4º Festival Internacional Cinema e Transcendência começa no CCBB

Programação inclui filmes, estímulo à interação entre pais e filhos e oficinas

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postado em 19/12/2017 06:30 / atualizado em 18/12/2017 19:56

Festival Cinema Transcendência/Divulgação

Foi pela música que houve uma ruptura de ótica acerca do mundo, pelo que percebe o cineasta e compositor André Luiz Oliveira. A reboque da libertação das amarras sociais conservadoras, o artista, que (ao lado da produtora Carina Bini) comanda a curadoria do 4º Festival Internacional Cinema e Transcendência, alargou os níveis de compreensão do mundo. “Observando o tema tão recôndito, posso dizer com toda certeza que minha visão de mundo mudou inteiramente quando, aos 13 anos, ouvi pela primeira vez João Gilberto cantando O samba da minha terra. O segundo momento de transformação transcendente de vida com a música foi quando ouvi Alegria, Alegria, de Caetano Veloso e o terceiro quando ouvi Like a Rolling Stones, de Bob Dylan. De lá para cá, nada me consola”, comenta André Luiz, também atento às mudanças que o contato com o cinema pode proporcionar.


“Cada filme selecionado para o festival tem algo a nos dizer, explicita ou implicitamente, sobre a angústia que estamos vivendo no momento atual do planeta e, especialmente, no Brasil. São filmes que de uma maneira ou de outra transcendem a polarização exacerbada em que estamos submetidos por força dos recentes retrocessos político e sociais. Filmes podem nos fornecer pistas sobre as quais nós, públicos passivos, podemos sentir e refletir sobre, buscando saídas criativas e efetivas”, avalia o curador, ao falar da mostra que será antecedida por show musical, e começa às 19h40 desta terça-feira (19/12), com a exibição do longa Sombras do paraíso.

De produção canadense, esse documentário de Sebastian Lange trata da Meditação Transcendental, a partir de experiência do cineasta e dos seguidores de princípios do guru indiano Maharishi Mahesh Yogi (morto em 2008) e ainda de personalidades como o escritor Robert Roth e o diretor de cinema David Lynch. Com a mostra, há possibilidade de conferir a recente ficção assinada por Leonor Caraballo e Matteo Norzi, Ícaros, uma visão. Grosso modo, o filme trata de aceitação e de limites. Na trama, uma americana, abalada por câncer, busca a porção peruana da Amazônia e trava contato com a ayahuasca (presente também em Planta madre, fita latina selecionada para o festival) e com um xamã indígena que sofre degeneração.

Com ingressos a R$ 10 e R$ 5 (meia), o festival também terá atividades gratuitas, com estímulo à interação entre pais e filhos. Nas atividades do Mundo Bambu (com funcionamento entre 10h e 20h), haverá espaço de acolhimento, com oficinas de origami, de tai chi chuan, criações com flauta de bambu e circuito em labirinto formado por painéis de bambu.

Duas perguntas / André Luiz Oliveira, cineasta, músico e curador

 

O que pode falar do Rogério Duarte representado no filme O tropikaoslista, que trata deste artista múltiplo que influenciou pessoas como Torquato Neto, Hélio Oiticica e Tom Zé?
Fui amigo de Rogério Duarte e mais que isso, fui um profundo admirador (quase discípulo) e testemunha da sua genial e desconcertante personalidade Na Bahia e no Rio de Janeiro na década de setenta atravessamos juntos um dos momentos mais difíceis da nossa juventude. O filme retrata aspectos da sua vida, ressalta a importância da sua obra e mostra influência que teve sobre a vanguarda cultural do país que deflagrou o movimento tropicalista. O que o aproxima da mostra é que além de ser um artista importante que deve ser conhecido e reconhecido pelo público, a sua vida é repleta daquilo que transcende tanto pelo inconformismo, como pela excelência da sua arte múltipla não tutelada nem facilmente qualificável, como mestre do designe, violonista clássico surpreendente e o tradutor do Bhagavah Gita (texto religioso hindu) para o português.


Questões de medicina alternativa, práticas com xamãs... Qual o seu senso de responsabilidade, ao encorajar, no festival, a exploração de práticas com saberes subjetivos?
A questão do que você chama de "... práticas com xamãs" e a minha responsabilidade sobre isso, posso dizer que é inteiramente consciente. Inconsciente eu estaria se promovesse uma mostra de filmes alinhadas ao "Fantástico Show da Vida" promovendo — para deleite da normalidade estupidificada pela mídia a serviço do dinheiro e da destruição do planeta — uma medicina amparada apenas na tecnologia, cruel, argentária, desumana. Não, não estimulamos nenhuma crença, mostramos culturas extremamente ricas (inclusive muitas delas com questões já respondidas relacionadas à espiritualidade e que nós civilizados estamos ainda começando a perguntar...) desprezadas pela chamada "civilização" moderna, tecnocrática, progressista classicista, cujo poder supremo é o dinheiro e a exploração do semelhante. Perceber isso e propiciar que pessoas percebam através do cinema é o objetivo do festival.

 
 
 
 

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