Romance autobiográfico de Rosângela Vieira Rocha é construído por memórias

A obra reconstitui a história do companheiro, ex-militante de organização política de esquerda

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Vasco Ribeiro/Divulgação

 
De que substância se faz a literatura, a boa literatura? Não apenas da imaginação, mas principalmente da memória, das lembranças, das recordações que guardam as experiências humanas mais significativas. E também de interpretações sobre o sentido da vida e da morte. Mas sobretudo da coragem de empreender por meio da linguagem escrita a aventura de construir uma segunda realidade.

Em O indizível sentido do amor (editora Patuá), Rosângela Vieira Rocha nos oferece o resultado dessa coragem. É uma autobiografia; é uma biografia não autorizada pelo biografado; é um depoimento pessoal e subjetivo de uma experiência vivida; é memória, com certeza; é ficção também, pois é a reconstrução romanceada de uma história real em que muitas partes são reconstruídas pela imaginação. É principalmente o relato de uma busca obsessiva para preencher uma lacuna sobre a juventude do companheiro de mais de quarenta anos.
 

Focalizando em primeiro plano a lenta agonia de seu marido, José Antônio Simões Filho, que morre de uma infecção não devidamente diagnosticada depois de mais de 20 dias na UTI, Rosângela vai entrelaçando em flashback desde o namoro, o começo de vida do casal, os estudos, as viagens, a maturidade, a família, a doença, a morte, o luto, até a reconstrução da história pessoal dele quando jovem.

José, militante do Partido Revolucionário dos Trabalhadores na juventude, foi preso e torturado pelo regime de exceção antes mesmo de o PRT se consolidar e ser oficializado. Com Alípio de Freitas, “o padre”, José peregrinou por várias prisões, mas, sempre discreto, nunca quis falar muito sobre isso com sua mulher.

Esse silêncio perpassou toda a vida do casal. Nita, como era chamada por ele, sempre respeitou essa atitude, mas depois de sua morte sentiu necessidade de recuperar as informações sobre sua trajetória política quando jovem e empreende um grande esforço para conhecer o que realmente havia ocorrido.

Começa por visitar Alípio de Freitas em Portugal, já velho e cego. Depois, percorre arquivos oficiais e mergulha na internet. Entre idas e vindas vai montando um perfil sensível e delicado do seu companheiro e da sua convivência com ele. Vai delineando pouco a pouco as consequências insondáveis e as marcas deixadas pela brutal repressão do arbítrio político na personalidade e nas decisões tomadas para voltar à cidadania plena. Decisões e atitudes sempre limitadas pela perspectiva de nova perseguição. Observando esse percurso cheio de obstáculos, ela afirma: “ Muitos anos mais tarde, finalmente entendi, de uma vez por todas, por que os caminhos do homem com quem me casara eram tão cheios de empecilhos e de evasivas.”

Dirige-se ao marido explicando a exposição não autorizada: “Depois de tantas indiscrições, creio que lhe devo um pedido de desculpas.(...) logo com você, sempre tão cioso de sua privacidade e que apreciava as pausas, as reticências e os silêncios. (...) queria revelar a pessoa generosa que você foi, dizer como aprendeu a esconder a sua capacidade de renúncia e de grandes gestos.”

Escrito em primeira pessoa, ficamos também com a nítida sensação de nos tornar íntimos da personagem feminina narradora e solidários com o seu sofrimento e suas dúvidas. Por vezes a autora dialoga com o marido supondo como teriam sido os acontecimentos: “Você deve ter visto as duas viaturas estacionadas lá embaixo e desistido da empreitada. (...) Você acabou reduzido à imobilidade no pequeno quintal, ciente de que seria praticamente impossível não ser pego ali mesmo.”

Em outro momento, apelando para a imaginação, dá a voz à mãe de José: “Onde estará o meu filho? Por que não dá notícias? Há meses não sabemos nada sobre ele, apenas que deixou a universidade. Eu quero achar o meu filho de qualquer maneira.” São recursos estruturais preciosos na construção de todo o enredo.

Manejando com maestria a narrativa, numa escrita sedutora, madura e elegante, que nos envolve intensamente desde as primeiras linhas, Rosângela consegue dizer o que parece a princípio indizível e nos arrebata para buscar compreender o verdadeiro sentido da cumplicidade, da solidariedade, do respeito, do companheirismo, ou seja, do amor. Leitura prazerosa e extremamente necessária nesses tempos em que a delicadeza parece perder terreno dia após dia.

Lucília Garcez é escritora e doutora em linguística. 


O (in) dizível sentido do amor
De Rosângela Vieira Rocha
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