Ator Pedro Cardoso conta detalhes da escrita do primeiro romance

Ele acaba de lançar 'O livro dos títulos', primeira experiência de Pedro Cardoso na literatura

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postado em 03/12/2017 07:00

Graziella Moretto/Divulgacao

 
Um homem que compra livros, coleciona títulos, faz citações, mas nunca leu um volume sequer de suas aquisições. Uma editora carioca bem-sucedida, às voltas com a violência no Rio de Janeiro, o desejo da irmã de imigrar e o apego a um Brasil que ela já não conhece tão bem. O ator Pedro Cardoso não sabe ao certo como chegou a esses personagens, mas sentiu que eles rendiam um romance quando começou a escrever O livro dos títulos. Para ele, pouco importa como criou as duas figuras. O importante era dizer certas coisas, coisas que o preocupavam, coisas que não caberiam bem em peça de teatro ou roteiro de filme.

O livro dos títulos, primeiro romance de Cardoso, nasceu de um exercício íntimo e intuitivo, uma prática criativa à qual ele não está acostumado, bem diferente do teatro ou da televisão, espaços nos quais a resposta do público costuma ser imediata. “Quando escrevo para teatro, vou escrevendo e percebendo quais os pontos que doem e ali sigo aperfeiçoando o texto. Quando fui escrever o livro, não tinha essa resposta imediata como no teatro, então fui minha própria plateia, me abandonei um pouco”,  conta o autor, que não se considera um grande leitor porque tem dislexia e leva tempo demais para ler um livro.

Cardoso nunca havia escrito sequer um conto até se debruçar sobre o romance. Fez textos para teatro e televisão, mas queria investir em um livro mais longo porque precisava falar do desânimo que sente ao olhar para o Brasil contemporâneo. “Estou, como o povo brasileiro, inundado de frustração e com um sentimento de impotência muito grande. O livro foi minha tentativa de falar disso, é minha contribuição para uma revolução que não sei qual é”, avisa.

No romance, há alguns embates sobre a contingência socioeconômica do país. Personagens querem imigrar após um assalto traumático, outros bradam a necessidade de ficar para mudar o rumo. Um deles escreve um livro sem nunca ter lido um. Há todo tipo de opinião, alguns velhos clichês simplistas — como o jovem um tanto machista que imagina que “melhor amigo é o lugar mais distante que um homem pode estar da cama de uma mulher” — e outros mais assentados — caso da editora ao constatar que “nem todo desabafo chega a se tornar literatura — e muitas certezas. Nenhuma delas, porém, está elencada na lista pessoal do autor. “Meus personagens têm muitas certezas, mas eu, Pedro, não tenho nenhuma. Eu me expresso pela dialética do convívio dos personagens. Não fico atento a um personagem. Meu livro é cheio de simbologia. Não é um livro de uma escola realista. É um livro que flerta com outro tipo de literatura.  É simbólico um personagem que não lê. Não foi o fato psicológico que me interessou em si. Ele me interessou como símbolo de alguma coisa”, explica.

Em novembro, o ator esteve no Brasil para lançar o livro. Antes de voltar para Portugal, onde mora há dois anos e meio, ele causou polêmica ao se retirar da gravação ao vivo do programa Sem censura em protesto por um comentário do presidente da emissora em relação a Taís Araújo e por se solidarizar com a greve dos funcionários da EBC. O trecho do programa viralizou na internet, mas o ator evita comentar o fato. “Não que não queira comentar, é que não tenho nada a acrescentar. O fato se passou e está aí para observação, reação e comentário de todo mundo”, garante. Em entrevista,  ele conta como e por que concebeu O livro dos títulos, fala sobre o Brasil e reflete sobre a importância da literatura.

Entrevista/ Pedro Cardoso 
 
Você é um grande leitor? O que é a literatura na tua vida?
Não diria de mim que sou um grande leitor, porque sou muito disléxico. Leio o tempo inteiro, mas leio muito devagar. Embora eu leia muitas horas, não tenho uma grande uma biblioteca na cabeça. Mas li muito, porque li muitas horas. Meu interesse pela literatura no momento atual, sobretudo, é que o convívio mais permanente com uma fonte possibilita que a pessoa compreenda e, portanto, desenvolva pensamentos mais complexos. E hoje, o fascismo que se avizinha se nutre muito dos pensamentos simplificados. Agrada ao fascismo que tudo seja branco ou preto, homossexual ou heterossexual, PT ou PSDB, como se entre uma coisa e outra não houvesse a menor sutileza de movimentos.

A literatura ajuda a pensar?
Quando fiquei muito triste com o que tava acontecendo com o Brasil, minha crença de que a literatura é importante para a formação de toda pessoa se revigorou em oposição ao Twitter, ao Instagram e mesmo aos Facebook e aos vídeos da internet, que têm no máximo 3 min. Um filme do Bergman tem 2h30. Se a pessoa não desenvolve capacidade de resistência intelectual, ela nunca vai conhecer a aquele prazer. O mundo vai ficando mesmo com poucas cores, com poucas nuances, com pouca profundidade. E contra o desespero, a única coisa que temos é nossa capacidade de pensar. Nesse sentido, a literatura é um suporte muito estável de sugestões de pensamento de boa qualidade. Tenho a esperança de que, se o Brasil ler mais, seremos um país infinitamente melhor. E vamos nos libertar desses antagonismos infantis que estamos vivendo agora que são fruto de falta de profundidade nas nossas conversas.

Você diz que há ideias que não se adaptam ao teatro, por isso escreveu o romance. Como isso funciona?
O teatro é muito exigente. Ele quer uma ideia que tenha teatralidade e nem toda ideia tem teatralidade. E eu tinha um baú de ideias que o teatro não quis. Sempre que adentro uma linguagem, me pergunto qual é a especificidade dela. Assim as ideias vão procurando seu habitat.

Essa questão do Brasil contemporâneo está muito presente no livro. Como isso te preocupa?
O projeto da minha geração foi o projeto político encarnado mais ou menos por duas forças políticas: o PT e o PSDB. Entre um e outro, havia uma sensação de complementariedade. Entretanto, a partir da descoberta do mensalão, viemos numa sucessão ininterrupta de revelação da falsidade que havia nesses projetos políticos. Tanto o PT quanto o PSDB são hoje partidos muito distintos daqueles que prometeram ser. E que talvez tenham sido. Já não é possível saber. Na minha idade, 56 anos, assistir a esse ocaso repentino é muito decepcionante. E isso não acabou ainda. Trinta anos de uma desonestidade dentro de um projeto político têm consequências trágicas das quais a mais evidente é o governo Temer. Não temos uma política honesta. Temos uma administração pública com níveis de corrupção imensos que inviabilizam a administração do dia a dia do povo. Enquanto alguns políticos se organizam para ver como escapam das operações policiais e dos processos iniciados e outros tentam ver como continuam roubando, as pessoas estão passando por grande privação. 

Você diz que o Brasil está num ponto revolucionário. Por que acredita nisso? 
Porque uma revolução é uma quebra do paradigma jurídico de uma nação, é uma mudança de estrutura jurídica do quadro social e o quadro social brasileiro, como todos, parte do princípio de que uma maioria honesta te defenderá de uma minoria desonesta através das suas leis. Entretanto, quanto você tem uma maioria desonesta operando o estado, o sistema jurídico começa a falhar. É ao que a gente está assistindo. Quando o presidente da República recebe, nos porões de um edifício público, um criminoso confesso e os deputados impedem que a gente processe esse presidente é porque há uma maioria de desonestos operando a máquina inteira do Estado. E aí o sistema jurídico fracassa. Diante de um Estado com  uma maioria desonesta, a população fica na iminência de um desejo revolucionário e passa a querer quebrar um paradigma e instalar um outro. Eu, particularmente, acho que não vamos sair desta sem uma Constituinte. Algumas coisas têm que mudar radicalmente na própria delegação que o povo faz ao poder público. O povo já não pode mais delegar tanto. E todas essas ideias estão no meu livro, em contradição. 
 
O livro dos títulos
De Pedro Cardoso. Record, 194 páginas. R$ 34,90
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