'O diário de Anne Frank' ganha versão em quadrinhos

Drama sobre a Segunda Guerra Mundial é transportada para o mundo das HQs pela primeira vez

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postado em 07/11/2017 06:58

 
Editora Record/Reprodução
Conceitos e preconceitos, em plena Segunda Guerra Mundial, foram respaldados pelo Ministério da Propaganda comandado pelo fiel escudeiro de Hitler, Josef Goebbels. Entre as estrelas arregimentadas pelo führer, esteve Marika Rökk, tida por muitos como a “Ginger Rogers nazista”. Na primeira versão oficial para quadrinhos de O diário de Anne Frank, a torta estrela Marika, que fez carreira dançando no Moulin Rouge, não foi esquecida. Numa das tirinhas, há um balãozinho de voz para a estrela que diz: “Eu não me apresento para porcos judeus”.
 
Se foi enfático nos disparos que contextualizam o drama da autora que mobilizou milhares pela literatura, o diretor e roteirista Ari Folman (responsável em adaptar a obra para os quadrinhos) conta que, para a obra, amenizou desesperos, como o da larga fome enfrentada por Anne e outras sete pessoas, adotando recursos líricos (a cargo do ilustrador David Polonsky). Entretanto, páginas íntegras do diário foram mantidas, em face da maturidade e do estilo revelados na escrita da precoce moça, com talento aflorado aos 13 anos.

 
A versão em quadrinhos pode ser vista quase como ensaio para o futuro diretor da animação Onde está Anne Frank, prevista para estrear em 2019, e que tem sido desenvolvida há mais de dois anos. Uma versão radicalmente moderna para o cinema é pretendida pela produtora Diana Elbaum. Curiosamente, o desafio do diretor israelense Folman (indicado ao Oscar por Valsa com Bashir), na HQ, foi manter o interesse dos protagonistas da “dramática” situação de “queda no número de crianças que leem, a maioria das quais se perdeu no apelo das telas de cinema”.
Na história em quadrinhos, ambientada a partir de 1942, um anúncio colorido (e onipresente) da empresa Opekta, dedicada a doces geleias, contrasta com o azedume que se instala na vida de Anne Frank. Idealizado, o dia a dia da jovem começa a ilustrar o diário, tornado uma entidade chamada de Kitty, espécie de “amiga” em que Anne depositou votos de “conforto e ajuda” para superar adversidades juvenis. Neste cenário, enquanto o pai de Anne exalta a beleza das filhas (incluída a irmã dela, Margot), a mãe de Anne condena este envaidecimento, que, para ela, chamaria o “azar”.

 
Não tarda, e os judeus ganham, pelos olhos dos nazistas, a definição de “raiz de todos os diferentes males”, como grafado no enredo da publicação editada pela Record. Cada vez mais realista, a trama recapitula os anos de 1930, quando a família Frank se mudou para Amsterdã (Holanda). Conhecidos contam, então, da calamitosa situação alemã, com fatos aterradores como os dos livros queimados, aos milhares, por nazistas. Um recurso gráfico interessante dos quadrinhos detalha a arquitetura interna do Anexo Secreto, local em que Anne passa a habitar, com familiares e outros fugitivos da configurada situação alarmante. Restrições de judeus em parques, nas piscinas, e até no manejo de bicicletas vêm num crescente.

 
Na narrativa, sai de cena, aos poucos, a vida pacata de Anne, que experimenta as investidas do pretendente Hello, visto pela irmã dela como um partido “educado, limpo e de boa aparência”. Entre os moradores do forçado compartimento Anexo (usado como esconderijo) desponta Peter, um rapaz com “medo da própria sombra” e que contrasta com modos geniosos de Anne. Admirada pelos professores, no passado, Anne vai tomando, no enredo, ciência do próprio percurso, da maturidade e das obsessões que ressaltam traços imperfeitos de cada um dos quais ela convive.

Humor pontiagudo
Sarcástica, humana e autocrítica, até 1944, a protagonista terá chão para decifrar os próprios sentimentos, muitos deles atrelados à figura do companheiro de abrigo Peter van Daan. O lado severo e o humor obtuso e inesperado de Anne (bem explorado na HQ) se dissolvem, à medida em que o amor fraternal pelo colega ultrapassa o limite do primeiro beijo, marcante, e que é um artifício capaz de repôr certa inocência de Anne.
Sem meio-tom, a protagonista tem rispidez acentuada — com análises que expõe, por exemplo, a “criatura debochada” (a mãe dela, Edith), no lugar de uma figura materna zelosa. O isolamento de todos no esconderijo requer um silêncio pesado que parece acirrar ideias fixas de cada morador do Anexo, ciente da própria fome e da ameaça regular da morte, num período de reclusão próximo a dois anos. Compaixão e humor também são correntes, na leitura.

 
Efeitos gráficos (como o da miopia de Anne) são refletidos nas páginas da HQ que abraça muitas referências ao cinema (e a outras artes), ao mesmo tempo em que aposta em breves jogos visuais (há casos da pontuação da leitura, com quebra de narrativa feita com uso de “tesouras imaginárias”). No mais, O diário de Anne Frank é um registro de escassez que cerca uma moça de expressão marota compartilhando experiências (em tom de amizade com o leitor), decifrando confusões sexuais dela, suplantando depressão e ansiedade (contornados com uso de valeriana), mas, acima de tudo, enfatizando que “lembranças são mais importantes do que objetos”. Um relato duro e emocionante.


SERVIÇO
O diário de Anne Frank em quadrinhos
Obra de Ari Folman e David Polonsky editada pela Record, em 160 páginas, com tradução de Raquel Zampil. Preço, R$ 39,90.
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