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Estado de Minas

Batalha contra a homofobia ganha as telas da cidade

Premiado no Festival de Cannes, o longa francês 120 batimentos por minuto mostra a luta de homossexuais contra o estigma e as generalizações que cercavam a Aids


postado em 11/01/2018 07:44 / atualizado em 10/01/2018 18:35

O longa francês 120 batimentos por minuto foi o vencedor do Grande Prêmio do júri, em Cannes (foto: Imovision / Divulgação)
O longa francês 120 batimentos por minuto foi o vencedor do Grande Prêmio do júri, em Cannes (foto: Imovision / Divulgação)

 
Quando o longa-metragem francês 120 batimentos por minuto conquistou o prêmio da crítica internacional, no último Festival de Cannes, os jurados atribuíram a escolha ao fato de o longa demarcar “um vislumbre de esperança”. Mais incisivo, o diretor francês, de origem marroquina, Robin Campillo explica, em entrevista ao Correio, que a inspiração de seu filme brotou de uma urgência da vida real, relacionada ao controle da Aids. “Foi preciso agir para dar um basta à nossa figura de meras vítimas silenciosas”, conta Campillo, aos 55 anos, recapitulando a real vivência de quem passou boa parte dos anos de 1980 estagnado. Em contraponto, a ação nos anos de 1990 veio incessante: arregaçando as mangas, Campillo se engajou no grupo de protesto Act Up-Paris (surgido na esteira dos representantes norte-americanos).

“Aquela época, de algum modo, me deixou paralisado, pela opressão do medo. Em 1982, tinha meus 20 anos e notei mais claramente a perspectiva de ser gay. É um mundo distante aquele, já que, com a Aids, experimentei muitas rupturas, vendo muitos amigos desaparecerem”, comenta o cineasta francês que bem entende de timing, a ponto de ser montador dos próprios filmes. Ganhador do troféu de melhor edição no disputado European Film Awards, Robin obteve, com 120 batimentos, incontáveis distinções: em Cannes, levou o Grande Prêmio do Júri, além do Queer Palm (dedicado a filmes gays) e, como filme estrangeiro, brilhou nos círculos dos críticos de Nova York e de São Francisco.

Depois de um segundo filme “desastroso” (como ele mesmo reforça) nas bilheterias — Eastern boys (2013) fracassou, mesmo com indicações de melhor filme e direção nos prêmios César e vitória em segmento do Festival de Veneza —, Campillo experimenta um sucesso de expressão internacional, já que o longa chegou a bater na trave para representar a França no Oscar 2018. Ainda assim, a conjuntura política tem desagradado ao artista. “Estamos com sérias dificuldades pela frente: de um lado a globalização desmedida e, de outro, uma preocupante sede por um nacionalismo exacerbado. Sempre faço questão de votar. É uma obrigação, pela inflexão da extrema direita e demais radicalismos. 120 batimentos por minutos mostra que, independentemente de partidos e governos, existem valores como a fraternidade”, observa.

Para equilibrar o jogo de emoções, protestos e caos derivado da disseminação da Aids representada no filme, o diretor revolveu memórias. “Conservei uma dose de positividade, recorrendo a mais honesta carga de lembranças com as quais pude lidar. Batalhávamos, na época mostrada no filme, por uma energia de respeito, norteada por debates e adoção de regras. Com o movimento Act Up, nos recobrávamos, enquanto cidadãos”, avalia o cineasta. Outro alívio vinha daquela mobilização: “Reinventamos e tivemos que adotar a criatividade na criação de slogans para o Act Up, sentenças que tornassem menos dolorosa a nossa trajetória”.


Cantadas inesperadas

Para além das discussões e dos protestos comunitários, 120 batimentos por minuto traz para a cena o romance entre o novato Nathan (Arnaud Valois) e o calejado Sean (Nahuel Pérez Biscayart). “Eu não queria um elenco homogêneo. Busquei uma composição em que os atores trouxessem diferentes origens e imprimissem diversidade ao filme. Quis intérpretes com visões sociais do conjunto dramático proposto”, observa o cineasta. Atores com formação teatral, com experiência em dança e assíduos frequentadores de boates foram arregimentados para a fita.

Curiosamente, a seleção de elenco resvalou em cantadas via Facebook: é que, pela proposição de trazer intérpretes gays, em convites virtuais, houve quem confundisse tudo com assédio. “Um ou outro dizia que eu não fazia o tipo dele (risos). Foi realmente engraçado”, conta. Com elenco formado por muitos atores jovens e gays, difícil não migrar a problemática de 120 batimentos para os dias de hoje. “O sexo fácil e o acesso a drogas, idem, têm gerado problemas. Não é que não exista cuidado: o que na verdade existe é uma certa desorientação por parte dos mais jovens. Muitos jovens entram em negação relacionada à Aids, eles evitam  pensar no risco. Com 120 batimentos, minha vontade não foi a de doutrinar — quis, de verdade, demonstrar como as coisas foram, num passado recente, e esquecido”, conclui.


OUTRAS ESTREIAS
 
O touro Ferdinando 
Oitava produção do carioca Carlos Saldanha, nos Estados Unidos, o longa de animação investe na história de um touro gente boa, alheio à possibilidade de competir nas arenas das touradas. Madri parece o destino assegurado dele, entretanto. Será que o dócil protagonista se libertará da obrigação de enfrentar um toureiro? Baseado em obra literária de Munro Leaf, um sucesso por décadas entre as crianças.


O estrangeiro
O ato de fazer justiça com as próprias mãos está tanto no enredo do livro The chinaman, de Stephen Leather, quanto no roteiro adaptado para as telas e conduzido por David Marconi. Estrelado por Jackie Chan, no papel de Quan, o filme mostra um executivo que, pai, perde a filha em um atentado terrorista londrino. Quem comanda a fita é o neozelandês Martin Campbell, responsável por Lanterna Verde e 007 — Casino Royale. Outros personagens ganham vida nas mãos dos atores Pierce Brosnan, Charlie Murphy e Katie Leung.
 
Gary Oldman interpreta, no cinema, o estadista Churchill(foto: Universal / Divulgação)
Gary Oldman interpreta, no cinema, o estadista Churchill (foto: Universal / Divulgação)
 

O destino de uma nação
Diretor estabelecido por sucessos nas telas do porte de O solista e Anna Karenina, Joe Wright assina mais uma produção britânica, recém-premiada com o Globo de Ouro de melhor ator para Gary Oldman. No papel do primeiro-ministro Winston Churchill, ele vive, para além da vida doméstica ao lado de Clemmie (Kristin Scott Thomas), o dilema de apostar em tratado de paz junto com a Alemanha.


Lou
Indisposta a seguir regras sociais germânicas, a escritora Lou Andreas-Salomé, agente de escândalo no século 17, solta a veia revolucionária, neste filme estrelado por Katharina Lorenz. Dirigido por Cordula Kablitz-Post, o filme se concentra também nos amores experimentados pela psicanalista que correspondeu às investidas de figurões como os filósofos Paul Rée e Friedrich Nietzsche. O escritor Rainer Maria Rilke também esteve entre seus amores.

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