Filmes em cartaz projetam ideais de felicidade e plenitude

A harmonia entre os seres humanos estão afirmadas em Gabeira, um documentário, e nas produções que falam sobre budismo e yoga

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postado em 27/11/2017 07:39

Espaço Filmes / Divulgação
 
 
De um lado, a exploração de uma linguagem arrojada dos animês, ajustada ao diretor Hideaki Ôba, que assina a condução do longa de animação Por que vivemos?. Do outro lado, o mote inspirador do filme atualmente em cartaz em Brasília: as observações do quase nonagenário Kentetsu Takamori, roteirista de Por que vivemos?, baseado em uma de suas obras como escritor. Sábias palavras serenas cabem no texto do protagonista de Por que vivemos?, seguidor do budismo. O discurso da produção casa com o de dois outros filmes recentes que prometem dialogar com os espectadores adeptos da tranquilidade: o documentário On yoga:Arquitetura da paz e o filme de Moacyr Góes que examina parte da trajetória do ex-deputado e ativista Fernando Gabeira.
 


“Acho que o pensamento do Gabeira é referencial, porque não se limita à crítica da sociedade contemporânea como se fosse um mal em si. No entanto, consegue perceber que é preciso pensar e agir de forma criativa e alternativa”, observa o cineasta Moacyr Góes. Ele garante não ter feito filme com preocupação partidária. “Projeto pensamentos e ações do Gabeira ao longo dos últimos 50 anos de história do Brasil”, reforça.
 
Internet/ Reprodução
 

Sem o colorido dos heróis de blockbusters estrangeiros e do corre-corre impresso naquelas produções, o ex-deputado mineiro tem espaço na tela para celebrar os pensamentos ecológicos que o firmaram como um dos fundadores do Partido Verde. Um arejamento norteia ideais do político que, aos 76 anos, viu vingar projetos libertários para um Brasil de progressos: do fim do regime militar ao casamento homossexual — há esperança, além de vitórias para minorias.

Ponto, portanto, para as expectativas projetadas pelo escritor, em livros como Hóspede da utopia (1981), que, nos anos 80, apregoava a necessidade do feminismo. “Gabeira sempre jogou sua vida em causas sociais e direitos individuais. Essa trajetória, registrada no filme, se tornou singular na medida em que ele foi capaz de fazer permanente autocrítica de sua ação e pensamento. Essa é uma coragem rara no país”, avalia o diretor do longa.

Simplicidade e tradição

A tranquilidade imersa numa vida agrária, em pleno Japão feudal, pode render um belo aprendizado na vida do moderno e afoito homem contemporâneo, pelo que fundamenta o roteiro do longa-metragem Por que vivemos?, de Hideaki Ôba, lembrado como um dos assistentes da telessérie Pokémon (2010). O plano do Heizei gojo (grosso modo, um carpe diem cheio de realizações em vida), com a felicidade prevista pelo Buda Sakyamuni, está entre os elementos explorados no filme. Benevolência, gratidão e aceitação da morte são alguns dos itens que fazem parte da trama que recapitula ensinamentos de buda Amida, atido à purificação para o alcance da felicidade.
 
Internet/ Reprodução
 
 
Mestres, palestras e sofrimentos reais encaminham o protagonista da animação que explora preceitos do século 13 ditados por Shinran Shonin, autor da popular corrente budista expressa pela Escola da Verdadeira Terra Pura. Com pegada de viagem interior, na animação em cartaz nos cinemas, há concentração na vida de Ryoken, dono de semblante excessivamente duro. Depois da morte da mulher, Chyio, ele busca uma razão para a vida.

Junto com outros camponeses, Ryoken é transformado pelas palavras do mestre Rennyo. Na trama de desapego, estão representados os duelos entre clãs do século 15 (confrontados pelo desejo de maiores influências sociais), ocasionados pela vitória de Rennyo Shonin, ao construir templos como os de Yoshizaki. Destruição, por causa da intolerância alheia, e incêndios ameaçam as construções nove anos depois de estabelecidas. Contudo, Por que vivemos? segue apostando numa mensagem de compaixão.
 
 
» Quatro perguntas // Heitor Dhalia, diretor de On yoga 

Calma, exercícios de yoga e meditação, além de aprendizados de tolerância e paz, recheiam o documentário On yoga: A arquitetura da paz, em exibição na capital. Extrapolando o circuito indiano, com imagens do Festival Internacional de Yoga (Rishikesh) e do Mela Festival Kumbha (Haridwar), o filme é assinado pelo pernambucano Heitor Dhalia.
 
Uma história pessoal norteia o contato com os mestres iogue: com uma cirurgia vertebral — o fotógrafo Michael O’Neill, de publicações como a Vanity Fair, Time e Newsweek, teve perda parcial dos movimentos do braço. Na reestruturação do sistema nervoso, o fotógrafo se fortaleceu pela calma, disciplina e o conhecimento de pessoas como os professores Elena Brower (autora de Art of attention), Deepak Chopra e Eddie Stern. Dos ensinamentos, destaca-se a visão de Gurmukh Kaur Khalsa (da corrente Kundalini Yoga), que nota a yoga como “uma salvação para o mundo”. No filme, o numerólogo Guru Dharam defende princípios de humildade e estende conceitos da terapia advinda com a prática da Kundalini, vista como “antídoto para os excessos de hoje”.

Estar a serviço do outro é um dos princípios citados por você, quando fala do filme. Diretores costumam ser egocêntricos — nessa perspectiva, houve esforço enorme da tua parte?
Não se trata de um esforço. Mergulhar no universo da yoga trouxe naturalmente aprendizados interessantíssimos para o meu trabalho. E um dos principais foi o da escuta. Ouvir o outro e considerar o que ele tem a dizer. Passei a cultivar isso no meu trabalho e no longa-metragem que acabo de finalizar as filmagens, já consegui aplicar isso. Eu me dei a oportunidade de ouvir mais o elenco, por exemplo. Eles ficaram mais livres não só para dar suas opiniões, como para improvisar também, e o resultado disso foi maravilhoso. Isso também vem junto das questões do ego, que pode atuar a nosso favor, como também contra. Segundo os ensinamentos dos gurus, o ego é um dos principais vilões de quem busca a plenitude e felicidade. Ele nos impede de apreciar as pequenas coisas, como o simples ouvir.

Você passou por algum drama na vida que tenha sido amenizado pela yoga?
Não me recordo de nenhum grande drama. Mas, como filho de pais comunistas, céticos, contra qualquer tipo de dogma, me rendi à yoga no que se refere aos pequenos dramas cotidianos. O que eles chamam de ‘surrender’. Hoje, sempre que estou angustiado por questões banais, tenho agora um ponto de inflexão. Aristóteles diz que o sentido da vida é a transformação, e entendi que a yoga te prepara para esse momento.

Qual a importância da trilha no teu documentário?
Totalmente importante. Desde o início, sabia que queria algo sensorial e experimental que transmitisse a sensação de praticar yoga. Algo que levasse ao espectador a sensação de plenitude e relaxamento. Para este resultado, o instrumentista Silvio Piesco produziu uma trilha inspirada no Gayatri, um dos mais importantes mantras indianos. Gravamos em parceria com um estúdio de Nova Deli, usando instrumentos culturais, como dilruba, citara e taus. Até mesmo alguns mestres da yoga e monges foram convidados. Não foi fácil reunir e encontrar esses profissionais. O especialista em Taus Sandeep Singh, por exemplo, é um dos poucos no mundo que ainda toca esse instrumento.

Yoga demanda que fundamental esforço, na sua visão?
Para nós, homens do ocidente, acredito que seja um esforço contínuo até a naturalidade. Conheci pessoas totalmente desapegadas do dinheiro,  que entendem a morte de forma elevada. Coisas que seriam impossíveis aparentemente de aplicar em nosso sistema social. Mas uma coisa que é fundamental para o nosso bem-estar e que me esforço para aplicar nos meus dias é a questão da respiração, ensinamento superimportante da prática. Uma das iogues que entrevistei me ensinou que uma respiração longa, profunda e tranquila é sinônimo de vida longa, já uma respiração rápida e nervosa significa vida curta. Passei a me atentar a isso, usando a meu favor, para me tranquilizar, me concentrar no trabalho e me inspirar. E até mesmo ajudar outras pessoas com essa que parece uma simples dica: “calma e respira”.

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