em uma apresentação no La Scala, de Milão: o maestro reclamou que a cantora estava um tom abaixo, ela respondeu que era normal, afinal, a personagem morria de tuberculose e jamais poderia estar tão afinada. Embargar a voz quando necessário, fugir dos gestos clichês, entrar na história e colocar a técnica a serviço do conjunto dramático imaginado pelo compositor foram inovações que a cantora trouxe para o mundo da ópera. “Ela foi uma das grandes intérpretes do tempo dela, não só pela voz arrojada. A interpretação cênica dela refletia na voz e isso, até então, ninguém tinha feito”, diz a soprano Vilma Bittencourt, professora de canto erudito na Escola de Música de Brasília (EMB).

A soprano Janette Dornellas lembra do dia em que começou a prestar mais atenção no trabalho de Maria Callas. Depois de ouvir do maestro Silvio Barbato que a cantora ocupava o posto de voz mais importante do canto lírico, Janette deu de ombros: “Que nada, uma voz feia daquela?”. De fato, Callas não é conhecida pela beleza da voz. É a combinação da perfeição técnica com a expressividade que fazem de suas interpretações momentos únicos da história da ópera.

E Janette percebeu isso pouco tempo depois. Hoje, mantém um display de corpo inteiro de Callas na entrada da Casa da Cultura Brasília. “É minha ídola”, garante. “Ela conseguia aliar técnica e sensibilidade. Era uma atriz maravilhosa e uma cantora muito expressiva. Muito técnica, mas nunca abdicava da expressão, da verdade, de mostrar o personagem com emoção”, diz Janette. Até Callas aparecer, ela conta, os cantores se limitavam a cantar bem. “Ela, não.”

A cantora começou a estudar canto na Grécia e cantou seus primeiros papéis na Ópera de Atenas, mas foi na Itália que ascendeu ao posto de mito da ópera do século 20. Se tornou uma das estrelas do La Scala, de Milão, e cantou em todos os grandes teatros do mundo. Era conhecida especialmente por interpretar obras de Vicenzo Bellini e poucas performances são tão memoráveis quanto sua versão da ária Casta diva, de Norma. 

Os anos 1950 foram os mais significativos da trajetória de Maria Callas. Na década seguinte, uma sucessão de fatalidades a tirou, aos poucos, dos palcos do mundo. A voz começou a declinar e o relacionamento com Onassis fez a cantora abandonar a música. Ela dizia que sua vida havia começado ao conhecer o armador grego e decidiu se dedicar totalmente à vida a dois. Mais tarde, Onassis a deixaria para casar com Jacqueline Kennedy, o que abalaria profundamente o resto da carreira de Callas. Ela teria, inclusive, tido um filho do milionário, mas o bebê morreu poucas horas após o nascimento. Durante anos, Maria Callas disse aos amigos que sim, havia engravidado, mas Onassis a obrigara a fazer um aborto. No entanto, uma biografia lançada em 2000 e escrita pelo jornalista Nicholas Gage sustenta a tese de que o bebê chegou a nascer, mas morreu de parada cardíaca.

Em 1964, Callas ensaiaria uma volta aos palcos com uma montagem de Tosca (Giacomo Puccini) no Convent Garden, em Londres, mas sua voz já não dava conta e, no ano seguinte, ela mal conseguiu terminar uma interpretação de Norma, em Paris. Nos anos 1970, ainda daria aulas na Julliard School, em Nova York, antes de morrer na capital francesa, em 16 de setembro de 1977.
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