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Estado de Minas

Meimei Bastos lança livro de poemas em Samambaia

A autora se inspira no cotidiano vivido entre as ruas da cidade


postado em 10/01/2018 09:08

A poeta Meimei Bastos usa o cotidiano para escrever(foto: Arquivo Pessoal)
A poeta Meimei Bastos usa o cotidiano para escrever (foto: Arquivo Pessoal)
“O real me inspira, me emociona. Escrevo sobre o real, que é, para mim, levantar cedo, arrumar minha filha para o dia dela, pegar o ônibus já lotado, dar aula e à noite ir para a faculdade”. É assim, a partir do experimento poético que transita entre o cotidiano agitado dos centros urbanos, que Meimei Bastos encontra inspiração para os seus poemas. Os lugares em que transita, as pessoas com quem cruza e a vivência captada pelo próprio corpo se transformam em possibilidade criativa.

Entre as ruas de Samambaia surge então Um verso e mei, primeiro livro da poeta brasiliense, publicado pela editora Malê. Antes dele, a autora participou da antologia Mulher quebrada, que reúne escritos de diferentes mulheres das periferias do Distrito Federal e Entorno.

Criada entre as casas de uma das primeiras regiões administrativas com planejamento urbano do Distrito Federal, Meimei se lembra da infância rica em contação de histórias. O cuidado com as crianças da região se dividia entre mães, avós, tias e vizinhas. 

Os causos e histórias contados por tantas mulheres que transitavam ao seu redor serviram como primeira isca para desenvolver a paixão pela palavra. A escrita acompanhou o crescimento da poeta, que demorou a ter coragem de compartilhar a criação.

“A primeira vez foi em uma oficina de teatro. Usei um texto meu, o R.G, que escrevi em memória de Claudia da Silva Ferreira, mulher, negra, mãe, trabalhadora, moradora da favela e assassinada pela PM do Rio de Janeiro. Quando acabei minha performance poética, a plateia estava imóvel e muda. Nesse dia, eu vi o impacto da minha escrita”, conta a autora. 

Batalha

A partir desse dia, a participação em saraus nas periferias do DF tornou-se programação constante. Atualmente, Meimei é coordenadora do Slam Q’brada, uma batalha de poesia falada itinerante, que ocorre mensalmente em diferentes regiões administrativas do DF.

A publicação impressa veio após uma longa caminhada. Meimei se lembra das incertezas promovidas pela invisibilidade de autoras negras e de origem periférica. “Quase me convenceram de que não seria possível, para mim, publicar um livro. Felizmente, vencemos todos eles e aqui estamos, publicadas”. O livro ganhou vida pelas mãos do editor Vagner Amaro, com fotografias clicadas por Amanda Antunes e ilustrações de Hudson Dias. “É um livro de muitas mãos, mães e corações”.

A obra é considerada por Meimei uma reverência à quebrada e às pessoas que fazem e vivem nela. Uma narrativa poética escrita pelas mãos de alguém que veio dela e por quem morre de amores por ela. Publicar o livro traz em si a coragem de acreditar que ele pode criar outras perspectivas para e sobre a periferia.

“Quero quebrar com esse estigma marginal e criminoso que foi imposto a nós, de que aqui só se cria bandido. Essa é a maior mentira que nos contaram, nos fazem crer que não somos capazes”, destaca a poeta. Um verso e mei é um olhar para dentro, com carinho.

A formação acadêmica da poeta é em artes cênicas e o diálogo artístico com diferentes manifestações culturais faz parte de seu cotidiano criativo. Meimei lembra a força cultural de Samambaia, que se expande desde as quadrilhas juninas até os grupos de rap, teatro, mamulengo, bandas de rock, reggae e forró. 

As batalhas de rima constantes e a encenação da Paixão do Cristo Negro reúnem centenas de pessoas na cidade, que abriga ainda o Parque Três Meninas e o Sarau Complexo. “O nosso espaço poético é a rua”, lembra a escritora. Ela enfatiza que os poetas da Samambaia são muitos e destaca a produção de Luiz Vieira, Lucia Oliveira, Lili Andrade, Domício Chaves e Carol Araújo.

“Não é por conta da falta que a gente deixa de escrever, de criar, e fazer arte. A gente teima e resiste e isso só tem crescido”, destaca. Um verso e mei concretiza o percurso poético da autora que tem sede de expandir a criação das quebradas. Entre as páginas, a gratificação em acompanhar o processo de ascensão da periferia. A poesia, enquanto espaço criativo de reflexão, mostra que é possível ampliar a própria voz. 
 
Um verso e mei
Lançamento do livro, no Espaço Imaginário Cultural (QS 103, Cj. 05 Lt. 05, Samambaia Sul), dia 12/01 (sexta-feira) às 19h. 

Livro 
Um verso e mei
Meimei Bastos. Malê. 71 páginas. R$ 25.  

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