A peleja do forró diante da globalização

Artistas e acadêmicos discutem o futuro do gênero musical diante da ação predatória da globalização. Investir na formação de novos públicos é uma das saídas para renovação

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postado em 28/11/2017 07:13 / atualizado em 28/11/2017 11:59

 
 
João Pessoa — A temperatura beirava os 28ºC, uma brisa vinda da praia de Cabo Branco, a poucos quilômetros, aliviava o calor. O som da sanfona, o burburinho, as entrevistas, um corre-corre de gente famosa rumo às salas de debate registravam o encontro histórico no Espaço Cultural José Lins do Rego, centro de convenções localizado no bairro de Tambauzinho.

Artistas, compositores, acadêmicos e políticos, (isso mesmo, políticos ) discutiam as bases e diretrizes para valorizar e transformar o forró de raiz em patrimônio imaterial da humanidade pela Unesco. Mas as mesas redondas, palestras e rodas de conversa do 2º Fórum Nacional de Forró de Raiz iam além da conquista de um simples rótulo.

José Carlos Vieira/CB.A Press
 

Todos queriam discutir como o forró sobreviverá no mundo globalizado que invade rádios, festas populares e destrói costumes. “Nossa preocupação é como resistir a essa avalanche de ‘novidades’ nas mídias, muitas delas predadoras. Lutamos para reagir a isso, para buscar mecanismos de manutenção e de preservação de nossa cultura”, destaca a organizadora e curadora do evento, Joana Alves da Silva.

“Precisamos fazer com que o artista local tenha condições de se igualar no mercado diante de uma concorrência muito forte, desleal e plastificada. Essa plasticidade que estamos falando diz respeito a palcos gigantes, dançarinas, iluminação e instrumentos que não têm nada a ver com forró de raiz. Gente que não se preocupa com as matrizes nordestinas”, acrescenta.

Paralelo ao fórum, o 1º Encontro Nacional de Forrozeiros, no mesmo local, sustenta a pisada incrementando temas e discussões, sempre ao som do triângulo, da zabumba e da sanforma, tríade mágica nordestina. “A ideia é o forró se repensar para saber como entrar nesse processo sem perder a essência”, diz Joana Alves.


Entre as pautas, o foco no universo que envolve toda a cultura do forró: dos gêneros musicais (baião, xote, xaxado, arrasta-pé, rojão, etc.) às danças;  das festas aos modos de fazer instrumentos musicais, além dos lugares especiais em que tais referências culturais são mais simbólicas.

Ao Correio, o cantor, compositor e ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil, fez questão de destacar, por e-mail, a importância do forró para a música brasileira. “Sou aprendiz de forrozeiro. Desde menino, eu gosto do forró. Sempre separei certo espaço no meu trabalho para o gênero. É a música da infância, a primeira música, que deixou resíduos muito fortes na minha alma”, disse em meio às gravações do seu próximo disco no Rio de Janeiro.
 

"Sou, antes de tudo, um artista do forró”
Gilberto Gil, músico e ex-ministro da Cultura

Gil gosta de repetir que o forró não se esgotou lá atrás. “Poderia ter ficado na lembrança, esgotado no tempo. Mas não é assim; o forró permanece muito forte no país inteiro. Ele se desdobrou, influenciando a música sertaneja, mesmo a música pop, e artistas como Alceu Valença, Elba Ramalho, Zé Ramalho, Lenine e mesmo Caetano Veloso e Carlinhos Brown são referências.”

O vigor do forró continua apesar da maciça pressão da indústria fonográfica que ainda impõe uma lavagem cerebral sonora a cada clique no rádio e agora no celular. E o gênero nordestino não se assusta com isso.

“O forró é uma música que permanece muito forte na vida cultural e musical brasileira. E, no meu caso, ela vem de berço. E continuo aprendendo com o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, e sou, antes de tudo, um artista do forró”, complementa Gilberto Gil.
 
José Carlos Vieira/CB.A Press
 
 
Durante o vaivém nas salas de debate em Tambauzinho, o sanforneiro cearense Chambinho do Acordeon, que viveu Luiz Gonzaga no filme De pai para filho, do cineasta Breno Silveira, conversou com a reportagem também sobre a importância de manter a energia do forró em evidência. “Depois do samba, o forró é o ritmo que mais representa o país. Tive experiências de ir lá para a Rússia e encontrar um grupo de forrozeiros russo, só um que falava português, mesmo assim difícil (risos).”

Chambinho destaca que o que tem raiz, conteúdo, não se acaba. “O que passa são os modismos: o sertanejo de raiz de Tião Carreiro e Pardinho nunca vai acabar, o samba de Noel Rosa, o forró de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, também não...”

Ao seu lado, o sanfoneiro e pesquisador pernambucano Diviol Lira complementa dizendo que, desde os anos 1940, o forró é protagonista da cena musical brasileira. Para o Correio, Diviol gravou um vídeo sobre os principais ritmos do forró. 

Valorização

Iniciativas como o Encontro Nacional de Forrozeiros, destaca Chambinho, são oportunidades para se discutir com seriedade políticas para o segmento. “Só assim chegaremos à frente dos homens do poder, como dizia Gonzagão, não gaguejar e falar à vera sobre nossas propostas.” Entre elas estão a valorização do artista local, principalmente em relação aos cachês, e a inclusão do forró nas escolas.

Joana Alves aponta o esforço em adotar políticas públicas para que os gestores e empresários repensem suas estratégias oficiais, como as ligadas a grandes eventos. “Como se paga um cachê de R$ 450 mil para um artista que vem de fora e R$ 40 mil para um artista local da melhor qualidade?”
 
José Carlos Vieira/CB.A Press
 
 
De acordo com Francisco de Assis, diretor da Casa do Cantador e presente ao evento, a situação dos artistas do Distrito Federal está um pouco melhor. Ao lado da Secretaria de Cultura, a instituição tem feito um trabalho além das datas festivas. “Temos projetos que valorizam os forrozeiros durante o ano todo. Não adianta a certificação de que o forró é um patrimônio imaterial da humanidade e não darmos condições para que esses artistas divulguem seus trabalhos, criem novas plateias e tragam os jovens para a cultura do forró”, afirma.

Na mesma batida, segue Marques Celio Rodrigues, da Asforró-DF. “Precisamos, primeiro, que sejam construídas políticas de Estado, e não de governo, fazendo com que tenhamos mecanismos para trabalhar sem precisarmos ser vistos como marginais. Segundo, a gente tem de desenvolver ações em redes sociais para levar o forró à juventude. Como disse Flavio Leandro — cantor e compositor —, o forró é nosso, o forró verdadeiro, mas a indústria pegou a palavra forró e acrescentou outros gêneros, se apropriou de nossa matriz. Forró pé de serra, forró de plástico... Incluíram até no próprio nome, como Aviões do Forró, Solteirões do Forró, Gaviões do Forró, essas bandas não tocam forró, tocam outras coisas”, arremata.

* O repórter viajou a convite da produção do evento e da PBTur
 
Depoimento
 
Tradição na cidade 
 
“Corre, nas veias do Planalto Central, uma essência que veio do Nordeste e aqui se estabeleceu com firmeza. Sabor de tradição. Sanfona, zabumba e triângulo carregando poesias e sons no meio do cerrado.

Brasília sempre recebeu imigrantes nordestinos que compartilhavam o enorme orgulho por suas tradições e mantinham a consciência da necessidade de conservá-las, mesmo a milhares de quilômetros de distância de seus recantos. Aqui, a música nordestina se estabeleceu e criou identidade própria, justamente em função dos encontros fortuitos com pessoas de outros estados que também carregavam suas tradições.

Desde a fundação da capital,um grande número de representantes das tradições do Nordeste segue perpetuando essa música tão rica e diversa. Tivemos Nino e seu Trio Paranoá, pioneiros nos anos 1960, passamos pelo famoso Trio Siridó, chegamos aos dias de hoje com o Trio Balançado, grupo da Ceilândia que representa muito bem a música nordestina produzida no DF. Eu, com o Forró de Vitrola, sigo a missão de perpetuar nossos mestres por onde passo.

Como as sementes plantadas foram as mais promissoras, vemos que as raízes estão bem fincadas e os frutos estão vindo com toda a beleza que essa música nos oferece. Viva o Nordeste e suas tradições.” 

Cacai Nunes é violeiro, pesquisador e produtor musical. Responsável pelo Acervo Origens e pelo Forró de Vitrola



 
 
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