50 anos depois da morte, Guimarães Rosa continua atual

O mineiro foi autor de clássicos da literatura nacional como 'Grande sertão: Veredas' e 'Sagarana'

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postado em 19/11/2017 07:00 / atualizado em 17/11/2017 16:54

Kleber Sales/CB/D.A Press


Há exatos 50 anos, morria Guimarães Rosa. Corrija-se: morria não, “ficava encantado”, como ele mesmo previra três dias antes no discurso de posse da Academia Brasileira de Letras. O autor mineiro foi responsável por obras primas da literatura nacional, como o romance Grande sertão: Veredas.

Cinco décadas depois da morte do escritor, a obra de Rosa e o Brasil retratado por ele continuam atuais. Seja pelos temas inovadores seja pela linguagem singular, os livros de Rosa não envelheceram e ainda abordam questões latentes. “Ao dialogar com a grande literatura e com a tradição oral, seu texto se revela sempre novo ao olhar atento”, observa a professora de letras da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e especialista em Rosa, Mônica Gama.

Além disso, Mônica destaca os temas que Rosa trouxe para a obra.  “Ele abordou temas relevantes — o que alguns chamam de temas universais — tais como o medo, a coragem, o amor, a morte. E isso a partir de narradores excepcionais que conseguem se alinhar à perspectiva de sujeitos que percebem a realidade de uma forma especial.”

Também especialista na obra do mineiro, a professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Suzi Frankl Sperber ressalta a força dos personagens de Rosa, quase sempre à beira da sociedade. “Crianças, velhos, loucos, animais, seres especiais. Estes são sempre valorizados por ele. A atribuição de sentido ao que costuma ser desprezado, somado à beleza de cada momento levam à atualidade de Rosa no panorama da literatura brasileira”, acredita.

A importância de Rosa é tanta que, para Suzi, ele está para a literatura brasileira como James Joyce está para a literatura em língua inglesa e Goethe para a alemã. “Claro que temos grandes escritores, mas a importância especial de João Guimarães Rosa foi superar o regionalismo, o localismo, o pitoresco, o documentário, em uma linguagem renovada e renovadora, sempre poética, procurando sempre a beleza e inserindo a literatura brasileira plenamente na modernidade literária”, argumenta.

Mônica Gama lembra também a capacidade que Rosa teve de unir duas vertentes da literatura nacional. Na visão da especialista, ele ofereceu uma nova interpretação da formação do país, sem deixar de lado a investigação de questões subjetivas.

“Ele conseguiu unir a sondagem do mundo interior de seus personagens (humanos e animais), o que estava sendo disputado como algo feito pela literatura intimista (Clarice Lispector e Lúcio Cardoso, por exemplo), e a representação da paisagem do interior do Brasil (objetivo dos regionalistas, como Graciliano Ramos)”, conclui Mônica.

País

O Brasil retratado por Rosa, para as especialistas, continua refletindo o país de hoje, ainda que 50 anos tenham se passado. “O Brasil de Rosa —sobretudo o de Grande sertão: Veredas — é um país em que a afirmação do Estado está engatinhando. O Brasil de hoje é o de um Estado que se afirma como poder, mas não como presença efetiva na vida de muitas comunidades (urbanas e rurais)”, opina Mônica Gama. “Nesse sentido, continuamos a presenciar a violência cotidiana e a percepção de um Brasil visível e outro invisível, de um país em que há leis e uma nação de quem deve sofrer o peso dessas leis e nunca usufruir delas”, completa.

Rosa, no entanto, pode oferecer alguma esperança para o momento que vivemos, segunda professora Suzi Frankl. “O olhar de Rosa se preocupa em inserir a positividade nas circunstâncias de suas tramas, sem banalizar, sem reduzir a violência dos momentos violentos, ele dialoga com aqueles que mantêm a esperança de renovação, de recuperação, de renascimento naquilo que parece ter chegado ao limite.”

Dificuldades

Não é raro que leitores encontrem dificuldades ao ler Grande sertão: Veredas, o principal livro de Rosa. Para Suzi, o início do romance de fato impõe barreiras. “Lembro que Antonio Candido contou que sentiu dificuldade ao começar a ler Grande sertão — mas continuou lendo. Depois de ler umas 50 páginas, repentinamente prorrompeu em pranto diante da extraordinária beleza do livro.”

Ler em voz alta, propõe a professora, pode ser uma alternativa para facilitar. “O leitor de Grande sertão: Veredas precisa apenas continuar lendo. Em algum momento, ele é sugado pela obra e finalmente se abre àquela beleza. Além de não desistir, porque o romance se incumbirá de fisgar o leitor, outra alternativa poderá ser que o leitor leia em voz alta. De repente, aquilo que parece muito difícil, passa a ser compreensível”, sugere.

Diamantes  de Rosa

“O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver — a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo.”

“Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o ruim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que posso com este mundo?

“Este mundo é muito misturado.”

“O senhor sabe o que é silêncio é? É a gente mesmo, demais.”

“Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”

“Deus é paciência. O contrário é o diabo.”

“Para o prazer e para ser feliz, é que é preciso a gente saber tudo, formar alma, na consciência; para penar, não se carece.”

“O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando.”
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