Ganhador do Jabuti, Silviano Santiago relança o livro Stella Manhattan

O romance fala de intolerância e radicalismos no Brasil dos anos 1960 e traz a questão para os tempos atuais

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postado em 12/11/2017 07:32

BPP/Divulgação
 
Stella Manhattan é, na verdade, Eduardo Costa e Silva. Expulso de casa nos anos 1960 e enviado a Nova York pelo pai para se endireitar, o rapaz acaba por encontrar um ambiente mais libertário, no qual pode deixar aflorar a moça que divide sua personalidade em duas facetas. Quando Silviano Santiago publicou a história de Stella Manhattan, em 1985, o Brasil e o mundo eram lugares bem diferentes. Considerado o primeiro romance gay da literatura brasileira, o livro tem história ambientada no que o autor chama de uma das épocas mais interessantes do século 20. Os anos 1960 foram libertários e marcaram uma mudança de comportamento, um tempo no qual o diferente passou a ser visto com olhares mais includentes, uma postura que, ele acredita, o mundo está perdendo neste início de século 21. Por isso, a reedição de Stella Manhattan tem um significado especial, que vem se somar ao fato de Silviano ter ganhado, em outubro, o prêmio Jabuti de melhor romance por Machado.

Stella Manhattan e Machado nasceram com 31 anos de distância, mas ambos tratam de transformações profundas na sociedade. O primeiro fala de uma época efervescente, quando jovens e estudantes conseguiram sobrepor a liberdade de pensamento e expressão ao conservadorismo, mas também remete a um período de repressão, quando o Brasil enfrentava uma ditadura e via minar o mesmo espírito libertário que guiava centenas na Europa e Estados Unidos. Por isso o livro se passa em Nova York. Não haveria, segundo o autor, possibilidade de a história de Stella Manhattan ser verossímil no Brasil da época.

A transformação de Machado é outra, embora também social. O narrador acompanha os últimos dias do escritor Machado de Assis, que observa mudanças profundas no Rio de Janeiro do início do século 20. A construção de uma avenida central e a instalação das primeiras favelas chegavam para mostrar que o país caminhava na estrada da desigualdade e que o progresso não era para todos.

Agora, Silviano observa com certa tristeza uma volta de valores que ele acreditava estarem enterrados. Valores políticos e sociais. “Na década de 1930, houve uma revolução ideológica extremamente importante porque levou ao término do nazifascismo, e a década de 1960 foi importante porque trouxe uma revolução comportamental, mudou a atitude das pessoas em relação àquelas que eram dadas como diferentes e, sendo diferentes, eram marginalizadas, perseguidas”, explica. Stella Manhattan foi produto de uma época vivida pelo próprio autor, que estava em Paris um mês antes das manifestações de maio de 1968 e morava em Nova York na época. Hoje, ele acredita, a literatura brasileira padece dos mesmos males que assolam a sociedade.

Repensar

“Há uma falta de interesse em trabalhar questões que nos levem a repensar o indivíduo dentro da sociedade, (que faça) esse salto do subjetivo para o coletivo. Na literatura e nas artes em geral”, diz. A homossexualidade já havia sido tratada na literatura brasileira quando Stella Manhattan foi publicado. A novidade foi a maneira como o autor abordou o tema. “A novidade foi falar como essa diferença se torna um comportamento aceito e a ser difundido na vida social e política de uma nação. O romance é isso”, explica.

Aos 81 anos, o escritor não vê muitas possibilidades de frear a onda conservadora no mundo. “Leio os jornais todos os dias e é uma coisa terrível. Estão nos preparando para a guerra. Não há nada a fazer, porque tem um eleitorado norte-americano no momento que mantém o presidente Trump no poder. Falo nele em particular porque é o presidente do país mais poderoso do mundo, até segunda ordem. A gente pensou que tinha acabado aquela discussão depois da bomba de Hiroshima e Nagasaki, e agora voltaram a falar em bomba atômica e poderio nuclear”, lamenta.

No Rio, onde se concretizaram os problemas vislumbrados por Machado de Assis no romance vencedor do Jabuti, Silviano Santiago pouco sai de casa. Vizinho do morro Pavão Pavãozinho, diz que se incomoda mais com a pobreza do que com os tiros ouvidos diariamente. “Sou elefante. Não é um alfinete que vai furar minha pele”, garante. “Pode-se sobreviver. Tenho muita dificuldade hoje é de conviver com a miséria na rua. Me faz mal ver as pessoas deitadas, sujas, sem comer, sem trabalho.”


BPP/Divulgação
Stella Manhattan
De Silviano Santiago. Companhia das Letras, 280 páginas. R$ 54,90 


Machado 
De Silviano Santiago. Companhia das Letras, 424 páginas. R$ 69,90
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