No centenário de João Saldanha, dois livros revivem o brilho do jornalista

André Iki Siqueira fala sobre as múltiplas faces do comentarista corajoso e polêmico.

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postado em 11/11/2017 07:00

Reprodução/Internet.


Em 1986, o Brasil venceu a Iugoslávia por 4x2, em Recife, com um show de Zico, que marcou três gols. A Voz do Brasil estava entrando no ar e o locutor pediu a João Saldanha que fizesse um comentário de 20 segundos. Saldanha disse simplesmente: “Meus amigos, o Brasil ganhou porque nós temos Zico. Se Zico se chamasse Zicarov, ganhava a Iugoslávia”.

Bem-humorado, inteligente, culto, carismático e rápido no gatilho, Saldanha tinha talento multimídia; era bom no rádio, no papel do jornal e na tevê.  Como técnico, montou o time mais espetacular do planeta na Copa de 1970, estrelado por Pelé, Tostão, Gérson, Jairzinho e Rivellino.

Desde os tempos de criança conviveu com as armas. O pai era maragato na guerra contra os chimangos. 

O centenário de João Saldanha (1917-1990) não passará em  branco. Dois livros celebram a figura polêmica e carismática de um dos mais brilhantes jornalistas da história da imprensa brasileira: As 100 crônicas de João Saldanha (Livrosde futebol.com) e Os subterrâneos do futebol (Ed. Lacre). E, nesta entrevista, André Iki Siqueira, autor da biografia João Saldanha, uma vida em jogo e diretor do filme João Saldanha, fala sobre múltiplos aspectos desse personagem fascinante.

O que explica um personagem tão singular quanto João Saldanha na imprensa brasileira?
Costumo dizer que o João era uma pessoa formada como boneco de papel marché, com várias camadas. O pai dele era maragato e participou ativamente da guerra contra os chimangos. Conviveu com armas desde os tempos de menino, levava armas e munição para o Uruguai. Algumas pessoas dizem que ele era violento, que dava tiros. Mas ele conviveu com armas desde criança. Lutava pela paz. Depois, o João virou treinador do Botafogo, sem ganhar um centavo. Foi campeão com aquele timaço, que tinha Garrincha, Quarentinha, Nilton Santos e Didi. Além disso, jogava futebol de praia no time do Neném Prancha, com craques da importância de Heleno de Freitas.

Isso influenciou o comentarista de futebol?
Conhecia profundamente futebol desde muito novo. Quando começa a ser comentarista esportivo, revoluciona a crônica esportiva, tira o rococó da linguagem do rádio. Todo mundo passa a entender o que acontecia, usava a linguagem do povo, frases que buscava na rua. Era um cara da rua. Tinha conexão profunda com o povão, com os geraldinos das arquibancadas. Como dizia Waldir Amaral, João era o comentarista que o Brasil consagrou. E se consagrou ainda mais depois que montou o timaço da seleção brasileira de 1970. Era multimídia, bom no rádio, na tevê e no jornal. Marcou toda uma geração. Foi o craque da imprensa esportiva. E não era nada politicamente correto. Chamava Pelé carinhosamente de “crioulo”.

João Saldanha sobreviveria aos tempos de rigor do politicamente correto e de tempos virtuais?
Acho que o João daria um jeito de falar o que pensa e não desfigurar os valores nos quais acreditava. Era da paz, dizia que brigava porque tinha razão. Os adversários dele iriam enlouquecer se ele vivesse nos tempos do twitter. Ele era multimídia e com o poder de falar em rede internacional seria dinamite pura. Tinha um poder de síntese arrasador para o twitter.

Como vê a imagem de violento que o João Saldanha tinha?
Ele era nada violento. Pelo contrário, levou tiro do pulmão em 1947, no congresso da UNE, que afetou a saúde dele para o resto da vida. Quando pegou em armas era para se defender. Tinha senso de justiça muito forte e não levava desaforo para casa.
 
Como é que o João conciliava o fato de ser comunista e o de ser anárquico?
O João era parecido com o Garrincha, ninguém segurava. Quando comecei a pesquisa para o filme e para o livro me surpreendi. O João era muito aberto, visionário e plural. Era visionário em tudo. Em 1964, as pessoas diziam que o regime de exceção dos militares terminaria rápido e ele dizia que seria um longo e tenebroso inverno. Era altamente organizado, cumpria todas as tarefas do partido, mas era independente. Uma marca fundamental do João era a solidariedade. Quando houve o exílio, ele chegava e fazia uma vaquinha com os correspondestes estrangeiros para ajudar os exilados.

E como foi a revolução que o João fez no comentário esportivo?
Ele usava termos que pegavam: zona do agrião, jogador cabeça de bagre, vida que segue. As frases dele são imbatíveis. João era muito culto, viajou o mundo inteiro, era uma homem cosmopolita e, ao mesmo tempo, da rua. Tanto dialogava com o Geraldino da geral do Maracanã quanto era amigo de Oscar Niemeyer ou do físico Mário Schemberg. Levava isso para os comentários e para as crônicas esportivas. Por isso, ficou tão famoso, falava para todas as classes sociais. Era muito inteligente, era brilhante.

E como era a relação de João Saldanha com Nelson Rodrigues na crônica esportiva?
Eles eram muito amigos embora as diferenças políticas fossem gigantescas. Trabalhavam mesa com mesa em O Globo e participavam do programa Grande resenha Facita. Se divertiam muito e os telespectadores também. Eram dois gênios comentando futebol. Combateu a ditadura militar, enfrentou o general Médici. Mas havia generais que idolatravam o João, admiravam a integridade e a inteligência dele.

O João inventava muito?
Tereza Bulhões, uma das mulheres do João, contava que ele não mentia, fabulava. Era um contador de casos brilhante, engraçadíssimo. Às vezes, acrescentava algum detalhe para melhorar a história. Mas, durante a pesquisa para o livro e para o filme, comprovei. João passou tempos na China, foi operado por lá. Era um tempo em que o transporte era difícil, mas ele viajou por muitos países. Os amigos também aumentavam os casos dele. O episódio do Manga é clássico. No filme e no livro, eu mostro bem isso. Cada um contava de um jeito hilário: o tamanho do revólver, a cor, o número de tiros, a altura do muro que o Manga saltou. Nelson Rodrigues dizia que os fatos eram sempre diferentes das versões do Saldanha e completava: pior para os fatos porque as versões do João são sempre melhores.

João deixou herdeiros na crônica esportiva?
Vejo hoje em dia você tem grandes jornalistas esportivos. O Juca Kfouri seria um herdeiro ideológico. Mas é difícil comparar. Saldanha e Nelson Rodrigues eram Garrincha e Pelé. São personagens excepcionais. Não acontecem a todo momento na história. Além disso, vivemos em um tempo totalmente diferente, norteado por outros valores.

O João é um personagem que se perdeu na história ou ele deixa algum legado a ser partilhado pelas novas gerações?
O João é um personagem imperdível. Sou convidado a fazer palestras para os jovens nas escolas. Eles nunca viram o João e ficam impressionadas. João participou de todas as granes lutas pela democracia e pela liberdade.  João foi um revolucionário na comunicação e na política. Do ponto de vista humano, era uma pessoa fabulosa.

 Mísseis verbais de Saldanha

“Se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminava empatado”.

“Eu não brigo para ganhar; brigo porque tenho razão”

“Só se a Adidas se associar com a De Millus para providenciar o uniforme”

(Declaração sobre o futebol feminino)

“Se concentração funcionasse, o time da penitenciária seria campeão”

“Tem gente que está ganhando em dólar, por isso dá sempre um driblinho a mais”


SERVIÇOS
As 100 melhores crônicas comentadas de João Saldanha
248 páginas. Livrosdefutebol.com

Os subterrâneos do futebol
João Saldanha. 256 páginas. Ed. Lacre
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