'No intenso agora' é o novo filme do diretor João Moreira Salles

A melancolia impregna os fotogramas escolhidos pelo diretor

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postado em 13/11/2017 07:30

Cale/Divulgação


Há muitos filmes no novo filme de João Moreira Salles. São mais de 30, quase todos em preto e branco. Os trechos foram selecionados de documentários e arquivos sobre os acontecimentos na França, Tchecoslováquia e Brasil de 1968 — a passeata de protesto pela morte de Edson Luís Souto, seguida pelo enterro do estudante paraense durante a ditadura militar. Mas, em No intenso agora há também um filme despretensioso, em cores quentes, curioso, vibrante.

Trata-se do registro visual que a mãe do documentarista carioca, Elisa Margarida Gonçalves (1929-1988),  fez de viagem de turismo à China, em 1966, durante a Revolução Cultural implantada por Mao Tsé-Tung. “No final do Santiago (documentário anterior do diretor), encontrei o material da China, que eu desconhecia. Sabia da viagem, volta e meia minha mãe falava, parecia um episódio importante da vida dela. Mas não sabia das imagens”, conta João Moreira Salles.

A experiência chinesa de Elisa, “momento singular, de grande deslumbramento”, foi o ponto de partida para o novo documentário do autor de longas-metragens como Nelson Freire (2003) e Entreatos (2004). Depois de descobrir relato escrito por sua mãe para a revista O Cruzeiro, João Moreira Salles percebeu, na junção de imagens e palavras sobre a China, uma Elisa como nunca tinha visto em família, “inteiramente alinhada com as forças vitais da existência, com o fato de estar viva naquele momento, naquelas circunstâncias”, conta. “Ela vai para um país em plena ebulição revolucionária, no momento mais agudo de uma revolução que nega tudo o que ela é: a classe social, as crenças, a fé. Mas ela não se horroriza. Minha mãe se encanta”, afirma o documentarista, desde 2006 editor da revista Piauí. O que sobra do contraste entre a euforia e o desencanto? Eis a pergunta que moveu o cineasta para a ilha de edição em 2011, depois de imersão em leituras e do resultado de extensa pesquisa de imagens, feita por Antonio Venancio.

A melancolia impregna os fotogramas escolhidos por João Moreira Salles. Irradia até as pausas da narração do diretor e alcança os silêncios que encobrem as imagens. Além das múltiplas leituras (em especial, as possibilidades de conexão entre os fatos ocorridos na França em 1968 e as manifestações no Brasil de 2013), a força de No intenso agora se estabelece por um duplo confronto, universal e particular, com o passado.

 Em mais de uma hora de conversa antes da pré-estreia em São Paulo, chama a atenção o fato de o nome mais pronunciado durante a entrevista não ser o de Daniel Cohn-Bendit (um dos expoentes do maio de 68 na França, se é que se pode falar de lideranças), do estudante tcheco Jan Palach ou mesmo o da mãe, todos presentes em No intenso agora: é o do amigo documentarista Eduardo Coutinho, morto em 2014. “Assim como Cabra marcado para morrer era um filme que só o Coutinho podia fazer, esse meu filme também é muito pessoal. E esse é o grande risco, talvez algumas pessoas achem que as coisas mostradas não se ligam. Se isso acontecer, fico triste, mas é compreensível”, diz o diretor. “De toda maneira, foi uma etapa necessária para eu entender que dá para fazer um filme assim: com material de YouTube, celular, fotos antigas, o que for. Se eu tenho alguma coisa a dizer, eu digo e pode virar filme. Agora, tudo é possível para mim.”

Há uma imensa documentação, em livros e filmes, sobre os acontecimentos de 1968 no mundo, em especial os da França. O que o levou a fazer No intenso agora? O tema ou a descoberta de uma forma de narrá-lo?
Boa pergunta. Acho que não foi nem o tema nem a forma de narrar.... A primeira coisa que me levou a querer voltar a fazer cinema foi a questão da alegria. Ser alegre e depois perder essa capacidade. Acho que a alegria, a felicidade, é uma espécie de competência; você tem, mas não há garantia de que vai mantê-la. É uma questão de família. Para mim e para a minha mãe.

Ela se encantou com a China?
Sim. E, à medida que o tempo passou, foi perdendo a capacidade de se interessar pelas coisas. Adulto, eu conheci uma mãe entristecida. A tristeza foi se acentuando e, no fim, ela decide que não vale mais a pena viver. Eu tenho preocupação em relação a isso. Será que vou perder a capacidade de me encantar com o Botafogo, com a vida, com o trabalho? Eu flerto um pouco com essa questão. Já tive episódios agudos de tristeza. Com a minha profissão também, que não sinto ter escolhido, meio que me foi oferecida pelo meu irmão, Waltinho (o cineasta Walter Salles, de Central do Brasil), essas coisas todas fazem parte da minha cabeça.

Como você chegou a 1968?
Comecei a ler sobre aquele período, as memórias daquelas pessoas. Principalmente as memórias dos maoístas, que talvez tenham vivido a maior das rebordosas: eles recusaram maio de 68 por achar que era uma manifestação de meninos brancos e burgueses. Queriam a causa operária, fazer a revolução nascida na fábrica e no campo, seguindo o manual da revolução chinesa. Eles sentiram que perderam o bonde da história, falavam disso com grande melancolia. Das memórias dos maoístas passei para as memórias dos outros: Cohn-Bendit, dos anarquistas, stalinistas, todas as memórias dos que viveram aquele período intensamente. E a pergunta aflorou: como sobreviver ao fim daquelas três semanas? Não apenas em função das derrotas políticas, mas sobreviver ao fim do sentimento de irmanação, de coletividade, de dissolução do ego. Muitos não encontraram uma resposta à pergunta. Terminaram desencantados, sem propósito... Poucos encontraram saídas.

Assim nasce o filme?
O filme nasce da vontade de reflexão sobre a intensidade e o desencanto. Escreve-se muito sobre como as pessoas se tornam militantes, escreve-se menos sobre como elas deixam a militância. Sobre o desencanto e o que vem depois dele. Acho que o grande pulo do gato é uma lição do (Eduardo) Coutinho, logo ele que não queria dar lição: é aceitar a vida cotidiana, a vida a volume médio. A vida dos momentos excepcionais, que por definição são raros e fugazes, não se sustenta por muito tempo. Mas é difícil depois que a paixão passa, seja ela a paixão política, erótica, romântica, estética. Sempre passa, é impossível viver na intensidade máxima.

Como converter esse sentimento em imagens?
Essa é a segunda questão.  O filme não existiu antes de eu ler tudo que li, de pensar em tudo que pensei. Mas não tinha imagens do filme. Aí vem a segunda parte, que é a do trabalho de pesquisa: porque o filme seria também sobre material, arquivo, sobre outros filmes. Por que esses arquivos foram feitos? A reflexão sobre a natureza das imagens passou a ser uma questão. Descobri, por exemplo, que tinha de atribuir algum sentido às imagens dos estudantes franceses. E aí vêm outras perguntas: Como filmar em diferentes regimes políticos? Que tipo de imagem produz uma democracia ou um regime totalitário? Na França, pelo fato de a câmera tremer pouco e estar perto da ação, isso me indicava que era possível filmar.  Na Tchecoslováquia, as imagens são radicalmente diferentes — você não pode se aproximar da ação. Por que, no enterro do Edson Luís, as imagens me dizem que houve um acerto com as forças da repressão? Porque a câmera está perto, não treme.

Há muitos pontos de identificação de 1968 com as manifestações de 2013. Você chegou a pensar em trazê-las para o filme?
Comecei a pensar no filme em 2011. Em outubro de 2012, entrei na ilha de edição com a Laís (montadora). Em junho de 2013, ela estava muito impregnada: às vezes saía da edição, ia para as manifestações. Mas eu estava fazendo um filme de arquivo. Acontece que são vários 68 em 68 muito diferentes entre si. O americano é tão rico, tão complexo, tão cultural que nem sequer entra no meu filme. O do Brasil é muito diferente e o mexicano, que talvez seja o mais importante latino-americano, é marcado pela violência, com mais de 100 estudantes mortos na Cidade do México. O francês tem uma característica bem identificada por (Jean-Paul, filósofo) Sartre: a gente sente falta de um programa, o que vocês querem? Cohn-Bendit faz a defesa da espontaneidade, daquilo que mais tarde a gente chamaria de horizontalidade, da não liderança. São pessoas nas ruas exprimindo seus desejos, falando pela primeira vez o que nunca puderam falar. Chegam a dizer: toda pauta política é paralisante. Havia um viés anarquista, uma tentativa de dissolver tudo que é vertical.

E qual é o legado de 2013?
É um enigma. Tem legado para todos os lados. A reafirmação dos movimentos negros, de periferia, da assertividade, dos movimentos LGBT é  consequência de 2013. As pessoas se deram conta de que podiam dizer e se apresentar como militantes das próprias causas, não precisavam mais de instância mediadora. E também apareceram as demandas da direita. Foi a a primeira vez que a extrema-direita pôde se apresentar como tal. Tanto o trans quanto o reacionário se assumiram a partir de 2013. E acho também que o impeachment da Dilma não teria sido possível sem 2013. Alguma mensagem foi metabolizada por procuradores e juízes. Eles perceberam que a representatividade estava sendo colocada em questão. A Lava-Jato já existia, mas era tímida, torna-se muito mais agressiva depois de 2013. O Judiciário se sentiu legitimado no seu desejo de colocar o pé na porta e ser protagonista. Porque havia uma insatisfação com o Estado brasileiro, a corrupção, com os horrores das obras de Copa do Mundo e Olimpíadas.

Como compara o documentário anterior, Santiago, com  No intenso agora?
Esse é um filme mais difícil do que Santiago. Mais arriscado, fica na beira do abismo, no fio da navalha. Estou tendo a coragem de interpretar um evento suprainterpretado na história do mundo. Poucas coisas foram tão pensadas quanto 68, mas dou minha interpretação. Tenho uma certa desfaçatez em esvaziar um pouco o 68 francês, o que a gente escolhe celebrar. O 68 na França foi estupendo: imaginação, poesia... Mas, no fundo, não teve ambição de mudar as estruturas do poder. Não se arriscou. Tem algo da festa, mas não do custo de uma verdadeira revolução. Não rompeu e não teve a ambição de romper.

No intenso agora 
Documentário, 127 minutos. De João Moreira 
Salles. Espaço Itaú de Cinema (CasaPark)

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