Zélia Duncan e Jaques Morelembaum mergulham na obra de Milton Nascimento

O trabalho pode ser conferido no álbum Invento%2b

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postado em 27/12/2017 07:25

Leo Aversa/Divulgação

Vem de longe a paixão de Zélia Duncan pela música de Milton Nascimento. No primeiro show em que ela, ainda adolescente, fez na Sala Funarte (hoje Cássia Eller), aqui em Brasília, ela interpretou Fazenda, canção de Nelson Ângelo, gravada pelo pilar-mor do Clube da Esquina. Curiosamente, ao longo da carreira, a cantora ainda não havia gravado nada de Bituca — como o cantor e compositor é chamado pelos amigos.

Há dois anos, André Midani, um dos mais importantes executivos e produtores da indústria fonográfica no país, propôs à Zélia um mergulho no universo musical de Milton, para que extraísse de lá novas nuances da produção dele e dos seus parceiros. Ela seguiu à risca a sugestão ao apostar na experimentação. Nesse voo livre, cujo resultado foi o álbum Invento +, teve a companhia de Jaques Morelembaum, o consagrado violoncelista carioca, ex-integrante das bandas de Tom Jobim e Caetano Veloso.

“Primeiro, veio a vontade de ser algo inusitado, como previa o projeto sugerido por André Midani. Tive o privilégio de cantar na turnê do Prêmio da Música Brasileira, no ano que Tom Jobim foi homenageado e no qual o Jaques era o diretor musical. Estava recheada desse som, então me veio ideia de fazer um repertório afetivo para mim, sem harmonia, só com ele”, explica a cantora.

Sem se prender à cronologia, Invento, em 14 faixas, reúne composições de Milton, como Cais, Encontros e despedidas, O que será, Ponta de Areia, San Vicnte e Travessia, além de Volver a los 17, da chilena Violeta Parra, gravada por Milton, em duo com a argentina Mercedes Sosa. Invento ganhou edição numerada e limitada, contendo 14 gravuras de Nuno Cais, criadas para cada música, com direção de arte de Flávia Soares, que será comercializada exclusivamente pelo site da Biscoito Fino.

Entrevista// Zélia Duncan

A admiração pelo Clube da Esquina você já havia demonstrado no início da carreira, mais precisamente em seu primeiro show na Sala Funarte, aqui em Brasília, ao cantar Fazenda, de Nelson Ângelo, gravada por Milton Nascimento. O álbum Invento é, de alguma forma, resgate de algo guardado na memória afetiva?
Sim. Mas aconteceu por conta do projeto inusitado de André Midani. Não pensei que viria à tona essa paixão que sempre foi o Milton pra mim.

Quando e por que decidiu levar adiante esse projeto?
Simplesmente porque foi fluído, natural tanto pra mim quanto pro Jaques. Descobrimos essa influência enorme em comum e por conta dos shows, veio a vontade de deixar registrado em estúdio, da maneira que a obra merece.

A escolha de Jaques Morelembaum para participar da realização obedeceu a algum critério?
Apenas ao critério da surpresa, do incomum, como sugeria o projeto. E por ele ser um músico de rara excelência.

Já tinha havido um encontro artístico anterior entre vocês?
Na turnê do Prêmio da Música Brasileira, ano Tom Jobim, em que ele foi o diretor musical.

Houve dificuldade para a escolha do repertório diante de uma obra tão extensa e rica musicalmente?
Dói deixar umas coisas de fora, mas o que ficou é forte o suficiente pra nós.

Milton foi consultado sobre o que ia ser feito pelo duo?
Não. Ele apenas foi ao show e nos emocionou a todos.

Cantar as canções do Milton em tempos tão difíceis da vida brasileira, ajuda a trazer um pouco de leveza ao ambiente?
Não esperava que fossem fazer sentido tão literal de novo, muitas têm forte carga política. Que nos deem força e leveza de novo!

Há uma turnê do Invento em perspectiva?
É um projeto paralelo, faremos algumas coisas, mas com calma. Tanto eu quanto Jaques temos nossas carreiras, que demandam muito de nós.

Entrevista// Jaques Morelembaum

Gravar um disco a voz e cello deve ser visto como algo minimalista?
Por vários aspectos, a afirmação “menos é mais” se aplica em muitos momentos na música. Esta afirmação é corroborada por Jobim e por uma série de outros grandes mestres que souberam sintetizar a beleza com pouqúissimos elementos criando uma graça única. Acho que a fragilidade que pode se encontrar numa estrutura muito simples comove e toca as pessoas, de certas maneiras que muitas vezes as surpreendem com o potencial de satisfação estética que se pode encontrar aí, no nosso caso apenas nas duas linhas, a da voz e a do cello.

A ausência de outros instrumentos trouxe mais dificuldades para você e Zélia?
Não. Por um lado, o fato de usarmos dois instrumentos apenas, possibilita-nos seguirmos a sequência harmônica de cada canção sem perder o frescor do ato de percorrer estes caminhos conhecidos pelo lado interpretativo, e como na maioria dos casos o que tenho anotado são apenas a melodia da canção e seu caminho harmônico, posso toca-las mil vezes sem nunca repetir o mesmo traçado melódico do acompanhamento, ou contraponto.

De qualquer maneira, foi um desafio?
Não gosto de pensar nos obstáculos como dificuldades. Prefiro sim, referir-me ao desafio do que é inusitado, às charadas a decifrar. Como “banda”, posiciono-me de forma análoga à da Zélia, que está inteira para a música, a qual depende fundalmentalmente de sua concentração e entrega para existir em sua totalidade! Não tenho ninguém a me apoiar como acompanhador, e de minha concentração e entrega depende o bem-estar e o bem-sentir da cantora para que ela possa dar o melhor de si no momento da canção!

Anteriormente, qual era a sua relação com a obra de Milton Nascimento?
Minha relação com a obra de Milton Nascimento sempre foi de eterna reverência pela inauguração que promoveu em mim, inspirando-me a tender mais para o lado da canção chamada popular. Foi um dos meus maiores ídolos de minha infância e adolescência, por fazer-me apaixonado por suas canções e sua voz única! O universo dos arranjos e orquestrações de seu “Clube da Esquina” também me atraía por minha intensa identificação do meu mundinho particular com aquela linguagem

Como foi o processo de criação dos arranjos?
Fiz uma decupagem transcrevendo as canções a partir das nossas gravações favoritas pelo próprio Milton, em seguida decidimos as tonalidades mais adequadas para nossos instrumentos, a voz e o cello, e a partir daí foi soltar-nos dentro desses parâmetros, mantendo sempre a liberdade criativa e interpretativa. Não mudei uma harmonia, e penso o tempo todo na melodia original cantada por Milton quando a acompanho na voz de Zélia.

Esse é o seu primeiro trabalho com a Zélia?
Não. Ela me convidou, ainda no século passado, em 1998, para uma participação em seu disco Código de acesso, gravando na canção Quase sem querer. Já nesse século, a produzi numa canção, Muito Além do arco-iris, uma versão de Carlos Rennó para Over the rainbow, para uma coletânea de versões do Rennó com arranjos meus de canções de grandes compositores judeus norte-americanos, o álbum Nego, lançado pela Biscoito Fino. Depois fomos companheiros do 24º Prêmio da Música Brasileira, Ano Tom Jobim, quando excursionamos por algumas regiões do Brasil, tendo tocado, inclusive, em Brasília.

Invento 
CD de Zélia Duncan e Jaques Morelembaum com 14 faixas. Lançamento da Biscoito Fino. Preço sugerido: R$ 34,40 e R$ 120 versão com 14 gravuras de Nuno Cais.
Tags: disco música
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