Em entrevista ao Correio, diretor Taron Lexton fala do cinema de Fellini

Em busca de Fellini, obra do sul-africano Taron Lexton, é uma das oito estreias nos cinemas no DF

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postado em 07/12/2017 07:48

Cineart Filmes / Divulgação

 

Há um momento do longa Em busca de Fellini em que a protagonista, a jovem e ingênua americana Lucy (Ksenia Solo), em meio a férias forçadas pela Europa, marca itens de uma pequena lista: já comeu, já bebeu e, sim, deverá se apaixonar. A carga idealizada e romântica do filme assinado pelo estreante sul-africano Taron Lexton pode bem destoar dos moldes do diretor italiano Federico Fellini, autor de pérolas como A estrada da vida, 8 1/2 e Julieta dos espíritos — mas, por citações cinematográficas objetivas, Lexton deixa clara a intenção de celebrar o mestre, morto em 1993.

“Eu me apaixonei pela Itália. Tenho uma vida de paixão por aquele país. É um dos meus lugares favoritos no mundo. Mal posso esperar pelo regresso”, observa Taron Lexton, aos 33 anos, dono de um passaporte carimbado pelo mundo afora, desde quando tinha 10 anos. Baseado em uma história “quase” verdadeira, o roteiro de Em busca de Fellini tem origem curiosa: partiu da atriz e produtora Nancy Cartwright, a mulher que, há quase 20 anos, dá voz ao personagem animado Barth Simpson.
 
 

“Eles — Nancy e Barth — não poderiam ser mais diferentes entre si”, comenta o cineasta que, com o olhar de diretor de fotografia, caprichou nas imagens de Ohio, Veneza e Roma; tudo acompanhado de enxuta equipe. Em entrevista ao Correio, o cineasta detalha os bastidores da jornada da moça que tem como ponto de virada a participação num festival de homenagem a Fellini — o Tutto Fellini.

 
Arquivo pessoal/ Divulgação
 
 
Como é comandar um filme tão globalizado, misturando americanos, russos, italianos e um sul-africano (como você)?
Com este filme comprovamos o quanto o mundo encolheu. Com a estatura deste longa, dotado de locações em Ohio e na Itália, acredito que ele não teria sido feito, na década passada. Digo, por achar que um estúdio não teria coragem suficiente na aposta. Pela união de talentos de todo o mundo, há real indicativo de que o cinema é das artes de maior alcance.

Como imprimiu esta visão de mundo? Tem a ver com sua formação?
Fui realmente o mais jovem estudante da Los Angeles Film School, formado aos 18 anos. Me deu o senso de direção, de fato. Sempre estive na condução, num destino repleto de viagens. Nascido na África do Sul, tive oportunidades dadas pela minha mãe para conhecer tanto a Europa quanto os Estados Unidos. Aos 10 anos, já conhecia a China e a América do Sul. É trágico que não tenha estado no Brasil ainda, contudo (risos). Conheci a Venezuela e parte da América Latina. Para mim, o mundo é uma só entidade.

Há universalidade de códigos em Fellini, não?
Acho que, no planeta, existe apenas uma raça. Na minha visão, em termos de cinema, temos uma só linguagem — ela é capaz de expressar a universalidade. Acho fundamental que sejamos capazes de se comunicar, via cinematografias territoriais. Adoro filmes legendados, e acredito que meu filme quebre parte do hiato construído entre os Estados Unidos e a Europa. É também sobre a jornada de Lucy.

Americanos não gostam de filmes legendados, mesmo?
Fellini foi dos pioneiros no desbravamento do gosto norte-americano. Celebrado na França e nos Estados Unidos, A doce vida (1960), o filme dele, foi rejeitado inicialmente pelos conterrâneos italianos. O legado dele estreita a cooperação cinematográfica entre os países. Não poderia ser mais desafiado ao lidar com tantos talentos diferenciados, em termos de origem, quanto com este filme.

Além de Fellini, você curte o cinema de que outros europeus?
Jean-Pierre Jeunet (de O fabuloso destino de Amélie Poulain, Ladrão de sonhos e Delicatessen). Tive múltiplas influências, mas é claro que para o filme, Fellini foi a inspiração mais forte. Antes de filmar um único frame, recorri a toda a filmografia de Fellini, desdobrada em 24 fitas. Fiz uma real imersão, a fim de captar o sotaque dele, o esforço que fez. Em filmar, Fellini buscava a si próprio. A chave para o cinema dele casa com a diversidade. Foi importante, porém, recorrer às minhas inclinações. É uma ruptura deliciosa, na minha opinião. Não queria meramente tentar repetir o que ele poderia fazer com o nosso filme.

O que achou do musical Nine, que tentou homenagear Fellini?
Acho que Nine foi uma bela tentativa. Lá se teve o exemplo de fantásticos realizadores tentando, obstinadamente, realizar um filme à la Fellini. Nós tínhamos, com Em busca de Fellini, claramente a visão de que não conseguiríamos fazer um filme de Fellini. Nossa celebração alude à filmografia dele. Imiscuímos situações e ideias que perpassam fitas dele, como Noites de Cabíria; sempre na linha por mantermos nosso projeto em curso.

Como conseguiram isolar tantas cenas do casal, em termos de produção? Por vezes, lembra até o terror Inverno de sangue em Veneza (1973), com Donald Sutherland (risos)?
Sim (risos), e, além de tudo, Sutherland estrelou o filme Casanova (1976), justamente, para Fellini. Buscamos, com o filme, acatar a jornada interna da personagem Lucy. Quando se sente sociável e extrovertida, ela está cercada por gente; quando ela pressente perdas, ela sente a real solidão. Para reforçar isso, buscamos esvaziar, em cena, lugares monumentais do porte do Coliseu, normalmente, apinhado de gente. Nos valemos, portanto, dos momentos de nascer do sol. Privilegiamos as filmagens aos domingos. Na Praça de São Marcos, em Veneza, em muitos lugares, seguíamos o mesmo esquema.

A roteirista é mesmo Nancy Cartwright — que, quase inacreditavelmente — dubla Os Simpsons? Eles são parecidos; digo ela e Barth (que ela dubla)?

Ela não é perniciosa como ele (risos). Aliás, ela não poderia ser mais diferente do que o Barth. Ela contagia, com sua luminosidade de diretora de filmes. Ela está no centro de todo o filme: se trata da vida dela. Cartwright viveu esta história, projetada num roteiro que ela fez questão de desenvolver. Além de produtora, ela frequentou as filmagens. Muito do que é visto compõe o real espírito da roteirista. Há uma explosão de criatividade que está integrada ao real crescimento de Nancy.

 

 

Outras fitas em cartaz 

 

 

Extraordinário
Uma história tocante, criada a partir do bestseller de R.J. Palacio, é estrelada por Julia Roberts. Em cena está a problemática de bullying, um verdadeiro fantasma que cerca o cotidiano do garoto Auggie Pullman (Jacob Tremblay, visto em O quarto de Jack).
 


Altas expectativas
No filme, a brasiliense Camila Márdila interpreta Lena, alvo certeiro do amor do anão Décio (Gigante Léo), um cara muito bem-humorado.

Verão 1993
Frida (Laia Artigas) estrela este drama espanhol no qual uma pequena garota sofre com a perda dos pais. Integrada à rotina dos tios, a menina parece destoar: e começam as sistemáticas agressões à prima.

Corpo delito
O documentário dirigido por Pedro Rocha acompanha a rotina de Ivan. O homem acaba de sair da cadeia em regime semiaberto e, por isso, está acoplado a uma tornozeleira eletrônica. A partir das dificuldades que Ivan tem de se adaptar à realidade nova e ao aparato, o filme discute o sistema prisional brasileiro.

Lucky
No filme testamento de Harry Dean Stanton (do clássico Paris, Texas), assinado por John Carroll Lynch, e encenado ainda pelo diretor David Lynch, um idoso se entrega à fase final da vida, na condição de ateu e fumante inveterado.

A bela da tarde

Os 50 anos do clássico de Luis Buñuel reascendem a polêmica no retrato de Séverine, magistralmente encarnada por Catherine Deneuve. A dona de casa se entrega ao dia a dia de um bordel, a fim de alcançar a satisfação sexual. 

 

 

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