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Estado de Minas

'Me chame pelo seu nome' é uma joia da literatura contemporânea

Romance que serviu de base para o longa Me chame pelo seu nome é pérola contemporânea


postado em 21/01/2018 07:30 / atualizado em 22/01/2018 11:27

(foto: Sigrid Estrada/Divulgação)
(foto: Sigrid Estrada/Divulgação)

André Aciman começou a escrever Me chame pelo seu nome como um escape. Trabalhava em um romance complicado, que não avançava, e resolveu se distrair com outra coisa. Além disso, as férias anuais com os filhos e a mulher em uma casa alugada na Toscana não deram certo e foi preciso passar o verão em Nova York mesmo. Aciman começou, então, a imaginar uma história passada em uma casa semelhante à pintada por Claude Monet em série dedicada à paisagem da Toscana.

A história de amor entre o adolescente Elio e o professor universitário americano Oliver foi escrita em quatro meses e gerou uma reação que Aciman, 67 anos, não esperava. “O livro se vendeu da noite para o dia e teve um sucesso notável nos Estados Unidos e na Itália”, conta. “Uma coisa que eu nunca entendi é por que as pessoas ficaram tão emocionadas com esse romance. Elas choravam.” Aciman compreendia a emoção pessoal enquanto escrevia porque o livro é baseado em sua própria história. Elio tem muito do próprio autor e algumas de suas experiências no romance também foram vividas por Aciman. “Era uma história que eu conhecia bem, que eu meio que vivi, mas não sabia que havia comunicado essa emoção ao leitor. Não tinha noção”, conta, agora na expectativa com o lançamento do filme.



Dirigido pelo italiano Luca Guadagnino, o longa estrelado por Armie Hammer e Timothée Chalamet foi indicado a três Globos de Ouro, chamou a atenção em Sundance e é cotado para concorrer a melhor filme no Oscar de 2018. Aciman não chegou a participar da adaptação do roteiro, assinado por James Ivory, mas ajudou com algumas pequenas correções. O resultado final, ele garante, guarda o essencial do livro. “Houve mudanças porque um filme não pode ter tudo, mas eles fizeram um excelente trabalho e não tive do que reclamar. O filme conseguiu captar a história, as emoções, e o espírito do livro está totalmente lá”, diz, em entrevista pelo telefone, de Nova York, onde mora.

Publicado em 2010, Me chame pelo seu nome é considerado uma pérola bem guardada da literatura LGBT. A linguagem direta e, mesmo assim, carregada de delicadeza, captura o leitor do início ao fim. Aciman não gosta de descrições nem de realismos, por isso raramente escreve os nomes dos personagens ou descreve paisagens. E se esquiva de nomear a cidade no norte da Itália na qual se passa a narrativa. Fala apenas em B., mas admite, em entrevista, se tratar da região de Bordighera, cidadezinha encrustada na região da Ligúria, à beira mar, quase um clichê da languidez que se pode experimentar na riviera italiana. Ali, Elio passa as férias de ve da família. Para quebrar o tédio, os pais do rapaz costumam alugar um quarto da casa para algum escritor, intelectual ou artista trabalhar sossegado. Nessa situação se encontra Oliver, professor universitário americano, por quem Elio se apaixona.

A narrativa transita entre os desejos e fantasias do rapaz e a expectativa de realização do encontro. Elio é extremamente culto e instruído, toca piano e é dono de uma personalidade irônica e cínica. Narrado em primeira pessoa, o romance mergulha nos sentimentos do rapaz e na incompreensão de seu objeto de desejo. Nem ele, e consequentemente, nem o leitor, entendem muito bem quem é Oliver. É dessa tensão que a narrativa se alimenta. O filme não acompanha o final do livro: acaba antes, mas foi revelador para Aciman. “O final do filme, quando Elio olha a chaminé, é muito emotivo e me fez compreender o fim do livro: eu sentia a tristeza e, ao mesmo tempo, a esperança que temos quando somos jovens”, revela o autor.

Como Elio, André Aciman vem de uma família ancorada em várias culturas. Nascido em Alexandria (Egito), de origem francesa e família judia, precisou deixar o país por causa do antissemitismo. Estudou em Harvard, deu aulas em Princeton e hoje é professor do The Graduate Center, em Nova York. Aos 17 anos, já tinha lido todos os clássicos da literatura e, desde sempre, queria morar nessa casa toscana pintada por Monet no século 19.  

Entrevista/ André Aciman



Desde o início, o romance trataria de uma paixão entre dois homens?
Comecei a escrever algumas páginas de uma história que acontecia na Itália, em uma casa que reproduzia mais ou menos a pintura de Monet. Eu queria morar naquela casa, queria ser um jovem novamente e uma coisa levou à outra. Haveria uma história de amor, que inicialmente era com uma menina, depois entre um menino e um homem. Foi um romance que eu não tive a menor intenção nem de descrever nem de terminar. Muito menos de publicar, porque eu nunca havia publicado um romance como esse.

Ele foi apresentado como um romance de geração. Seria isso mesmo, na sua opinião? 
Romance de geração é uma expressão da qual não gosto, é usada para falar da história de um adolescente que vai se tornar um homem. É uma expressão muito limitante e eu sempre tive a impressão de que, na verdade, nunca crescemos. Envelhecemos, mas não mudamos tanto, as emoções são sempre as mesmas aos 17 anos ou aos 60, 70 ou 90.

Como chegou ao personagem de Elio?
Quando eu tinha 17 anos, era quase a mesma coisa que ele. Eu tinha lido muito, aliás, acho que não li tantos romances clássicos depois dos 18 anos quanto li até ali. O conhecimento, o cinismo e a ironia de Elio, eu tinha quando tinha a idade dele. Não há nada de inventado aí. O personagem de Oliver, no entanto, é uma personagem que nunca compreendi e acho que Elio, no romance, também não consegue entender. Ele o deseja porque não o compreende, porque se o compreendesse não o desejaria.

É um romance escrito em primeira pessoa e em estilo de memórias. Há uma certa nostalgia no livro?
Há uma noção de que o tempo passa e que as coisas são esquecidas e que sentimos novas emoções por novas pessoas. Claro, o amor dos 17 anos fica deslocado quando encontramos a pessoa aos 25, mas há nostalgia, porque há sempre uma lembrança muito potente e que surge no romance: os personagens não se esquecem, eles se procuram e se reencontram e não sabem como recomeçar o velho amor. Eu adoraria retornar à idade de 17 anos, ser jovem novamente, refazer a vida, corrigir todas as besteiras que fiz.

Por que não nomear o local no qual se passa o livro, já que ele é tão importante para a narrativa?
Sempre tive antipatia por isso. Quase não nomeio os personagens, evito muito, nunca descrevo os rostos e se descrevo as roupas é porque elas começam a ter um sentido. Mas eu detesto tudo que é factual, realista, porque valorizo muito o mundo interior. Não nomeei a cidade porque não queria ser preciso, tenho horror das precisões. No romance, não há data, não se sabe quando se passa. No filme foi dito que era 1983, uma coisa que eu não tinha feito no romance.

Algumas críticas repreendem o diretor por esconder as cenas de sexo para que o filme se tornasse mais palatável para o público. Falou-se, inclusive, em homofobia disfarçada. O que o senhor acha disso?
Quando escrevi o livro fui muito direto e muito cândido, eu queria dizer as coisas como elas aconteciam quando duas pessoas estão na mesma cama. Eu não queria coisas escondidas, mas também não queria muita precisão. No entanto, no cinema, eu nunca gostei de cenas de sexo. É muito direto pra mim. Mas eu gostei muito de quando a câmera se dirige em direção às árvores. Escutamos as pessoas que vão fazer amor, mas foi tão bem-feito que senti um alívio quando vi que não íamos ter a cena de sexo.

(foto: Intrinseca/Reprodução)
(foto: Intrinseca/Reprodução)

Me chame pelo seu nome
De André Aciman. Tradução: Alessandra Esteche. Intrínseca, 288 páginas. R$ 39,90

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