Correspondência entre Pedro Nava e Carlos Drummond ganha nova edição

A troca de cartas faz parte do livro 'Descendo a rua da Bahia %u2013 A correspondência entre Pedro Nava e Carlos Drummond de Andrade'

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postado em 02/12/2017 07:31

Bazar do Tempo/Divulgação

Em 1983, às vésperas de  completar 80 anos, Pedro Nava se encontrou com Carlos Drummond no Sabadoyle, as célebres reuniões, no sábado à tarde, no apartamento do bibliófilo Plínio Doyle, em Ipanema. Ao se deparar com o amigo, Nava abriu os braços e saudou a presença de Drummond com festa barroca de afeto. De sua parte, o poeta respondeu à efusão do amigo drummondianamente, com um aperto de mão.

A cena reveladora foi flagrada pelo então repórter Humberto Werneck, autor do posfácio de Descendo a rua da Bahia – A correspondência entre Pedro Nava e Carlos Drummond de Andrade (Ed. Bazar do Tempo), organizada por Eliane Vasconcelllos e Matildes Demetrio dos Santos. Apesar do temperamento tão diverso, o poeta e o memorialista mantiveram uma amizade sólida, iniciada em 1922, que se estendeu por seis décadas até a morte de Nava em 1983.

A rua Bahia mencionada no título do livro era o endereço em que Nava, Drummond, Emilio Moura, Gustavo Capanema, Milton Campos e João Alphonsus de Guimaraens, entre outros, cultivaram a irreverência, a amizade e o inconformismo, que forjaram o modernismo em Minas Gerais. A turma costumava se reunir na Livraria Alves e no Café e Confeitaria Estrela: “Havia um excesso de boa educação no ar de Minas Gerais e os moços precisavam deseducar-se”, resumiu Drummond o espírito de insubmissão que animava o grupo na época, em Confissões de Minas.

Nada indicava que Drummond se tornaria o grande poeta modernista brasileiro e que Nava seria o memorialista brilhante. Nas mesas do bar, eles trocavam poemas, crônicas, artigos e textos de ficção e artigos. Segundo Emílio Moura, ao ler dois poemas de Drummond, Nava sentenciou: “ prosa, não há dúvida”.

Por sua vez, Drummond sempre apostou no talento de escritor do amigo. Em carta datada de 1947, o poeta saúda com entusiasmo a publicação da primeira obra de Nava, Território de Epidauro, sobre a história da medicina: “Nunca me conformei com o fato de você continuar sem o nome na capa de um livro. Uma geração é vaidosa de si mesma, e sentir você tão bem-dotado e ao mesmo tempo tão esquivo era o mesmo que sentir fraudado aquele nosso grupo da década de 1920.”

Bazar do Tempo/Divulgação
E, mais adiante, Drummond arremata: “O livro saiu digno de você, cheio de ilustração sem pedantismo, e vazado em uma forma literária gostosíssima. Agora, você está intimado a nos dar outros”.

As cartas remontam ao tempo em que Drummond era um obscuro poeta de Itabira e Nava, um médico iniciante na profissão. O tom mais confessional é de Nava, que reclama das limitações provincianas de Engenheiro Schmidt ou Monte Aprazível, onde trabalhou, no interior de São Paulo. Em decorrência da Revolução de 1930, Nava era visto com suspeição por ser mineiro: “Eu comi aqui o pão amassado no inferno, pois como mineiro fui logo apontado a dedo, suspeitíssimo de derrotismo, denunciado como boateiro e sem muita manha e muita malandragem teria ido fazer uma estação de repouso no “Paraíso” ou na “Imigração”.

Embora lacônico nas missivas, Drummond manifesta com grande admiração pelo amigo quando Nava lança Baú de ossos, o primeiro volume da monumental série que o situaria na condição de um dos grandes memorialistas brasileiros. Em crônica republicada no livro, Drummond escreve: “Pedro Nava surpreende, assusta, diverte, comove, embala, inebria, fascina o leitor, com suas memórias de infância, a que deu o título de Baú de ossos. Seus guardados nada têm de fúnebre. Do baú salta a multidão antiga dos vivos, pois este médico tem o dom estético de, pela escrita, ressuscitar os mortos”.

Se a carta é, pela própria natureza, um gênero errático, irregular e circunstancial, ela ganha uma nova perspectiva na edição primorosa em Descendo a rua da Bahia. Ela dialoga com a história da literatura. A correspondência entre Pedro Nava e Carlos Drummond de Andrade é enriquecida por contextualização esclarecedora, por inúmeras notas com informações essenciais, pela republicação de textos de difícil acesso e por uma iconografia preciosa. O volume reúne poemas e crônicas de Drummond e poemas de Pedro Nava em interação com as missivas. Essa edição memorável de Descendo a rua da Bahia é, simultaneamente, uma obra de história literária, uma fotobiografia e um livro de arte. 

Bazar do Tempo/Divulgação
Descendo a rua da Bahia 
A correspondência entre Pedro Nava e Carlos Drummond de Andrade. Ed. Bazar do Tempo/238 páginas

Pedro Nava nos tempos de juventude

Pedro (o múltiplo) Nava

Tantas vezes corri Dr. Nava
em demanda de alívio, e ele acudia.
De seu saber minh’alma fez-se escrava,
e o corpo, devedor com alegria.

Do moço Nava a poética palavra
que em cadências modernas se expandia,
admirei, e no peito ainda se grava
um certo poema seu, que me arrepia.

Nava pintor e Nava desenhista
esquivo, agudo, exato, surpreendente,
quem nos seus traços não consola a vista?

Do nosso tempo fiel memorialista,
esse querido Nava, simplesmente,
é mistura de santo, sábio e artista.

Carlos Drummond de Andrade

Trechos

O defunto

Quando morto estiver 
meu corpo
Evitem os inúteis disfarces,
Só por piedade consigo,
Procuram apagar no Morto
O grande castigo da Morte.
Não quero caixão de verniz
Nem os ramalhetes distintos
Os superfinos candelabros
E as discretas  decorações.
Eu quero a Morte com mau gosto!

Pedro Nava, Rio, 23 de julho de 1938

Quando Pedro Nava se põe falar do passado, o passado vira presente e estamos todos subindo/descendo a rua da Bahia em Belo Horizonte dos anos 20, e as amadas, as amantes, as estripulias, os estudos sérios ou vadientes, a política, os ares balsâmicos, os crepúsculos expressionistas, tudo é vida latente, que curtimos outra vez. Até mesmo pela primeira vez, porque Nava nos revela o que mal percebíamos na ocasião, o que girava sob o paletó dos acontecimentos, o sentido de nossas andanças e doidecências, ânsia mal explicada, o inconformismo não consciente de sua profundidade. (...) Pedro Nava é um estilo, uma memória, um coração incendiado. Beira-Mar, quarto livro da série, derrama os perfumes, as dores, a jovialidade, o acre sabor de Belo Horizonte antes dos anos 30.

Carlos Drummond de Andrade, Jornal do Brasil 11 de janeiro de 1979
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