Francis Hime detalha o processo de criação das suas canções mais famosas

O compositor Francis Hime cujo nome atravessa boa parte da história da música popular brasileira lança Trocando em miúdos as minhas canções.

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postado em 26/11/2017 07:00 / atualizado em 26/11/2017 16:11

Leo Aversa/Divulgação

 
Quando começou a alimentar a ideia de escrever Trocando em miúdos as minhas canções, Francis Hime pensou em um livro capaz de esclarecer o processo criativo. Seria um material interessante, principalmente, para músicos. De 2015 para 2016, no entanto, o compositor mudou um pouco a concepção do livro. Queria algo que atraísse também os leitores não especializados em música e decidiu mesclar a própria biografia às histórias das canções.

Para detalhar o processo criativo, Hime incluiu no livro 352 QR Codes com as músicas citadas. Desse total, 150 foram gravadas pelo próprio compositor especialmente para a publicação. Não há canções inéditas nas gravações, essas ele deixa para projetos nos quais trabalha no momento, mas há novas interpretações e maneiras de apresentar as peças. “Em muitas eu comparo uma música minha com uma música de outro compositor, seja música clássica ou de compositores populares. São especulações que fiz sobre as influências que sofri ou que poderia ter sofrido. Achei que seria interessante demonstrar isso numa gravação”, conta. As regravações foram feitas em estúdio e boa parte das gravações reutilizadas foram cedidas pelo selo Biscoito Fino, fundado pela mulher do compositor, Olívia Hime.

A biografia de Hime está em todos os cantos do livro. É com a história da passagem por vários internatos que ele começa a narrativa, lembranças de um Francis Hime criança, filho de pais separados, constantemente matriculado em colégios internos para facilitar a vida dos pais e incessantemente insatisfeito com a limitação da liberdade típica desse tipo de instituição. “Como o livro ganhou essa conotação por conta do biográfico, comecei a pensar numa narrativa que fosse mais ou menos cronológica, que seguisse o tempo. Inclusive, alterei um pouco a ordem, eu começava falando sobre o samba, mas como a abordagem era mais técnica, achei interessante, para não assustar o leitor, começar com o capítulo da música clássica”, explica.

Trocando em miúdos as minhas canções é um livro sobre a música popular brasileira porque tem ali histórias que envolvem praticamente todos os nomes mais importantes dessa produção. Hime teve dezenas de parceiros, entre eles Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Milton Nascimento, Toquinho, Paulinho da Viola, Geraldinho Carneiro, Joyce e Paulo César Pinheiro. Parceria sempre foi coisa séria para Hime. No livro, ele lista todos os nomes com os quais trabalhou, de quem recebeu letras para serem musicadas. Segundo o compositor, a parceria é talvez a marca maior das mais de cinco décadas de carreira.

O trabalho em conjunto com os grandes nomes da MPB rendeu os momentos mais curiosos do livro. O conhecido ciúme de Vinicius de Moraes, que atrasou a parceria com Chico Buarque, para o qual Hime conseguiu encontrar a linha melódica de Vai passar. A simbiose com a mulher, Olivia, sempre a primeira a ouvir, opinar e sugerir caminhos, as contribuições para discos de Gilberto Gil e Caetano Veloso, a exceção com Capinam, para quem pediu um dueto de amor para cantar com Gal Costa (Hime geralmente faz a música sem ter ideia da letra) aparecem entremeadas a momentos emblemáticos, como o nascimento de Atrás da porta e Trocando em miúdos.

As duas parcerias — Chico Buarque é autor das letras e Hime, das melodias — estão entre as mais conhecidas do compositor carioca. Há várias maneiras de dar à luz uma canção, mas essas duas últimas foram especiais e nasceram do contato com o instrumento, do tempo dado ao dedilhado. Trocando em miúdos, aliás, não veio do piano, instrumento com o qual Hime tem mais intimidade, e sim do violão.

O piano é um caso sério da vida de Francis Hime. Sério porque revelou o talento do compositor quando ainda era menino e mais sério ainda por não ter sido uma relação muito tranquila. Ao perceberem a facilidade para o instrumento, os pais investiram pesado no estudo da música, mas Hime gostava mesmo é de samba. Foi na Suíça, para onde foi mandado para estudar, já adolescente, que começou a realmente apreciar a música erudita tocada desde a infância. “A música clássica na minha vida não foi uma relação amistosa. Mas eu levava muito jeito, meus pais insistiam para que eu estudasse. Fui levando esses estudos, mas não gostava muito. Agora, fiquei impregnado, evidentemente”, conta. “Essa briga acabou dissipada quando fui para a Europa para continuar os estudos do científico. Lá, eu me emocionava com espetáculos e orquestras, ia para os concertos sozinho. Fui gostando de música clássica, mas sem estudar partituras, como ouvinte mesmo.”

A intimidade com o gênero refletiu em boa parte da produção de Hime, que compôs peças como Sinfonia do Rio de Janeiro de São Sebastião, Concerto para violão e orquestra e até uma ópera. “Mas isso não foi o estudo que me trouxe, foi o gosto de ouvir essas peças”, avisa. Há dois capítulos no livro dedicados ao que Hime chama de “música de concerto”. Um deles fecha o livro e traz considerações curiosas sobre o processo criativo do compositor. A música pode surgir mesmo quando ele está distante do instrumento. Uma vez, ele concluiu a passagem de uma ópera sentado em um sofá, enquanto aguardava Olívia fazer compras em uma loja de departamento. O único lugar no qual, confessa, nunca organizou um compasso foi no elevador. “Já tive de tudo em matéria de cenário para o surgimento de uma composição”, escreve. “Barco, trem, navio, avião, lagoa, floresta, mar, banheiro, trânsito, ciclovia, metrô, sala de espera de consultório, academia de ginástica, estádio de futebol, saguão de aeroporto, estacionamento, shopping… Mas elevador, não”. Ao final, ele compara a criação musical à literária: o escritor convive meses, às vezes anos, com seus personagens até concluir o livro, mesma situação vivida pelo compositor com suas sequências de notas.

Entrevista/ Francis Hime

Você começou o livro pensando nos músicos, mas mudou de ideia e deu um tom mais biográfico. Por quê?
Eu tinha vontade de escrever um livro para compartilhar com os músicos sobretudo, mas não somente com eles, essa ideia de criação, esse “mistério” do processo de criação no sentido de que eles pudessem examinar as dificuldades, os desafios que se apresentam. Achei que isso poderia estimular outros compositores e criadores a compor, a ousar, a se jogar nessa viagem que é a criação. Antes de começar a escrever, meu genro disse “poxa, você vai escrever pra músico e eu não vou ler porque não sou músico. Queria que vc contasse suas histórias”. Aí comecei a pensar em comentar sobre o processo criativo e contar as histórias que aconteceram, contextualizando o nascimento dessas criações.

Acabou virando um livro bem autobiográfico… 
Naturalmente, a escrita acabou sendo cronológica. Dividi em 10 capítulos e muitas coisas escrevi à mão, porque não trabalho com computador. E muitas músicas poderiam estar em um capítulo ou outro.

Como são essas fronteiras entre a música erudita ou de concerto e a MPB? Como você passa de uma para outra?
Comecei a gostar de música clássica paralelamente ao meu gosto por MPB, porque eu gostava, sobretudo, de samba. Fui para os Estados Unidos para estudar trilhas com Paul Glass e, a partir desse estudo, comecei a compor peças de câmara. Construí essa bagagem, mas não tava com a ideia de que ia compor, era um gosto, eu tava a serviço mais do estudo para trilha de filme. Depois que voltei ao Brasil, Benito Juarez encomendou uma sinfonia que eu já tinha começado. Incentivado por ele, comecei a escrever essa sinfonia. No começo, foi muito difícil, levava muitos dias, me deparava com aquela famosa folha em branco. Mas fui desenvolvendo isso, já tinha uma bagagem que me permitia me aventurar. Raphael Rabello foi muito importante pra mim, ele me dizia assim: “você tem que escrever”. Mas nessa escrita da música de concerto, os temas da MPB sempre estiveram muito presentes, com exceção da primeira sinfonia, que era mais hermética, e mesmo assim o segundo movimento tem umas ligações com a música popular.Eu situo esse trabalho na fronteira entre uma e outra. Não é música popular puramente,, mas também não é a música tradicional de concerto.

O que o aprendizado da música de concerto acrescentou na sua maneira de compor MPB?
Está presente a elaboração, mas isso não foi o estudo que me trouxe, foi o gosto ao ouvir compositores como Tom, Bach, são compositores que elaboram a música. Foi um gosto que adquiri ouvindo essas peças mais sofisticadas. E isso se traduz nas orquestrações, mais do que na base de composição propriamente dita.

Você gravou 150 músicas para o livro. Como selecionou essas peças? 
Algumas são gravações antigas da época da Som Livre, que tinha que regravar até por questões contratuais seria mais fácil do que pedir autorização quelas gravações antigas, com algumas exceções. Tem uma gravação minha com Chico (Buarque) de Luiza, e tem uma aliás que teria que ser uma gravação antiga porque foi feita pensando no Marco Nanini (Hime musicou o poema Passagem das horas, de Fernando Pessoa, para Nanini) e não teria sentido regravar. Das gravações mais recentes, usei todas que precisei. A escolha dessas músicas me deu uma noção de como a narrativa foi caminhando. Mas as músicas inéditas que ainda não foram gravadas, eu não incluí.

E muita coisa inédita ficou de fora?
Tem bastante coisa. Tem um samba meu com Nei Lopes. Tem muita coisa com Geraldinho. Agora estou dedicado a um trabalho com a Olivia sobre um disco que ela vai fazer, Espelho de Maria, que contempla os três compositores com os quais ela conviveu no início da carreira e que a formaram musicalmente, que foram a sua referência. São Edu Lobo, Dori Caymmi e eu. Gravamos três suítes. Uma com músicas do Dori orquestradas por mim, uma com minhas músicas orquestradas pelo Dori e uma com músicas do Edu orquestradas pelo Paulo Aragão, um excelente orquestrador, do Quarteto Maogani. Vamos para o estúdio em janeiro.

Tem uma passagem curiosa no livro, que outros músicos contam muito também, que era o ciúme que Vinicius de Moraes tinha das parcerias. Como era isso?
Era uma coisa muito leve porque Vinicius era muito generoso, uma pessoa adorável, que estimulava a gente a compor, mas tinha esse ciuminho. O Ruy Guerra foi meu segundo parceiro, Vinicius foi o primeiro, e ele tinha uma certa implicância, pequena, mas eram amigos. E foi engraçado porque o Chico (Buarque), a gente se conheceu na década de 1960, na época dos festivais, e os amigos comuns diziam “ah vocês têm que compor juntos”. Aí peguei um tema antigo que eu já tinha e dei para o Chico letrar. O Vinicius começou essa história de “ninguém tasca, é minha”. E aí ele só fez a letra sete anos depois. Era A dor a mais. E minha parceria com Chico só viria anos depois, com Atrás da porta.
 
Trocando em miúdos as minhas canções
De Francis Hime. Terceiro Nome, 316 páginas. R$ 99.
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