É possível separar o artista do que ele produz?

Denúncias de assédio no cinema trazem de volta o questionamento sempre presente no mundo da arte

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DavidGiesbrecht/Netflix
 
Uma enxurrada de denúncias de assédio sexual abalou o mundo de Hollywood. Diretores e atores com carreira e talento reconhecidos foram acusados de protagonizar situações inegavelmente sórdidas e condenáveis. Nomes como Kevin Spacey, Dustin Hoffman e Lars Von Trier aparecem entre os citados, além de casos já conhecidos que voltaram à tona, como o que envolveu o cineasta Woody Allen.

Todo o mal-estar gerado pelas denúncias e pelas reputações que ficaram manchadas traz à tona uma discussão recorrente no mundo da arte: é possível separar o artista e seu caráter da obra produzida por ele?

O tema é polêmico e vai além do cinema. Na música e na literatura, por exemplo, não faltam casos. Diversos artistas que produziram obras consideradas de grande valor tinham, na vida pessoal, caráter e atitudes reprováveis ou apoiavam causas desprezíveis e ligadas à intolerância.

É o caso de Richard Wagner. O compositor alemão, autor de obras-primas da música erudita, era declaradamente antissemita e fazia abertamente um juízo cruel de judeus. Depois da morte, suas ideias foram incorporadas pelo nazismo. O filósofo Martin Heidegger é outro exemplo ligado ao pensamento antissemita. Ele apoiou o nazismo.

No Brasil, escritores como José de Alencar também ficaram ligados a movimentos conservadores e retrógrados. O autor de Iracema defendia o regime escravocrata e foi veementemente contrário à abolição. Ele chegou a escrever Cartas a favor da escravidão, volume de correspondências enviadas a Dom Pedro I condenando o propósito do Imperador de acabar com o regime.

Diante de situações como essas, há quem defenda com veemência que é impossível ignorar o caráter e a atitude do autor ao ter contato com a obra. As músicas de Wagner, por exemplo, foram chamadas de trilha sonora do nazismo. Por outro lado, existe também a defesa de que a obra, depois de pronta, torna-se maior do que o criador.

O autor Marco Severo dedicou um dos textos do livro de ensaios e crônicas Os escritores que eu matei à reflexão sobre o tema. Severo defende que, apesar de não existir obra isenta de autor, ela não é (ou não precisa ser) um retrato de quem a produziu.
 
Bretz Filmes/Divulgação
 
 
“O caráter de um artista não está necessariamente na obra por ele criada, de modo que não cabe julgar um filme, livro, quadro, ou qualquer que seja a forma utilizada para a expressão artística, por aquilo que se sabe da vida pessoal de seu autor. A obra é sempre maior do que quem a cria”, sustenta, em entrevista ao Correio.

Para Severo, a produção do autor pode ter uma dimensão muito maior do que o próprio artista. “Uma obra pode falar por toda uma comunidade, uma população. Um artista, sozinho, não tem esse poder. Não sem o respaldo de sua obra. Sendo assim, embora intrinsecamente ligados, autor e obra não são a mesma coisa, e isso, por si, legitima a avaliação de uma obra pelo que ela é, desconsiderando aspectos de conduta de quem a criou”, conclui.

Redes sociais
Professor da Universidad Complutense de Madrid, o sociólogo e doutor em ciência da comunicação Luis García Tojar acredita que as redes sociais intensificaram esse debate. Para ele, elas geraram um ambiente em que todas as pessoas estão expostas ao julgamento de outros.

Isso, para Tojar, tem fatores positivos e negativos. “Situar a pessoa antes do trabalho tem consequências positivas e negativas: é claro que a denúncia de crimes é positiva, mas o desaparecimento da obra de arte não me parece tanto”, disse o professor em artigo do jornal espanhol El Diário.

Marco Severo também acredita que alguns aspectos da questão hoje envolvem o mundo digital. Para ele, as redes e a relação que temos com a internet hoje geram a sensação de uma proximidade com artistas ou personalidades que admiramos.

Essa falsa relação, no entanto, pode levar à decepção. “Essa tal proximidade virtual pode fazer pensar que se tenha acesso a essas figuras, por isso pessoas se dão ao direito de fazer julgamentos como se tivessem intimidade, até pela vontade de identificação com alguém cuja obra admiramos. Quando isso não ocorre, há o questionamento ou, eventualmente, o repúdio”, analisa.
 
Reprodução/Internet
 
Escudo?
A escritora Laura Freixas, no entanto, aponta para outro lado da questão. Também em artigo do El Diário, a autora espanhola defendeu a posição de que, muitas vezes, o valor e a qualidade da obra são usados para encobrir denúncias e diminuir a gravidade das atitudes de artistas.

“Eu não acho que a qualidade artística tem que dar carta branca. E eu não vejo por que as pessoas que acabam nas mãos desses senhores — porque normalmente são senhores — devem aceitar seu sacrifício em nome da arte”, questiona.

“O fato de que alguém é muito bom cineasta ou muito bom artista, como Picasso, deve nos fazer esquecer, perdoar e apagar seu comportamento privado, imoral ou antiético? Minha resposta é não”, disse a escritora.
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