Macau, por meio de festival de cinema, busca impulsionar coproduções

De olho no mercado internacional, o festival chinês de Macau reafirma o compromisso de alargar o mercado consumidor de audiovisual

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Reprodução/ Internet
 
 
Macau (China) — Quando fala sobre Little dragon, a cinebiografia de Bruce Lee, o chinês que popularizou as artes marciais no cinema, as palavras do diretor indiano Shekhar Kapur adquirem um entusiasmo quase juvenil. “Descobri que havia um filósofo nele, o que só acrescenta mais mistério e fascínio ao ícone que ele foi e ainda é”, explica o cineasta, um dos curadores da seção paralela Crossfire,  atração da segunda edição do International Film & Awards Macao (Iffam), o Festival de Macau, que se encerra na noite de hoje.

Coprodução entre a China, Hong Kong e os Estados Unidos, ainda sem data do início das filmagens, Little dragon é uma dos desdobramentos dos investimentos massivos do governo chinês na expansão de seu parque cinematográfico.

Neste projeto, Macau tem funcionado como ponte entre produtores de cinema da Ásia e do Ocidente. “Por causa de seus cassinos, a cidade é considerada a capital do entretenimento na China. O festival tem potencial para se tornar um ponto de encontro para celebrar o cinema”, afirma o inglês Mike Goodridge, diretor artístico da mostra.

Além de uma competição de filmes, Macau também conta com um espaço para o mercado do setor, no qual cineastas apresentam seus projetos para potenciais produtores. Foi aqui que, ano passado, durante a edição inaugural, que o cineasta português Ivo Ferreira  lançou o projeto de Hotel Império, seu novo longa-metragem. Coprodução entre Portugal e a China e falado em português, mandarim e chinês, o filme foi rodado inteiramente em Macau, com apoio do governo local.

“O governo chinês tem feito grandes esforços no sentido de desenvolver sua indústria de cinema, mas lidar com diferentes departamentos para conseguir permissões para filmar ainda é um processo um tanto doloroso”, reconhece Ivo Ferreira, autor de Cartas da guerra, que disputou o Urso de Ouro do Festival de Berlim de 2016. “Uma das formas de tornar Macau uma locação atraente para produções locais e estrangeiras é continuar filmando e permitir que realizadores e técnicos da região ganhem mais experiência, avalia o português.

Hotel Império conta a batalha de uma mulher para manter o hotel-cassino flutuante que herdou da família, e cuja propriedade de repente é contestada por um homem misterioso. Assim como Ferreira, Shekhar Kapur não se sente intimidado pela ideia de trabalhar com outra cultura. “No início da minha carreira, tive dúvidas sobre esse negócio de diretores trabalharem com histórias e elementos muito específicos de culturas que não fossem a sua. Acho que foi Ang Lee que me fez rever esse conceito, quando lançou Razão e sensibilidade (1995)”, lembra o indiano.

“ Imagine, um chinês à frente de uma adaptação de um clássico da britânica Jane Austen. E é um filme impecável”, lembra Kapur, conhecido por sucessos como Elizabeth (1998), épico que reconstitui os primeiros anos da trajetória da indomável rainha britânica, no século 16. O filme acabou dando a primeira indicação ao Oscar de Cate Blanchett, intérprete do papel-título. “Ang Lee fez um drama de época tipicamente inglês, mas que falava para o mundo inteiro. Daí considero que Little dragon é um projeto importante, não só para a China, porque Bruce Lee foi um ídolo para o mundo inteiro”.

A abertura da China ao mercado do audiovisual mundial é um processo de mão dupla, que tem atraído investidores de diversas nacionalidades — inclusive americanos. Com mais de 1,3 bilhão de habitantes, o país é um imenso mercado a ser explorado. Hollywood se antecipou à iniciativa de abertura chinesa com acordos de produção e de cogestão, que já renderam produtos como Kung Fu Panda 3, do estúdio DreamWorks de Jeffrey Katzenberg, e A Grande Muralha, superprodução de US$ 150 milhões dirigida por Zhang Yimou, protagonizada por Matt Damon, com locações e elenco chineses.

“A China já dispõe de estúdios modernos e grandiosos, dá gosto de trabalhar com eles”, afirma o ator Udo Kier, que acabou de rodar Iron Sky: The ark, terceiro capítulo da franquia de ficção científica, na Wanda Studios, na província de Qingdao, em território chinês.

O ator alemão (radicado nos Estados Unidos) e o cubano Andy Garcia são os grandes nomes do cinema Ocidental a bordo de uma produção com elenco majoritariamente chinês. “O contato com os atores chineses foi maravilhoso. Percebi  que eles têm um método de trabalho e de interpretação completamente diferente dos atores ocidentais”, conta Kier, que está em Macau para receber um prêmio especial pelo conjunto da carreira, que abrande mais de 200 filmes.
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