Madeleine Peyroux traz a Brasília show intimista com clássicos americanos

Cantora mistura folk, R&B e jazz em apresentação do novo disco, "Secular hymns"

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postado em 08/11/2017 07:30

 
 
Shervin Laine/Divulgação
 
Durante uma turnê pela Europa e pelos Estados Unidos, Madeleine Peyroux se deu conta de uma certa tensão no ar. Era 2014, portanto dois anos antes da eleição presidencial nos Estados Unidos e do plebiscito que tirou o Reino Unido da União Europeia. Na época, ela já sentia uma certa agitação. “Foi como se testemunhasse algo acontecendo nesses lugares — manifestações nas ruas, tensões no ar em bares e cafés, um mal-estar generalizado. E sempre senti necessidade de encontrar conforto na minha música”, conta. Dessa observação e dessa tensão nasceu Secular hymns, disco lançado em setembro de 2016 e tema do show que a cantora e compositora faz em Brasília na sexta-feira (10/11).

Madeleine encara a música como uma arma poderosa, capaz de unir pessoas de origens diferentes. Com essa perspectiva, construiu o repertório deste disco gravado em uma igreja milenar e cheio de significados e simbolismos que refletem uma postura e um jeito de pensar o mundo. “Penso na música como algo sagrado”, avisa a artista, em entrevista ao Correio. “Acredito que a música tem o maior dos poderes humanísticos, a habilidade de gerar paz e amor. E é isso que conduz o repertório desse disco. E foi por isso que chamei o disco de Secular hymns.”

A palavra hino, ela explica, remete ao caráter sagrado da música e a secular explicita um distanciamento da igreja. Para Madeleine, essas canções, apesar de serem sagradas, não são religiosas. Não, ao menos, da perspectiva tradicional e dogmática. Mas há sim algo de espiritual no repertório e na própria relação da cantora com seu universo musical. Gravado em uma pequenina igreja do Oxfordshire, na Inglaterra, para a qual Madeleine foi convidada e de onde saiu com o elogio de que sua música preencheu a sala com humanismo, o disco é o mais intimista da artista. O diálogo preciso entre a voz, o contrabaixo, o violão e a guitarra resultam em uma organicidade que apenas um trio afinado consegue.

Em Brasília, no entanto, a apresentação acontece em uma sala de acústica complicada e preparada para receber mais de 2,7 mil pessoas. O nada intimista Centro de Convenções Ulysses Guimarães já recebeu Madeleine Peyroux há sete anos e foi uma noite complicada, na qual a voz delicada e bonita acabou dissolvida —  e abafada por gritos constrangedores de “canta mais alto!” —  em um espaço inadequado.

Mescla de ritmos

O repertório do disco, que é também o da turnê, traz uma mistura de blues, swing, R&B e folk, combinação da qual a norte-americana se sente fruto e que pontua trabalhos anteriores, como The blue room e Half the perfect world. Secular hymns traz alguns clássicos como o blues Got you on my mind (Howard Biggs e Joe Thomas), uma balada a meio caminho entre o blues e o folk, e Hard times come again, por escrita por Stephen Foster, autor também da conhecida Oh! Susanna e uma espécie de pai do folk americano.

Mas Secular hymns também tem composições da própria Madeleine, como Hello babe, uma canção de adeus a um amor tóxico. “É também uma inspiração para qualquer um que queira ver longe algo que não é bom. Tenho dedicado ao nosso atual presidente a cada vez me apresento”, avisa. E há Tango t´ill they’re sore, que realça a voz aveludada e o alcance da intimidade da música da cantora, acompanhada apenas pelo som grave do contrabaixo. Na introdução, Madeleine faz uma brincadeira com os acordes da ária L’amour est un oiseau rebelle, da ópera Carmem. “Essa ária é um grande poema para mim. É como se ela precisasse de um monte de liberdade para respirar e quero isso mais que tudo”, explica.

A turnê brasileira é a última de Madeleine com o baixista israelense Will Barak Mori e o guitarrista norte-americano Jon Herington, com os quais se apresentou nos últimos dois anos. A cantora não tem planos de gravar novamente com os músicos em um futuro próximo, mas ela prepara um disco no qual haverá mais instrumentos em cena. Será um disco com músicas inspiradas nas tensões observadas durante as últimas turnês. “Estou escrevendo e gravando esse disco novo e ele tem muito a ver com o que está acontecendo hoje”, revela. “Tento abordar, de forma mais direta, os problemas que têm me tocado mais”.

QUATRO PERGUNTAS 
Madeleine Peyroux

Como você escolheu o repertório desse disco?
Blues, swing, R&B e folk são parte do que acredito que começa a definir a música americana, a mistura que é essa música. E essas são músicas que têm estado particularmente próximas do meu coração por anos. Eu sempre quis tocá-las. E elas se tornaram nossas favoritas nesse formato de trio, com todos os silêncios e espaços e o poder que resulta disso quando conseguimos tocar como um só.

Por que gravar em uma igreja milenar?
Fomos convidados a tocar lá e senti fortemente que aquele espaço nos oferecia algo especial. É uma coisa maravilhosa tocar esperando um som e ouvir esse som ao mesmo tempo. É como se fosse um retorno em loop, dá muita energia. Esse lugar é muito pequeno e há pedras e feixes de madeira que envelheceram tanto que têm características diferentes de outros lugares. A sensação é muito boa. E como era uma igreja muito pequena em uma cidade muito pequena também me deu a sensação de estar em uma espécie de santuário em que eu realmente tinha que explorar essas canções de uma única vez.

Você disse que esse disco tem algo de humanista. Como?
Eu acredito que não há fim para a necessidade de lembrarmos uns aos outros que somos todos humanos tentando aproveitar a vida, tentando ser bons ou apenas tentando ser. Como eu disse, durante a turnê comecei a sentir a necessidade de dar ao público algo solar nessa loucura que o mundo se tornou. E não parei mais de sentir isso. Ao contrário.

A ideia de intimidade sempre esteve presente no seu trabalho. Por quê?
Não sei o porquê, sinceramente. É uma boa pergunta. O que sei é que sou melhor cantando em um palco mais intimista. Talvez porque não goste de barulhos…. talvez não seja nada disso.



Secular hymns
Show de Madeleine Peyroux. Sexta, 10/11, às 21h, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães (Setor de DIvulgação Cultural 5, Eixo Monumental). Ingressos: Poltrona Superior: R$ 160, Poltrona Superior (meia): R$ 80 Poltrona Especial: R$ 240, Poltrona Especial (meia): R$ 120 Vip Lateral: R$ 300, Vip Lateral (meia): R$ 150, Poltrona Vip: R$ 360, Poltrona Vip (meia): R$ 180
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