Malu Mader estreia filme sobre Maria Martins

A atriz é a entrevistadora na obra sobre a escultora: "Eu nunca vi ninguém tão empoderada na minha vida quanto ela"

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postado em 16/11/2017 07:33

 Elisa Gomes e Francisco Martins/Divulgação

 
Malu Mader nunca ouvira falar em Maria Martins até esbarrar em uma reportagem de jornal, há quase 10 anos. A foto bonita da escultora mineira que levou para o bronze a tropicalidade brasileira e encantou os surrealistas nos anos 1940 chamou a atenção de Malu. “Pensei: ‘nossa, que mulher interessante, como eu nunca tinha ouvido falar dela?’”, conta a atriz. A curiosidade esbarrou em uma coincidência: por meio de contatos com pessoas da família de Maria, Malu soube de um documentário sobre a artista, ainda em fase de produção. Daí, para se tornar a entrevistadora de Maria — Não esqueça que eu venho dos trópicos, dirigido por Elisa Gomes e Francisco Martins e que estreia hoje no Cine Brasília, foi um pulo.

A vida de Maria Martins fascinou Malu Mader. Ela viu na escultora uma personagem cuja trajetória aponta para caminhos ainda hoje difíceis de serem trilhados, mesmo em uma época na qual se discute abertamente o lugar da mulher e as ideias feministas. “O fato de ela ter sido uma mulher muito à frente do tempo dela me chamou a atenção e vi ali a possibilidade de uma grande personagem. Comecei a pesquisar e li outras coisas”, conta a atriz. Maria Martins descobriu a escultura na idade adulta, aos 30 anos, e sua trajetória cruzou os tabus referentes ao lugar da mulher na sociedade brasileira pré-Segunda Guerra.
 

A escultora se separou do primeiro marido em uma época que nem divórcio havia. Perdeu a guarda da filha e ficou sem o apoio da mãe, defensora do ex-marido. Pouco depois, a artista se casou com o diplomata Carlos Martins, então futuro embaixador do Brasil em Washington. O casamento aberto e a liberdade decorrente do arranjo permitiu à artista transitar entre o meio artístico sem amarras. Maria mantinha ateliê em Nova York enquanto Carlos era embaixador em Washington. No meio artístico nova-iorquino, ela despertou o interesse dos surrealistas, gente como André Breton, fundador do movimento e exilado nos Estados Unidos durante a guerra. Ali, também conheceu Marcel Duchamp, o pai da arte conceitual, com quem manteve um longo e profundo relacionamento amoroso.

Maria começou a esculpir com materiais como madeira e terracota, mas foi o bronze o responsável por dar à sua obra uma dimensão internacional. Os mitos amazônicos, as referências dos povos das florestas e do imaginário dos trópicos sempre estiveram presentes na obra da artista e chamaram muito a atenção da crítica, especialmente nos Estados Unidos e Europa. No Brasil, a obra de Maria nunca foi muito celebrada e a crítica se manteve distante.
 
 Elisa Gomes e Francisco Martins/Divulgação
 

O aspecto transgressor, a sensualidade das obras e o pioneirismo fizeram o nome da artista permanecer incompreendido no meio artístico conservador brasileiro, até ela começar a ser redescoberta. Pesquisas recentes, como a da historiadora de arte Graça Ramos, autora de Maria Martins: escultora dos trópicos (2009), e do editor Charles Cosac, autor de Maria Martins (2010), ajudaram a reinserir a obra de Maria Martins no contexto da história da arte brasileira.

Para a diretora Elisa Gomes, o filme era o elemento que faltava para ir adiante na divulgação da obra da artista. A produção começou há mais de 10 anos e enfrentou, especialmente, duas dificuldades. A primeira é que boa parte das imagens de arquivo estavam indexadas sob o nome do marido da artista, o embaixador Carlos Martins. “O grande desafio foi esse levantamento, a pesquisa. Muita coisa foi difícil de encontrar porque estava no nome do marido”, explica Elisa.

Preciosidades como um filme no qual a artista explica a origem de suas esculturas só puderam ser encontradas quando a equipe se deu conta que o nome de Maria não apareceria nos arquivos e que era preciso procurar pelo marido. Há imagens de exposições, fotografias das primeiras obras, peças hoje desaparecidas e entrevistas com personalidades da arte como os fotógrafos Miguel Rio Branco e Vicente de Melo e o curador e crítico Paulo Herkenhoff, mas os momentos mais surpreendentes do documentário são dedicados ao relacionamento com Marcel Duchamp.

Os atores Lucia Romano e Celso Frateschi fazem leituras dramáticas das cartas trocadas entre o casal e revelam uma paixão que durou até a morte de Duchamp, em 1968. “Desde o começo, a ideia era ser um filme sobre ela escultora. A grande aventura do filme foi entrar no universo dela,  viver a obra e conseguir equilibrar a biografia dela com o romance com Marcel Duchamp para que uma coisa não engolisse a outra”, conta Francisco Martins, que divide a direção do documentário com Elisa. Em entrevista, Malu Mader fala como histórias como as de Maria Martins ajudam a pensar questões fundamentais para a sociedade brasileira.

Maria – Não esqueça que eu venho dos trópicos
Documentário, Brasil, 81 minutos. 
Direção: Elisa Gomes e Francisco Martins

Entrevista / Malu Mader
Quem é Maria Martins para você?
Para mim, a Maria Martins é uma grande artista brasileira, muito pouco falada para a importância que acho que ela tem. O trabalho dela pode, num primeiro momento, ser uma coisa de tal força, de tal potência que pode causar um afastamento. Tem uma coisa de figuras meio monstruosas, de floresta, tem uma ligação com essa parte da natureza e tem uma coisa meio agressiva. Mas, quando vi a obra toda junta, achei que havia ali uma artista fora do normal, extraordinária e que sabia quem era. Era uma mulher relegada a um plano.

Por que você acha que isso aconteceu?
Acho interessante a figura dela especialmente agora que a gente está num momento de discussão do feminismo de novo, de movimentos feministas fortes, dessas palavras todas, empoderamento feminino. Eu nunca vi ninguém tão empoderada na minha vida quanto ela, sem precisar da aprovação de ninguém, vivendo a vida dela com liberdade. E liberdade ofende, né? Acredito que muito do que ela viveu como mulher, ex-mulher, mãe que não ficou ao lado da filha, são questões que ainda hoje são tabus. Outro dia vi um documentário sobre Ingrid Bergman: a mulher que não cria o próprio filho, que vai para Hollywood, se separa, troca tudo por outro homem. Sempre é a mulher que quase que vai pra fogueira. Ainda hoje. Então, realmente, há muito ainda o que avançar nesse sentido. Acredito que se Maria Martins não tivesse sido relegada a um plano totalmente obscuro, de ostracismo, as questões dela poderiam ter nos ajudado.

Como?
Mulheres como ela prestam um serviço a nós mulheres, elas caminham 50 anos por todas nós. Mas se aquilo não vem à tona, não se discute, se não se reflete sobre isso, então é um trabalho jogado fora. Não o trabalho dela como artista, mas o trabalho no sentido de apontar para uma outra geração de mulheres, as que não querem se enquadrar neste esquema mãe-esposa-do lar-recatada. Achei que era interessante jogar luz sobre uma vida dessas, uma artista dessas. E a gente aprendeu bastante coisa. Pude pensar muito sobre aquilo que mesmo eu tenho uma certa resistência: a mulher não criou a filha, viajou para outro país. Para o homem isso é absolutamente natural, né?

Olhando para o Brasil de hoje, com essa onda de intolerância, haveria espaço para uma mulher como Maria Martins?
É um absurdo isso. Fiquei pensando muito nela agora com essas questões dos museus. Ela fazia vaginas, mulher de perna aberta, pelos à mostra. Tem o Étant donnés (obra mais importante de Duchamp), que é o corpo dela, que você não sabe se é uma mulher nua ou uma mulher morta, o peito, que é a capa do livro que chamava para a exposição. Ela já tinha essas questões todas. E a gente agora caminhando para trás, nesse retrocesso absurdo, esse moralismo ridículo que obviamente não serve a ninguém é pura hipocrisia, manipulação, estratégia política mesmo. Artistas como ela, mesmo que fosse hoje, são fundamentais e necessários para que a gente não volte para as trevas.

Você enxerga hoje no mundo da arte alguém que tenha um papel igual ao da Maria?
Acho que algumas mulheres, pela simples existência delas, mesmo que elas não militem, cumprem essa função. Rita Lee, Fernanda Montenegro, Fernanda Torres, Andréa Beltrão, algumas artistas plásticas, como Adriana Varejão. São pessoas que se destacam no que fazem, trabalham com uma entrega absurda e fazem trabalhos consistentes que apontam para aonde uma mulher pode e deve ir. Essas figuras já trabalham pra gente pelo simples fato de existirem e terem sido a vida inteira independentes, fortes.

Ter 51 anos muda alguma coisa na profissão de atriz? 
Sou bastante tranquila em relação ao envelhecimento porque tive em contato com isso muito cedo. Tive problemas de saúde muito radicais, de quase morrer, então me vi neste lugar da degradação física, de hospital, de coisas que velho enfrenta, muito cedo. Então essas questões com relação à vaidade, não que ficava em segundo plano, pelo contrário, nós somos sempre vaidosas, mas questões mais essenciais tomaram a frente, como a de estar vivo, de se preparar mais por dentro do que por fora. Porque realmente acontece, e não é uma coisa da Globo, é do mundo. Encaro isso de uma maneira não muito sentimental. Cabe a atrizes que estão envelhecendo lidar com isso de uma maneira saudável, da maneira que tem que ser, ou seja, tendo outras coisas que as mantenham num lugar em que elas mesmas se prestigiem, independentemente de como o mundo as vê.

São poucos os papéis para mulheres de 50 anos na tevê brasileira?
Sim, mas não acredito que seja uma coisa que a gente tenha que se lamentar ou reclamar. A gente tem que trabalhar no sentido oposto. Va lá e tente fazer sua parte da melhor forma possível, negando o que você acha que deve ser negado, mas com seu trabalho, sua inteligência, sua energia. Se você acha que não tem papel, então produza uma peça, invente uma história, procure parceiros. Você não pode ficar esperando que o outro lhe dê aquilo que você acha que é o justo, o certo. Tem que agir no sentido de criar condições para você mesma, principalmente se você é uma atriz e tem que esperar ser chamada.

Seu último papel foi em Haja coração, no ano passado. Você gostou do papel?
Sim, eu adorei, achei o papel muito adequado pra mim e, de certa forma, a novela meio que conversava sobre isso. Eu achava bonito, tinha umas cenas legais da Carolina, ela namorava um cara mais novo, achei que aquilo ali foi um núcleo feminista, mulheres que não são só mães, estavam batalhando. Tinha uma coisa meio leve, evidentemente, novela das sete, minha personagem queria achar um cara rico, umas bobagens assim, mas era mais pra tirar uma onda, não era levando a sério.

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