Livro 'Um café com Voltaire' revela a importância do autor francês

A obra foi escrita por Louis Bériot e publicada no Brasil pela Editora Autêntica

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Reprodução/Internet

 
Quem não gostaria de ouvir uma conversa, uma palavra que fosse, entre Voltaire e Montesquieu? Ainda mais se fosse no (hoje famosíssimo) ‘Le Procope’, sonho de consumo de todos os que conhecem a história desse célebre restaurante parisiense. Pois é, a alternativa é ler Um café com Voltaire, de Louis Bériot, (Ed. Autêntica, 2017), autor francês que recriou de forma deliciosa a história dos gênios do Iluminismo, no século 18.

Voltaire, livre-pensador que chorou em 1755, no dia em que Lisboa foi destruída por um terremoto, que foi amigo e inimigo figadal de reis e toda raça de tiranos, que fez fortuna assombrosa, que escreveu as mais belas e comoventes páginas sobre direito, igualdade, justiça, tolerância e tudo mais que rege a vida humana, continua mais vivo do que nunca.

Foi exilado inúmeras vezes, vivendo três anos na Inglaterra, o que muito lhe agradou, pois se identificou com a modernidade que viu lá, em oposição ao passadismo que reinava na França. Foi grande admirador de Isaac Newton, de quem assistiu ao funeral, e a quem chamou de “o maior gênio da humanidade”. Foi amigo e amante das mulheres mais belas, cultas e inteligentes de seu tempo, como Madame du Châtelet, e foi admirado pela mais invejada das mulheres, a marquesa de Pompadour, preferida de Luís XV, a mulher que revolucionou a França com o seu bom-gosto.

Voltaire foi uma grande luz, um verdadeiro farol que iluminou o século 18 e vem nos iluminando ainda hoje. Viveu entre os maiores cientistas e pensadores como os enciclopedistas Diderot, Rousseau, D’Alembert, Montesquieu – a quem devemos o princípio dos três poderes – a quem na verdade devemos tudo, toda a ideia de igualdade republicana que, de uma maneira ou de outra, começou ali com eles.

Foi também um poço de contradições, talvez por isso mesmo tenha sido tão grande, e não se envergonhava de mudar de ideia porque não se envergonhava de pensar, parafraseando aqui Pascal, outro contemporâneo seu. Digladiou com Rousseau sobre a natureza humana, chamou o homem de “bípede sem pena”, mas foi o maior defensor da dignidade do ser humano de todos os tempos.

Mesmo com idade avançada e saúde frágil, trabalhava dia e noite em favor da sociedade, pois era um progressista nato. Foi inventor, empresário, banqueiro. Foi senhor de Voltaire, senhor de Tournay, senhor de Fernay, cidade que lhe pertencia e que dirigiu com muito sucesso. Senhor de todos nós. Escreveu milhares de cartas (à mão, é claro), numa média de quarenta por dia, e deixou as mais belas e profundas páginas literárias. Seu saber e erudição não tinham limites: conhecia toda a cultura humana desde os antigos e escreveu sobre todos os temas. Deixou-nos dezenas de obras como poesia, ópera, tratados, dicionário filosófico, contos, peças de teatro, livros de história, artigos, ensaios, escritas sob o efeito de quarenta xícaras de café diárias...

Ler Um café com Voltaire é fugir da mediocridade, da mesmice, da pobreza do pensamento dos nossos dias. É aventurar-se com esse grande homem que conheceu a glória e se tornou uma lenda ainda em vida, que viveu fugindo para salvar a pele e as suas ideias, que lutou contra as superstições, o fanatismo e os tolos; é também participar das conversas dos homens de espírito no tempo em que pensar não doía... Como disse Buffon, nunca haverá um Voltaire II.

Vera Lúcia de Oliveira é professora de literatura

Um café com Voltaire
De Louis Bériot/Ed.Autêntica 
256 páginas

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