George Clooney explora tema racista, no violento e bizarro longa Suburbicon

O filme Suburbicon: Bem-vindos ao paraíso traz rotina repleta de ódio e intolerância em um bairro norte-americano dos anos 1950

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postado em 21/12/2017 07:44

Diamond Filmes/ Divulgação

 
Por cima do muro de uma casa em bairro idealizado norte-americano, aos moldes dos anos 1950, paira uma corrente de intolerância e ódio generalizados. Não demora para que isso fique claro, na trama do sexto filme dirigido por George Clooney, Suburbicon: Bem-vindos ao paraíso, a principal estreia do circuito de cinema, na semana. O astro e diretor, aos 56 anos, dá continuidade, com este longa-metragem, a um tipo de filme que mescla acidez, aguçado senso crítico e humor — tudo na linha da filmografia dos irmãos Joel e Ethan Coen, autores do roteiro de Suburbicon, e com quem Clooney trabalhou em fitas como Ave, César! (2016), Queime depois de ler (2008), O amor custa caro (2003) e E aí, meu irmão, cadê você? (2000).

“Trato de personagens desafortunados que tomam decisões realmente ruins”, resumiu Clooney, à imprensa estrangeira, ao definir Suburbicon: Bem-vindos ao paraíso. Ainda que explicite muito do racismo operante nos anos de 1950, o roteiro (que tem como corroteiristas Clooney e Grant Heslov, do prestigiado Argo) centra fogo numa família, virtualmente, perfeita. Gardner Lodge (Matt Damon), um pai de família de carreira ascendente, terá a vida escarafunchada pelas lentes impiedosas do mesmo diretor de Confissões de uma mente perigosa (2002), Boa noite e boa sorte (2005) e Tudo pelo poder (2011).

Enfatizando o prazer de Matt Damon atuar como verdadeiro bufão em cenas de Suburbicon, Clooney é só elogios para o colega que, na divulgação do filme, ressaltou a importância de as pessoas tirarem os óculos cor-de-rosa que camuflam realidades atrozes e que deterioram a sociedade. “Matt é um profissional estabelecido, e que age com real autonomia”, observa Clooney. Suburbicon, que competiu ao Leão de Ouro no último Festival de Veneza, fala de gente comum, de traições empilhadas e de dose cavalar de vingança.

Ilustrando, com propriedade, os ditados de que “de perto, ninguém é normal” e “a grama do vizinho parece mais verde”, Clooney extraiu da história norte-americana o esqueleto tirado do armário e projetado em roteiro de cinema. Na divulgação do filme, ele explicou: “A lei G.I. Bill (faciltadora de créditos financeiros) ajudou quem voltava do front da Segunda Guerra na compra de uma casa bacana, com garagem e um belo jardim. Você teria um bom trabalho, cercado de boa vizinhança — contanto que fosse branco”.

Seguidor assumido de mestres como Steven Sodebergh (Contágio e Magic Mike) e Alexander Payne (Nebraska e Os descendentes), Clooney estudou parte do impacto da sociedade americana, em relação à Segunda Guerra, chegando a beber do documentário de 1957 chamado Crise em Levittown. Nele, William e Daisy Meyers são vistos, sob olhares nada amigáveis, como os primeiros negros a habitarem, nos anos de 1950, Levittown (ainda, recentemente, constituída por quase 94% de brancos).

No enredo que contempla racismo, cruzes queimadas e pretensa supremacia branca, há uso, em cena, das malfadadas bandeiras que, no passado (e na era Trump), representaram os Estados Confederados da América. Associadas à Ku Klux Klan e à Guerra de Secessão do século 19, em que estados escravagistas zelavam pelo apego por estruturas degradadas e exploração de trabalho de negros, as bandeiras tremulam em Suburbicon. Como um esdrúxulo alívio cômico, o espectador adentra os bastidores do seio familiar do patriarca Gardner Lodge.

Com a mulher Rose (Julianne Moore, em duplo papel de gêmeas), Gardner também vive sob o teto de Margaret (novamente, Moore) e o filho Nicky (o excelente Noah Jupe, coadjuvante em Extraordinário). Explicando o caráter de Margaret, a irmã da cadeirante Rose (na condição, indiretamente, causada pelo marido), a atriz Julianne Moore é direta: “Margaret nutre inveja secreta pela vida da irmã, fato que cria tensão e decreta escolhas duras a serem feitas”. Com direção de fotografia do mestre Robert Elswit (Sangue negro), o longa ainda conta com preciosa interpretação de Oscar Isaac (de Star wars: O despertar da força), astro, aliás, por empurrão dos irmãos Coen, para os quais estrelou Inside Llewyn Davis: Balada de um homem comum (2013).

6
longas-metragens foram dirigidos pelo cineasta e também ator George Clooney 


94% 
da população da pequena cidade de Levittown (Estados Unidos), que inspirou Suburbicon, é de brancos 


número de indicações ao Oscar do astro George Clooney 


82
produções levaram a assinatura do diretor de fotografia Robert Elswit 
 
 
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