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Estado de Minas

Jô Soares lança O livro de Jô - Uma autobiografia desautorizada

Na obra, ele conta casos intercalados com a própria vida: parte da história do teatro e da tevê brasileira estão nas páginas


postado em 07/01/2018 07:32 / atualizado em 05/01/2018 17:39

O livro de Jô é apenas o primeiro volume: há um segundo planejado para este ano. (foto: Marcio Scavone/Divulgação)
O livro de Jô é apenas o primeiro volume: há um segundo planejado para este ano. (foto: Marcio Scavone/Divulgação)

 
Foi por insistência de amigos, especialmente de Luiz Schwarcz e Matinas Suzuki Jr., ambos editores da Companhia das Letras, que Jô Soares topou mergulhar em sua autobiografia. Para isso, impôs uma condição: queria Suzuki no projeto, não apenas para editar o texto, mas para ajudar na organização das memórias e na escrita. Depois de quatro horas de entrevistas diárias durante sete meses, nasceu O livro de Jô – Uma autobiografia desautorizada.

As 478 páginas foram escritas em parceria: Matinas provocava Jô, o humorista contava as histórias e o jornalista passava tudo para o papel antes de o biografado meter a caneta para as inevitáveis adaptações. Jô não queria que fosse uma autobiografia escrita por um ghostwriter e zelou para que o texto tivesse a sua cara. E tem.

O tijolão não tem nada de linear. Ao contrário, é um vaivém sem fim. Não combinava com Jô fazer algo tradicional, contar fato após fato, com precisão de datas e locais. O livro mais parece um programa de entrevistas do comediante com ele mesmo. Ele pode interromper, sem cerimônia, uma narrativa no passado na qual conta quando e como nasceu para narrar a história de Pedro da Costa Rego, por acaso seu padrinho, mas mais que isso, personagem importante da política alagoana, jornalista combatente de Getúlio Vargas. Volta e meia a narrativa salta dos tempos verbais no passado para o presente para descrever uma cena ou uma ação.
 

O livro de Jô é apenas o primeiro volume: há um segundo planejado para este ano. Começa com o nascimento do humorista, em 1938, e termina em 1969, com a ditadura militar instalada. Nesse entretempo, compila casos que encerram praticamente toda a história da televisão e do teatro no Brasil durante o período. E há uma centena de episódios hilariantes e curiosos.

Durante um tempo, quando  menino, o humorista morou em anexo do hotel Copacabana Palace. Ali, conheceu Errol Flynn, um antipático que entrou no apartamento da família para usar uma balança e saiu sem dizer obrigada. Na cozinha, cruzou com Edith Piaf, já debilitada e amparada por um amigo depois de um show. E no elevador, descobriu-se fascinado por Anita Ekberg, que perguntou se o menino gostava dela.

O colégio interno na Suíça, a falência do pai, o Garoupa, um corretor da bolsa que perdeu tudo e tinha como lema ganhar o dinheiro de hoje, porque amanhã era outro dia, a mãe, de quem Jô herdou boa parte do humor que o catapultou para a televisão, a desistência da carreira de diplomata e a adesão à de comediante, tudo está contato em estilo que faz a leitura ser fácil e rápida.
 

A estreia séria, com Família trapo (1967) — embora produzir o programa, que ia ao ar ao vivo e era cheio de improvisos fosse uma diversão nem tão séria assim —, veio depois de Jô fazer muito bico, esquetes e até apresentações em estacionamentos de supermercados. As histórias de Viva o Gordo, Veja o Gordo e Jô onze e meia, que o transformaram no entrevistador mais longevo da tevê brasileira, ficam para os próximos volumes.

Prestes a completar 80 anos, Jô não se sente com a idade que tem. “É uma coisa louca. Estou louco pra fazer 80 porque 79 não é um número redondo. Não consigo ter uma idade cronológica. Eu tenho que estar bem de saúde, de cabeça e de físico”, diz o apresentador, que conversou com o Correio por telefone.

Por que escrever o livro com Suzuki? Afinal, você é autor de quatro romances. 
O Matinas sempre vinha conversar comigo, insistindo para eu fazer minha biografia e eu, fugindo. Cheguei a abrir uma pasta no meu computador. Do jeito que abri ela continuou. Não dá, sou um contador de histórias. Por isso eu contava alguma coisa e todo mundo dizia “você tem que escrever uma biografia. Tem que contar isso”. Eu dizia: “Não, não vejo como”. Um dia falei para o Luiz Schwarcz: “Só faço se o Matinas fizer comigo pra gente conversar, gravar e fazer”. E o Luiz abriu mão, generosamente, do Matinas (que é editor da Companhia das Letras) durante o período. Aí não deu para escapar mais. 

A narrativa não tem uma linearidade, você vai e volta. Por que essa opção?
Foi o que o americano chama de same of consciounsness: à medida que vai pintando, vai falando. É uma corrente inconsciente do pensamento. Sem querer, mal, mas muito mal comparando, em termos de método, é o que Jack Kerouac fez quando escreveu Na estrada. Vai escrevendo e depois o editor que se vire, no caso aqui, o Matinas.

Como lembra de tanta história e detalhes? Em alguns momentos, sua biografia parece também ser a de várias outras pessoas.
No início, o título era Minha biografia e a dos outros ou Minha memória e a dos outros. Mas já tem um livro com esse título, dos anos 1920, e o Zuenir (Ventura) também aproveitou esse título em um livro. Foi esse canalha do Matinas que teve a ideia. Escovando os dentes com uma pasta milagrosa, me saiu com isto: O Livro de Jô. 
Ficou, inclusive, bíblico. Não foi uma decisão consciente, foi uma coisa do papo, da conversa, de ir falando, falando, falando. Muita coisa ainda ficou de fora e vai para o segundo volume. Tinha coisa que não me lembrava mais. Aí eu falava para o Matinas: “Isso tá agora?”. Ele falava não, tá no segundo volume. E eu pensei: “Então esse primeiro vai ser muito curto”. E eu queria que fosse um livro meu, senão virava uma biografia de ghostwriter, que não é o caso. Ao contrário, é uma coisa muito entrosada.

Você ficou nostálgico enquanto escrevia?
Não, não. Não sou eu isso. Essa pessoa aí, nostálgica, não sou eu. Inclusive, nunca tive aquele negócio “bons tempos”. Os bons tempos ainda estão por vir. Não tem isso. Esse negócio de nostalgia é tão deprimente. Não sou eu.

Qual o lugar do humor num país como o Brasil?
Não só no Brasil, mas no mundo inteiro, o humor é a primeira página da história de cada país, aquela coisa de “o rei está nu, olha que merda que fizemos”. E nós todos somos participantes dessa história, não tem como fugir disso. Eu vou fazendo à medida que tenho vontade e consigo fazer. Sou um abençoado nesse sentido. As coisas que resolvo fazer eu consigo. Nunca vou querer ser neurocirurgião, por exemplo.

E se fosse diplomata, como era seu plano no início, como acha que seria?
Acho que diplomacia é a única coisa que se encaixava no que eu achava que podia fazer. Só que minha visão de diplomacia era uma visão muito romântica. Quando você pensa em diplomacia, vê-se sempre como embaixador em Washington. Aí, de repente, te mandam como vice-cônsul no interior do Peru. É muito diferente a realidade da ficção. Eu conheci alguns diplomatas geniais e todos eles acabaram se afastando. O próprio Vinicius, poeta e diplomata.

Não é uma biografia com histórias reveladoras e acertos de contas, mas são histórias que a gente 
não conhece. 
Acho que sou eu.Eu não tenho ressentimento das pessoas e acho que isso transparece na biografia. Tem gente que escreve biografia pra fazer acerto de contas, não é meu caso. Meu caso foi um imenso bate-papo sobre coisas agradáveis e também sobre algumas coisas difíceis, como o meu filho e o sofrimento que passei (Rafael nasceu com uma doença congênita e era autista). Na época, algumas pessoas diziam que eu escondia o meu filho, que era uma barbaridade. Mentira. Primeiro, que é uma coisa impossível. Segundo, que é uma coisa totalmente desnatural, que não combina com uma atividade de humanista que lida com a vida, com o mundo.

Hoje, que você não faz mais programa de humor, quando olha para o Brasil, sente vontade de voltar a escrever humor?
Continuo sendo um grande observador do nosso país. Acho que, no sentido de comentário público, eu já fiz o que queria fazer. Hoje prefiro ficar assistindo. Se, em algum momento, eu achar que posso fazer uma diferença além da que eu, modestamente, já fiz, pode ser. Mas vou fazer oitentinha.

Você se reinventou um monte ao longo da carreira. Qual a importância disso?
O principal, quando é possível, é você só fazer aquilo que gosta. Isso, pra mim, é o segredo do bem-viver, porque você sair de casa para ir trabalhar em uma coisa que você não aguenta é um inferno. Nunca aconteceu comigo.

Tem uma passagem no livro em que você critica celebridades que esnobam o público. Como é lidar com isso de ser reconhecido e 
simpático o tempo inteiro? 
Eu acho maravilhoso. E sinto falta, quando viajo, de as pessoas não sorrirem para mim na rua. Eu digo: Meu Deus, o que eu fiz que eles estão zangados comigo? Não estou dizendo que quem fala que não gosta disso está mentindo, mas a pessoa que sobe num palco é um exibicionista, não tem como dizer que não. Senão, não vai se expor diante de uma plateia. Então eu adoro. E sou muito acarinhado pelo público, isso não há nada que pague.

(foto: Companhia das Letras/Divulgacao)
(foto: Companhia das Letras/Divulgacao)
O livro de Jô – Uma autobiografia desautorizada
De Jô Soares e Matinas Suzuki Jr. Companhia das Letras, 476 páginas. R$ 48,60
 
 

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