Tetê Espíndola: 'Hoje meu desafio é cantar de um outro jeito'

A cantora Tetê Espíndola, que acaba de lançar o álbum Outro lugar e se apresenta hoje em Brasília, fala ao Correio sobre o meio ambiente e as mudanças na forma de cantar

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postado em 25/11/2017 07:00 / atualizado em 24/11/2017 18:54

Patricia Black/Divulgação

 
Foi na sacada de um hotel em Brasília (ela não sabe precisar qual) que Tetê Espíndola compôs Andorinha, canção que abre Outro lugar, novo disco da cantora. “Eu nunca vou me esquecer do visual daquele momento”, conta. No disco, Tetê busca um refúgio delicado, como o céu de Brasília, contra a correria e o barulho do cotidiano. Ela apresenta canções do álbum e sucessos da carreira neste sábado (25) no Clube do Choro em um show de voz e craviola.

A natureza é tema primordial para Tetê. Em entrevista ao Correio, a cantora, que diz ter aprendido a cantar os agudos tão característicos com os passarinhos, critica a forma como o meio ambiente é tratado hoje e cobra ações do governo. Ela também fala sobre parcerias, a família musical e mudanças na maneira como canta. “Hoje meu desafio é cantar de um outro jeito, mais grave e mais suave.”
 

Entrevista // Tetê Espíndola 


Você compôs Andorinha, que abre o disco, aqui em Brasília em 1985… Como foi o momento?
Aquele festival importante foi no final de 1985, então foi antes disso. Eu estava fazendo um show solo aí. Ia participar de algum evento, que era só eu, sozinha com minha craviola. Eu nunca vou me esquecer do visual daquele momento. Eu estava um hotel que tinha uma sacada e começou a dar esse pôr-do-sol maravilhoso. E eu, sozinha, sentei na sacada e comecei a tocar. Fiz a música na hora inspirada no pôr-do-sol de Brasília. E o céu de Brasília é lindo, né?

E como é sua relação com a cidade?
Já fui várias vezes fazer show. Tenho um parceiro que mora em Brasília, que é o Bené Fonteles. Sempre vou aí, já fui a eventos importantes que envolvem temas do cerrado. O Bené é muito ligado a ecologia e eu também, então a gente sempre está junto em alguma coisa em Brasília. Tenho paixão por conhecer a Chapada dos Veadeiros, que ainda não conheço.

Recentemente houve aquela queimada gigantesca por lá…
Isso ocorre muito nesta época do ano, né? Tomara que tudo fique bem, mas a natureza é muito forte. Ela se recupera. Eu quero ir até lá. Eu já fiz músicas para outras chapadas, como a dos Guimarães e a Diamantina.

Você já disse que aprendeu a alcançar agudos com os passarinhos… Como você vê a nossa relação, muitas vezes predatória, com a natureza hoje? 
Isso tem acontecido, já há muito tempo, num ritmo progressivo demais, o que é preocupante para o Planeta Terra. O “progresso”, o tal do “progresso”, tem acabado com a natureza. Também acho que falta os governos cuidarem um pouco mais e darem mais atenção, principalmente para o nosso cerrado e para a Amazônia. É muito, muito importante. Se o governo não colocar um limite nisso (e o que funciona é multa para quem depreda a natureza) fica mais difícil. O ser humano está sentindo essa depredação. Algumas coisas básicas as pessoas, as novas gerações estão fazendo (como reciclar o lixo), mas falta muita, muita coisa para poder frear essa depredação.

O título do disco é Outro lugar e tem um clima que, de fato, parece estar em um outro tempo. Onde é esse outro lugar?
Para mim, essas músicas que eu gravei são mesmo atemporais. Eu acho que o outro lugar é um tempo que não existe, que não é esse tempo que a gente fala (passado, futuro). É um tempo dentro da gente, dentro da nossa própria consciência. Se cada um achasse esse tempo de equilíbrio, ajudaria muito. No meu caso, o outro lugar é uma natureza perfeita, onde existe um silêncio para a gente ouvir o som dos pássaros. Tudo isso está dentro de mim. Eu estou há 35 anos em São Paulo, mas eu nunca perdi essa raiz que me inspira.
 
 

E qual o segredo, como fazer esse mergulho para esse outro lugar diante deste mundo tão turbulento, com tanta coisa acontecendo?
Realmente o mundo está muito turbulento, tem poluição sonora em tudo quanto é lugar, você não consegue mais viver em silêncio. A não ser que você realmente se retire para a natureza, lá para o centro. Mas é uma coisa com que estamos convivendo e eu não sei até quando nem como as pessoas vão aguentar isso. Todo mundo tem que conseguir um equilíbrio. Eu estou começando a investir na meditação, acho que a meditação é ainda um lugar que a gente pode conseguir dentro da cabeça da gente.

A arte e a música também podem ser uma meio de alcançar esse lugar?
Eu acho que sim. Você tem o recurso do headphone, por exemplo, que te coloca dentro daquele espaço que é a mensagem. No caso do meu disco, existe um espaço sonoro muito especial, isso dá para a gente sentir. Eu aconselho as pessoas a ouvirem meu disco com fone, porque esse espaço sonoro ajuda as pessoas a conseguirem meditar.

É um disco de muitas parcerias. É a sua maneira preferida de compor?
Acho que é o momento. A gente tem que estar aberto ao momento da composição. Composição, para mim, não é planejada. Não é: ‘Ah, agora eu vou compor’. Ela acontece. Surge, às vezes, alguma coisa muito importante na vida de um parceiro que vai fazer a letra ou algo comigo mesmo. A Marta Catunda, por exemplo, é a pessoa com quem tenho mais músicas. Ela é minha amiga há mais de 40 anos e a gente sempre que se encontra está vivendo algo especial. O meu parceiro mais constante, além da Marta, é o Arnaldo Black, que é meu marido e meu parceiro em tudo na música, no amor, nos filhos e nos projetos.

O disco tem composições com o Arnaldo (seu marido), as fotos são da Patricia Black (sua filha). Como é trabalhar em família assim?
É maravilhoso. A gente tem uma produtora chamada Luz Azul. O nome é uma homenagem ao primeiro grupo de que fiz parte. Eu e o Arnaldo mantemos essa produtora e a gente produz o Dani Black (meu filho) e ajuda no trabalho da Patricia, que também é cineasta. No caso da Patricia, o álbum foi a primeira vez que ela trabalhou em um projeto meu assim. Ela ficou apaixonada pelo disco e pediu para fazer a capa. E eu fiquei muito feliz com o resultado, que até surpreendeu a gente.

Você quer compor com o seu filho Dani Black? Ou já compuseram algo juntos?
Olha, com o Dani, por incrível que pareça, eu ainda não compus, mas a gente tem muita vontade de fazer uma música juntos. Ele compõe de uma outra forma. Ele faz a letra e a música sozinho ao mesmo tempo, então não tem esse momento de parar e ‘Vamos fazer uma música’, por mais que ele tenha composto com outras pessoas.

Acompanha essa nova geração da música  brasileira? Do que gosta?
Eu sempre gostei muito do pessoal do 5 a Seco, acompanhei muito. Gosto muito do timbre da voz da Maria Gadú e da Mariana Aydar. E agora estou curtindo muito também um cara dessa geração. Ele é pernambucano e se chama Raul Misturada. Você já ouviu falar?

Aquele da turma com Dandara, Paulo Monarco, né?
É, esses aí, eu curto demais essa turma que está fazendo muito sem pensar se é isso ou se é aquilo. Esse pessoal novo, eles são muito do “Ah, é agora”, eles vivem isso muito intensamente. É outro momento. Eu sou uma artista que venho do LP, da época em que havia multinacional, agora eles estão vivendo essa época da internet. Tudo muito rápido, muito intenso.

Mudou muito? Como foi se adaptar?
Na minha época, você fazia o disco, aí fazia a capa, esperava, depois tinha um tempo para divulgar. Agora é tudo pá, pá, pá. Eu fico quase louca. No começo, eu sofri muito. Mas eu sou muito rápida nas mudanças e eles, principalmente a Patrícia, me ajudaram muito. Já estou acostumada, só não me acostumei com esse ritmo alucinante de que tem que postar, tem que estar o tempo todo acontecendo as coisas. Mas devagar eu vou pegando o ritmo.

Os festivais tiveram um papel muito importante no início da sua carreira… Acredita que eles fazem muita falta? Algo assumiu esse lugar?
É outro momento. Não tem mais aqueles grandes festivais que tinham aquela coisa diretamente com a tevê. Mas existem festivais. Eu acompanho porque, no começo da carreira do Dani, ele participou de vários festivais de interior. É um outro tipo de festival. Aparece muita gente boa, mas o fato de não estar vinculado à televisão não dá aquela repercussão tão grande. Os festivais não pararam, está cheio de festivais, mas não tem aquela coisa grande de antigamente por causa disso.

Mesmo com o passar do tempo você se manteve cantando as canções quase sem mudanças, no mesmo tom. Como é o seu processo de cuidar da voz?
Tem a vontade de sempre estar pesquisando, explorando a voz de outras formas. Então, sim, continuo ainda cantando Escrito nas estrelas no mesmo tom, o agudo está lá. Mas eu estou explorando muito o outro lado da minha voz. Estou curtindo muito mais isso. A gente vai amadurecendo e ficando mais relaxada para cantar. Então, eu estou preferindo ultimamente cantar muito mais suave, mais no grave, mais relaxada... E eu cuido da minha voz, dessa parte mais técnica, tenho que cuidar o tempo todo. Mas eu fico com faringite, sinusite, essa coisa toda que hoje em dia é muito difícil não ter por causa da instabilidade do clima. Os cantores sofrem muito com isso.

Você acredita que existe um público jovem descobrindo agora seu trabalho?
Com certeza. Por causa da internet. Por isso é importante a gente manter YouTube, vídeos, colocar coisas antigas. Tem muito material para jogar no ar para esse pessoal poder realmente pesquisar e conhecer. E as pessoas que gostam do Dani Black acabam descobrindo que ele é meu filho e vão atrás de conhecer o trabalho da mãe.

Show
Tetê Espíndola Clube do Choro (Eixo Monumental). Hoje, às 21h. Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia). Informações: (61) 3225-1199/3225-2761. Classificação indicativa livre.

Disco
Outro lugar
Tetê Espíndola. Luz Azul. 12 faixas. R$ 40.
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