Compositor Carlinhos Lyra se apresenta neste sábado em Brasília

Em entrevista, o artista falou sobre música e o momento atual do país. Sobre o Congresso Nacional disse: 'Só implodindo e começando de novo'

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postado em 16/12/2017 07:30

Daniela Dacorso/Divulgação
Um dos pilares da bossa nova, parceiro de Vinicius de Moraes, autor de trilhas para o teatro e o cinema, um dos fundadores do Centro Popular de Cultura da UNE, Carlos Eduardo Lyra Barbosa, o cantor, compositor e violonista carioca Carlinhos Lyra faz parte da galeria dos gigantes da música popular brasileira.

Aos 78 anos, mais de 60 de carreira, mantém-se em plena atividade. Além de fazer shows, continua a escrever canções e tem participado de outras atividades ligadas à música — expressão artística que tem contado com sua sensibilidade e sofisticação. Uma prova disso são clássicos criados por ele como Coisa mais linda, Minha namorada, Primavera e Se é tarde me perdoa.

Há dois anos, Carlinhos esteve em Brasília e participou de um espetáculo em tributo a Vinicius, no auditório master do Centro de Convenções Ulysse Guimarães. De volta à cidade, neste sábado (16/12), às 11h30, faz o show de encerramento da programação de 2017 do Clube da Bossa, no Teatro Sílvio Barbato do Sesc, no Setor Comercial Sul. Ele tem a companhia no palco do sobrinho, cantor e compositor Cláudio Lyra.
 
Carlinhos Lyra
Show do cantor, compositor e violonista carioca, com a participação do sobrinho Cláudio Lyra, sábado, às 11h30, no Clube da Bossa (Teatro Sílvio Barbato/Edifício Eurico Dutra/ Setor Comercial Sul). Entrada franca. Classificação indicativa livre.

Entrevista com Carlos Lyra


Bem jovem, você teve iniciação musical, participando da bossa nova. Sessenta anos depois, que importância atribui ao movimento que é tido como um divisor de águas na música popular brasileira?
Na verdade, minha carreira musical começou um pouco antes do batismo da bossa nova. Em 1956, Sylvinha Telles gravava minha música Menina em um compacto, que tinha no outro lado Foi a noite, do Tom Jobim. Ambos samba canção. A bossa nova, a meu ver, não foi um movimento, pois não tinha manifesto, organização, nem qualquer intento. Costumo dizer que foi um surto musical que floresceu no Rio de Janeiro e foi tomando forma até se concretizar, para o público, em 1958. A bossa nova trouxe uma identidade musical a uma classe media que não se identificava com a músicas popular da época e que sempre buscava referências nas músicas estrangeiras, como os clássicos impressionistas, o jazz e os standards americanos, o bolero mexicano e a música francesa, para citar alguns. O que os jovens compositores fizeram foi usar os elementos desses gêneros musicais, que tinham harmonias sofisticadas e melodias bem elaboradas e juntá-los a uma maneira coloquial e bem carioca e informal de falar da realidade daquela juventude que era a praia, o mar, o sol, o dia a dia da cidade. Acredito, então, que foi um divisor de águas, porque a partir da bossa nova a classe média passou a ter uma música própria, que acabou sendo exportada para o mundo, chamando a atenção e inspirando vários músicos e compositores estrangeiros.

À época, você propunha o retorno desse estilo musical às raízes do samba. Essa teria sido sua maior contribuição?
Não acho que tenha sido minha maior contribuição, pois o que me incomodava é que como os músicos estrangeiros começaram a tocar bossa nova com excesso de improvisos jazzísticos e os nossos músicos começaram a imitar essa maneira de tocar, ficou tudo muito deturpado. A bossa nova é um samba com temperos distintos. Por isso, quando escolho músicos para minha banda, faço questão que venham de uma escola do choro e do samba, pois assim consigo improvisos genuinamente brasileira. Mas acho que minha maior contribuição foi ao entrar pro Teatro de Arena e fundar o CPC ao me politizar, deixar de lado apenas o sol, a flor, o mar e contextualizar nossas letras falando da nossa realidade. Além disso, ao ter a sorte de conhecer Cartola, Zé Keti e Nelson Cavaquinho e me deslumbrar com as músicas que eles compunham. Pude por meio dos trabalhos do CPC, trazer essas músicas para a classe média tomar conhecimento e ter a ideia de escolher Nara Leão para gravar um LP com as músicas deles. E, ao mesmo tempo, mostrar a eles o que nós estávamos compondo. Foi um intercâmbio muito rico que engrandeceu a nossa música.

Daniela Dacorso/Divulgação


Como foi o encontro com Vinicius de Moraes, parceiro em várias das suas canções?
Eu sabia que Vinicius era o poeta favorito de meu pai e que ele havia composto Orfeu com Tom Jobim. Tinha visto a peça e sonhava em tê-lo como parceiro. Um dia me enchi de coragem liguei e me apresentei para ele, que já havia ouvido falar de mim. Vinicius então me convidou pra ir a sua casa e a partir dali começou uma parceria que posso afirmar que foi a mais rica de minha carreira. Ele transbordava em talento e musicalidade. Ficamos muito amigos e dizia que Vinicius era como um pai para mim. Mas ele me corrigia: irmão mais velho! Coisa mais linda, Primavera e Você e eu são canções da primeira leva da nossa parceria. Ele fez a letra ouvindo melodias que deixei em seu gravador. Minha namorada foi escrita ao mesmo tempo em que Garota de Ipanema. Eu e Tom morávamos na mesma rua e Vinicius vinha visitar um e depois o outro. Dessa vez, ele passou na minha casa antes, tirou um papel do bolso do paletó e me disse que era a letra que acabara de fazer para Minha namorada. Quando fui tocar, a melodia não casava com a letra. Soava muito estranho. Aí eu perguntei se era isso mesmo, ao que ele falou: ‘Não parceirinho. Essa letrinha é para uma música do Tom (Garota de Ipanema)’. Tirou outra do outro bolso do paletó e ali sim, estava a letra de Minha namorada.

A bossa nova, originária do Rio de Janeiro, não tem na cidade que foi cantada pelos participantes do movimento  um lugar onde possa ser ouvida. O que tem a dizer sobre isso?
Pois é. Se você vai aos Estados Unidos, acha vários clubes de jazz. Mas os turistas estrangeiros ou brasileiros chegam ao Rio e não encontram um local para ouvir bossa nova. Existem locais onde, se você der sorte, naquele determinado dia, terá alguém tocando bossa nova. Mas nenhum é 100% dedicado ao gênero. Acho que isso se deve à pouca visão das autoridades competentes que sempre visando votos e ganhos em prol de si mesmos, acabam sempre por investir no que for mais popular pois o ganho político é maior. O Rio de Janeiro tem uma grande vocação para o turismo mas pouco é feito para recebermos como deveríamos. A iniciativa privada esbarra em tantos impostos, lei de meia-entrada (que não é subsidiada) que faz com que os pequenos locais não sejam viáveis economicamente pois os ingressos teriam que ser caros. Teria que haver uma parceria público-privada visando colher os lucros do turismo, mas não a vejo. Na comemoração dos 60 anos da bossa nova, vamos inaugurar a Casa da Bossa, dentro da Sala Baden Powell, em Copacabana. É um projeto do Instituto João Donato que estamos apoiando e torcendo pra que gere frutos.

Aliás, há algum tempo, a bossa nova é mais popular no Japão e nos Estados Unidos do que no Brasil. A culpa é de quem?
A culpa é da nossa economia e da política com o ínfimo investimento em educação e cultura que fez com que nossa classe média ficasse achatada e com pouco poder de compra; e que as pessoas de menor poder aquisitivo não tivessen em acesso à educação de qualidade que antes era oferecida em ótimos escolas públicas. Você citou dois países com uma imensa classe média que investe em estudos para si e para seus filhos e que consome cultura (shows, cursos, cinema, música, teatro, balé) porque tem meios para isso. Sendo a bossa nova uma música que se comunica, mais facilmente, com a classe média, nada mais óbvio que ela tenha força nos países onde essa classe é mais forte.

Entre músicos da nova geração há quem esteja fazendo algo que remete à bossa?
Acho que, assim como a geração de Chico, Edu Lobo, Milton, Ivan Lins, Joyce, Caetano, Gil etc., que beberam na fonte da bossa nova e criaram uma nova concepção artística, essa juventude de agora também cria novos estilos, com influência da bossa nova, da MPB e de outros gêneros. É um novo sabor com alguns temperos sendo, um deles, a bossa.
 
O fato de alguns abnegados brasilienses terem criado o Clube da Bossa — que mantém uma programação regular — , é importante em que medida?
É muito importante porque é um reduto de resistência que permite ao povo, com entrada franca, ter acesso a uma música que poucos têm o privilégio de poder ouvir, já que quase não toca na rádio, ou na tevê. E para o artista é um prazer poder levar sua música aos que a admiram. É por isso que faço questão de prestigiar.

Além de shows, o que tem feito mais atualmente?
Estou preparando um CD de inéditas, tenho gravado muitos depoimentos para séries e documentários no Brasil e no exterior e buscado maneiras alternativas de colocar minha arte ao conhecimento do público já que sem patrocínio tudo é muito complicado. E patrocínios são direcionados, em sua maioria, pra quem está frequentemente na mídia e atraia um grande público. Como não tenho intenção de abrir mão de minha integridade musical para “vender” mais, fazendo uma música focada para o grande público, vou seguindo no que me dá prazer e torcendo pra que eu consiga colocar pra fora. Tenho muitas peças inéditas, muitas ideias e ainda muito gás pra fazer música para cinema, teatro etc. Isso me impulsiona e me dá energia.

Em seu retorno a Brasília, a chamada de “Capital do Poder”, qual é sua visão do Brasil de hoje?
Sinceramente, me sinto parado no meio de um túnel escuro sem saber pra onde ir. Não vejo luz em nenhum lado. Em 1964, fomos abatidos numa curva de subida. De lá para cá, tem sido uma queda livre. A criação de Brasília por Juscelino Kubitschek foi um sonho bonito. Mas, hoje, os políticos, sem interagir e sem o contato diário com o povo que representam, se acham onipotentes e metem os pés pelas mãos legislando em favor de si mesmos. Cheguei a ouvir um deputado dizer que eles não estão lá para fazer o que o povo quer, sendo eles representantes do povo. Não entendo mais nada. Só implodindo e começando de novo.
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