Arte drag: Ato de se transvestir de mulher ganha destaque no Brasil

Movimento artístico tem braços na música, na tevê e nos palcos

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postado em 17/12/2017 07:30

Canal E!/Divulgação

Dois mil e dezessete se tornou no ano em que mais se falou em drag queens no Brasil. Nomes como Pabllo Vittar, Gloria Groove, Lia Clark e Aretuza Lovi roubaram a cena na música. Na telinha, o destaque foi para artistas como o brasiliense Gabriel Sanches, que interpreta a drag Rúbia em Pega pega e também mantém nos palcos a personagem Sara e o trio de apresentadoras do reality show Drag me as a queen, Rita von Hunty, Penelopy Jean e Ikaro Kadoshi.

A notoriedade das drags na atualidade serviu para derrubar preconceitos e abrir espaço para esse tipo de arte. Sim, o movimento drag não é necessariamente uma questão de gênero, apesar de acabar perpassar pela temática. É se travestir de mulher com uma elaboração extravagante para uma performance. “As pessoas confundem muito com gênero. Mas ser drag é uma arte. Qualquer pessoa pode ser uma drag queen. A arte não pode ser limitada e nem explicada. Tem que ser sentida”, analisa Ikaro Kadoshi, que há 15 anos vive como drag queen.

Apesar de estar em destaque agora, drag queen é uma arte considerada milenar. Na Grécia antiga, nos anos de 500 A.C, o teatro tinha homens vestidos de forma feminina para representar papéis de mulheres nos palcos. Na época, as mulheres não podiam atuar. “O movimento drag sempre teve um caráter underground, mas sempre esteve em nossa cultura. Nos anos 1980, Rogéria fazia personagens em novelas da Globo. Em 1990, Silvio Santos trazia nos shows de talentos pelo menos uma vez por semana uma transformista. A Nany People tinha aparições no programa da Hebe Camargo... A arte drag sempre ocupou um espaço que filetava com o mainstream”, lembra Rita von Hunty.

A volta do movimento em destaque teve grande relação com o sucesso do reality show RuPaul’s drag race, lançado em 2009 como uma competição entre drags queen nos Estados Unidos e que, atualmente, possui nove temporadas e até uma negociação para ter uma versão no Brasil. Na tevê brasileira, as drags voltaram com tudo no ano passado com aparições em programas como Amor & sexo, com presença de Aretuza Lovi e Pabllo Vittar, na novela Pega pega e no reality show Drag me as a queen, que estreou em novembro deste ano no canal E.!

“Não se descobre drag, se torna. Toda e qualquer pessoa pode se tornar drag. O fato de três drags queen, pela primeira vez, terem voz em um programa de televisão já é história e também ajuda a humanizar a figura drag, mostrando que nós, artistas independentes, somos pessoas normais como qualquer um”, afirma Penelopy, que ficou conhecida como a cover oficial de Lady Gaga no Brasil.

Desafios da arte drag


O ato de ser drag queen passa por diversas áreas do meio artístico. Elas podem ser atrizes, apresentadoras, performers e cantoras e, apesar de existir uma cultura de que apenas homens podem ser drags, existem casos de mulheres que também se transvestem. Os exemplos mais famosos são Vlada Vitrova, Greta Dubois e Ginger Moon.

A transformação de mulheres em drags é a proposta do programa Drag me as a queen, que tem como objetivo, por meio da arte drag, colocar as participantes em um ato de autoaceitação e afirmação por meio de “terapia drag”. “É um reality que celebra e enaltece as mulheres. Neles, nós três servimos como coaching drags para 13 mulheres diferentes (uma por episódio) as ajudando a descobrirem suas divas interiores, que sim, existem”, explica Penelopy. Durante a atração, as mulheres ganham um nome artístico, dado pelas apresentadoras, e aprendem técnicas de interpretação e maquiagem. “Drag queen é uma arte performática que transita entre os gêneros e quebra os padrões impostos pela sociedade de uma maneira lúdica e diverta. E o fato de transformamos mulheres em drag ajuda ao telespectador entender que a arte não tem gênero ou sexualidade”, completa.



A drag Aretuza Lovi, que fez carreira em Brasília e recentemente assinou um contrato com uma gravadora para lançar o próximo disco, acredita que a atual ascensão drag tem o objetivo de evitar a banalização e sexualização da arte. “As pessoas pensam que drag é um homem vestido de mulher, e é. Mas tem um contexto de uma arte. Não é só colocar uma maquiagem, uma peruca. Você tem que entender aquilo como uma essência artística. Para ser uma drag precisa, primeiramente, gostar”, conta a artista.

Mesmo com o destaque drag no último ano, as artistas do movimento ainda percebem que existe um grande espaço a alcançar. “As coisas estão melhorando com essa visibilidade que temos tido e com as oportunidades. Mas ainda somos pouco valorizadas. Drag é uma arte que envolve muito investimento, tanto financeiro quanto em aprendizado e tempo. Como diria Gloria Groove: “consumação não paga peruca”. Precisamos de bons cachês para manter o glamour dessa arte vivo”, completa Penelopy.

Gabriel Sanches, que interpreta as drags Rúbia e Sara (essa no espetáculo Sara e Nina), concorda: “Faltam oportunidades. Não tem quem olhe dentro da instituição política para essa parcela da população, que é criminalizada e está fora do nicho do privilégio”.

Colaborou Gustavo Breder (estagiário sob a supervisão de Vinicius Nader)
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