Alcione é destaque da festa da virada na Esplanada dos Ministérios

A cantora, , que celebra 45 anos de carreira, é a atração principal de hoje no maior réveillon de Brasília

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postado em 31/12/2017 07:31

Eliseu Fiúza/Divulgação

 
Aos 70 anos, Alcione é uma das raras unanimidades no universo da música brasileira. Em 45 anos de uma sólida carreira, a cantora é elogiada pela crítica e aplaudida por plateias dos diferentes estratos sociais e faixas etárias. Com 42 álbuns e nove DVDs lançados e a marca de oito milhões de discos vendidos, ela emplacou incontáveis sucessos e arrebatou algo em torno de 350 prêmios — incluindo o Grammy Latino.

Embora tenha conquistado fama como sambista, é reverenciada como intérprete de canções desbragadamente românticas. Recentemente, lançou um CD de boleros e  participou do Rock in Rio. Chamou a atenção a releitura dela para Juízo final, clássico da obra de Nelson Cavaquinho, que se tornou tema de abertura da novela A regra do jogo.
 

Maranhense de São Luis, a Marrom — pseudônimo que ostenta há vários anos — foi estimulada pelo pai, João Carlos Dias Nazareth, então mestre da banda da Polícia Militar, a se tornar uma artista. Com ele, aprendeu a tocar trompete, mas o que queria mesmo era ser cantora. Sua estreia, ainda adolescente, foi no Grêmio Lítero Recreativo Português, como vocalista da Orquestra Jazz Guarani. 

Festas
Em seguida, chegou a se destacar se apresentando em festas e em programas de rádio e de tevê, na capital maranhense.

O sonho de Alcione, porém, era conquistar a fama e o sucesso no Rio de Janeiro. Ao chegar ali, em 1972, buscou seu espaço na noite carioca, mesmo tendo entre os concorrentes crooners de boates que futuramente se tornariam astros da MPB — entre eles nomes como Djavan e Emílio Santiago. Mas foi depois de ser contratada pela gravadora Philips (atual Universal Music) e de  lançar o LP A voz do samba,  que seu trabalho começou a ter o devido reconhecimento.

Desde o começo da carreira, a cantora — dona de um vozeirão e muito suingue — vem a Brasília para fazer shows. Hoje, ela é a principal atração artística da programação do réveillon na Esplanada dos Ministérios. Acompanhada pela Banda do Sol, ela sobe ao palco por volta das 21h, para interpretar consagradas canções do seu repertório, entre as quais Não deixe o samba morrer, Nem morta, Gostoso Veneno, Garoto Maroto, Meu Ébano, Estranha Loucura...


Entrevista Alcione
 
Eliseu Fiúza/Divulgacao
 

Até que ponto seu pai, João Carlos Dias Nazareth, integrante da banda da Polícia Militar do Maranhão, a influenciou para seguir a carreira artística?
Ele era o maestro da banda e nos ensinou a tocar instrumentos. Toda a nossa família é muito musical, minhas irmãs cantam muito bem. Tanto é que a Maria Helena, uma delas, faz parte da Banda do Sol, que me acompanha. É uma excelente cantora, não tem partidarismo não, é uma profissional competente e por isso está, como backing, em minha banda. Tanto é que faz trabalhos para outros projetos.

Com que idade você decidiu exercer o ofício de cantora?
Sempre gostei de cantar, quando surgiu a oportunidade de substituir um cantor durante uma apresentação da banda em que meu pai era o regente, resolvi encarar a chance. Um dos meus irmãos disse “Alcione sabe tal música, e pode cantar”. Enfim, a oportunidade surgiu de forma inusitada, na adolescência.

Logo se tornou conhecida em São Luis?
Meu pai não queria que me tornasse profissional e exigiu que eu estudasse, que me formasse antes de me decidir pela carreira artística. Fiz a vontade dele e ainda dei aulas em São Luis por um tempo. Mas sabia da minha vocação e o que queria fazer na vida. Ele, então, respeitou a minha vontade mesmo não gostando muito da opção. Mas eu já estava me tornando conhecida, no Maranhão, porque cantava em festas, eventos, e nas rádios e tevês de São Luis.

Quando e por que decidiu buscar maiores oportunidades no Rio de Janeiro?
Porque era no Rio e em São Paulo que estavam as gravadoras.Os artistas tinham que vir para o Sul/Sudeste. Dificilmente, alguém conseguiria concretizar uma carreira se não saísse de sua terra, naquela época. Hoje, temos internet, tecnologia, mas naqueles tempos tudo era muito diferente. As próprias notícias demoravam a chegar nas outras regiões mais afastadas dos grandes centros. Cheguei por essas bandas em 1967, e o Rio é a minha segunda casa. Primeiro é o Maranhão, claro!

Ao chegar ao Rio, teve boa acolhida?
Fui à luta! Trabalhei em lojas, vendendo discos, tudo para ficar mais perto do meu alvo, que era tornar-me uma cantora popular. Gastei muito sapato trabalhando na noite, e foi ela a minha grande escola. Aliás, as noites carioca e a paulista formaram muita gente boa que está aí até hoje. Mas foi também um período difícil, a competição era grande, mas, felizmente, fiz muitos amigos durante aquela época. Amigos que me são caros até hoje!

Quem, inicialmente, abriu espaço para a cantora que também tocava trompete?
Trabalhei em várias casas, no Rio e em São Paulo. Todas excelentes, prestigiadas pelo público. Mas o trompete é que era o meu diferencial. Ninguém nunca vira uma mulher tocando tal instrumento. Ele foi uma faca de dois gumes no início de carreira. Muitos só queriam me contratar se fosse para tocar, afinal isso era uma atração à parte. Às vezes, até esqueciam que eu era uma cantora. Tocar trompete ajudou a abrir as portas, mas despertou desconfiança.

Havia competição entre os crooners das casas noturnas cariocas?
Onde não existe? Claro que sim, mas, graças a Deus, fiz muitos amigos durante aquele período. Grandes amigos que cresceram comigo e se tornaram ícones da música brasileira, como Emílio Santiago.

Além de Emílio, quem foram os outros contemporâneos seus que vieram a ter carreira de sucesso na MPB?
Muitos. Cito, por exemplo, Djavan, Carlos Dafé e Áurea Martins. Tinha muita gente boa trabalhando na noite naqueles tempos. Era um timaço de cantores e intérpretes maravilhosos disputando, cada um com sua personalidade e timbres incríveis, um lugar ao sol.

Quando gravou a primeiro disco e qual foi o seu primeiro grande sucesso?
Minha primeira gravação foi a de Figa de Guiné, num compacto simples (que hoje ninguém mais sabe o que é), em 1972. A música era uma composição de Reginaldo Bessa e Nei Lopes. Em 1975, no LP A voz do samba, vieram dois dos meus maiores hits até hoje: Não deixe o samba morrer e O surdo.

Quantos títulos contabiliza em sua discografia?
Até agora são 42 álbuns, entre LPs e CDs, 9 DVDs e três compactos. Vou gravar o próximo no Estádio Nilton Santos, dia 12 de maio, em comemoração dos meus 45 anos de carreira.

Na sua avaliação quais são as músicas mais marcantes da sua obra?
Não deixe o samba morrer e O Surdo foram as primeiras, mas tem muitas outras, graças a Deus! Nem morta, Gostoso Veneno, Garoto Maroto, Meu Ébano, Estranha Loucura, A Loba, Você me vira a cabeça, etc...

O apelido de Marrom lhe foi dado por quem?
Viajava sempre com um grupo de artistas para turnês. Um desses meus amigos, que namorava uma outra cantora, em quem tinha posto o apelido de Marronzinha. Com saudades dela, sempre me pedia para cantar músicas em homenagem à Marrom dele. O codinome acabou passando pra mim de tanto atender aos pedidos dele.

Conhecida e aplaudida como intérprete de samba, o que a levou gravar um álbum de boleros?
Sempre adorei música romântica e boleros. Alguns dos meus grandes ídolos, que me inspiraram, fizeram sucesso cantando esse estilo. Ícones nacionais e internacionais que ouvia, durante a adolescência, em São Luís. E, para a minha alegria ser completa, os fãs gostam de me ver cantando música romântica também.

Na nova geração da música popular brasileira, há alguma cantora que vê como uma grande intérprete?
Claro! Mas não vou citar nenhuma porque posso esquecer alguém. Seria indelicado. Nossos artistas são muito talentosos.

O show que fará no réveillon em Brasília será na Esplanada dos Ministérios, vizinha da Praça dos Três Poderes. Como artista e cidadã, qual é a sua visão do Brasil, nos dias de hoje?
Minha visão é, infelizmente, a de todo o povo brasileiro. Estamos todos perplexos com tanta corrupção, tantos desvios de dinheiro, quando falta o básico para a educação e saúde. O lado positivo é saber que, pelo menos, agora estamos tomando conhecimento dessas falcatruas. Antes, tudo era varrido pra debaixo dos panos. Agora, tomamos ciência. Mas vai passar. Deus, lá no céu, há de olhar por nós.


Alcione
Show da cantora, acompanhada pela Banda do Sol, hoje, às 21h, na Esplanada dos Ministérios, como parte da programação musical do réveillon. Entrada franca. Classificação indicativa livre.





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