Jornal Correio Braziliense

Cegos e surdos da cidade querem mais espaço para a cinefilia

Implementar novos locais e rodas de discussão de acessibilidade são desejos de cegos e surdos

Rebeca Borges*

Biblioteca Braille Dorina Nowill oferece sessões especiais de cinema - Foto: Divulgação 

 

Ir ao cinema pode parecer uma atividade impraticável para quem é cego ou surdo. Entretanto, existem ferramentas que dão a essas pessoas a experiência de sentar em frente às telonas e consumir produções audiovisuais. Recursos como audiodescrição, Libras e legendagem são utilizados para que a exibição de filmes aos portadores de necessidades especiais seja possível. Apesar disso, os cinemas comerciais ainda não oferecem os mecanismos de acessibilidade necessários.

A Agência Nacional do Cinema (Ancine) determinou na Instrução Normativa 128/2016 que, até novembro deste ano, metade das salas comerciais de cada grupo exibidor deveria oferecer recursos de acessibilidade. Porém, a medida não foi colocada em prática, e ganhou, em 17 de novembro, um novo prazo para ser cumprida: novembro de 2018.

Luis Mauch, diretor da empresa Ktalise — que atua ao lado da Ancine no diálogo sobre conteúdo acessível entre exibidores e distribuidores —, explica o motivo do adiamento. “As dificuldades giram em torno da definição de um padrão técnico de distribuição dos conteúdos acessíveis.”

Luis conta que, após diversas reuniões e diálogos sobre o tema, a Ancine decidiu que os conteúdos audiovisuais sejam entregues de acordo com o chamado Digital Cinema Protocol (DCP) — padrão internacional de distribuição dos conteúdos audiovisuais. O diretor explica que as propostas para a inserção de recursos acessíveis nos filmes não atendiam aos padrões internacionais. Enquanto novas regras são debatidas, a Ancine prolongou os prazos de adaptação para as salas comerciais de cinema.

Mauch conta que, apesar da demora para a adaptação das salas, o Brasil é um dos pioneiros em propor soluções acessíveis para deficientes visuais e auditivos nos cinemas. Ele explica que, mesmo com o adiamento da data proposta, “caberá ao exibidor se adequar ou não, antes do prazo, para oferecer os filmes com acessibilidade a seus clientes”.

“Em qualquer cinema, só consigo assistir ao filme se eu levar alguma pessoa para fazer a descrição para mim — geralmente quem faz isso são amigos. Se não tiver ninguém, é complicado”, conta Noemi Rocha, deficiente visual. A professora de 57 anos perdeu a visão em 1999, e conta que o acesso à cultura para os portadores de necessidades especiais ainda é muito restrito.

Por isso, Noemi explica que costuma recorrer a atividades alternativas, que costumam ser direcionadas somente ao público cego. “Você vai ao cinema e o filme é exibido para todo mundo, mas eles não pensam na gente. A gente gosta de participar das atividades com pessoas que enxergam, mas, quando a programação é direcionada só aos cegos, nos sentimos mais à vontade.”

Noemi é uma das fundadoras da Biblioteca Braille Dorina Nowill, em Taguatinga. O estabelecimento oferece cerca de 3 mil livros em braile, além de oficinas e cursos para deficientes visuais. Ela trabalha no local há 22 anos, e atua como mobilizadora cultural da biblioteca, promovendo eventos para os frequentadores do espaço.

Uma das atividades promovidas no local foi uma sessão de cinema para cegos, que ocorreu em 24 de novembro. Sob o comando de Andrey do Amaral, voluntário da biblioteca, o evento exibiu o longa Transversalidades, com audiodescrição, de Andrey e da professora Dinora Couto. Andrey é formado em acessibilidade cultural pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e explica que há uma grande queixa dos portadores de necessidades especiais ao acesso à cultura. “Às vezes o cego, o surdo, o cadeirante ou o muletante deixam de ir a um evento cultural justamente por causa das barreiras que eles encontram.”

Enquanto espera que as salas de cinema comerciais ofereçam recursos acessíveis, Noemi continua se empenhando na produção de eventos direcionados ao público portador de necessidades especiais na biblioteca Dorina Nowill. Entretanto, a professora confessa: “A gente gostaria de ter esse meio inclusivo. Se a cultura é para todos, temos que ver as condições dos cegos, dos deficientes auditivos, dos cadeirantes…”

*Estagiária sob supervisão  de Igor Silveira