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Estado de Minas

Presença de cenas com armas de fogo reacende debate sobre a violência

Filmagens podem influenciar o telespectador na vida real. Estudo revela que o número delas triplicou a partir de 1985 até 2017


postado em 23/01/2018 11:24

Cena do filme Capitão América: O primeiro vingador (foto: Internet/Reprodução )
Cena do filme Capitão América: O primeiro vingador (foto: Internet/Reprodução )

“O mundo está dividido em duas categorias: aqueles com a arma carregada e aqueles que cavam. Você é dos que cavam”. A célebre frase do filme O bom, o mau e o feio — de 1966 — dita pelo personagem de Clint Eastwood deixa clara a veneração que o cinema hollywoodiano promoveu às armas ao longo de décadas.

Nomes como James Dean, Charles Kersey — e o próprio Eastwood — levaram os “filmes de tiro” a um patamar de status e classe na produção cinematográfica. Entretanto, com o tempo, essas produções se transformaram apenas em longas com muitas armas e explosões, levantando a discussão de como esse tipo de conteúdo pode afetar o comportamento daqueles que assistem.

Multiplicação

O maior estudo já feito para analisar a quantidade de cenas com violência por armas de fogo em filmes foi o divulgado na revista especializada Pediatrics. Sob o comando de Daniel Romer, diretor de pesquisas do Centro Annenberg para Políticas Públicas da Universidade da Pensilvânia, o estudo teve duas fases —em 2013 e no ano passado — e aponta para um dado assustador: a violência com armas em filmes para jovens triplicou desde 1985.

O estudo analisou 945 filmes — da lista dos 30 mais assistidos de cada ano — de 1950 a 2012 e concluiu que o número de cenas apresentando o disparo de armas de fogo aumentou para um público especifico. A constatação é de que os filmes com classificação indicativa de 13 anos foram aqueles com maior número de cenas violentas, alcançando até mesmo o número de disparo de armas de fogo presente nos filmes com classificação indicativa de 17 anos.

Campeões do tiroteio

Parte da responsabilidade por esse aumento se dá especialmente aos grandes blockbusters que, entre enredos que abordam justiceiros e super-heróis, acabam esbarrando em um público-alvo mais jovem. No filme G.I. Joe: Retaliação, de 2013, por exemplo, cenas com disparo de armas de fogo ocupavam cerca de 40% do tempo de exibição — analisado em 22 segmentos de cinco minutos (total de 1h50), a violência por armas de fogo apareceu em nove segmentos.

A metodologia do estudo — que distribui as cenas de cada filme como segmentos — permitiu ainda a percepção de título que são os campeões de cenas violentas. Entre os filmes classificados como tendo “muita violência com armas” estão Batman — O Cavaleiro das Trevas, Capitão América: O Primeiro Vingador, Transformers: O Lado Oculto da Lua e Os Vingadores, deixando claro: os super-heróis estão mais violentos.

Para Brad Bushman, coautor do estudo de Romer, os resultados apontam para uma inversão de valores sociais. “É chocante como o uso de armas disparou em filmes que são frequentemente direcionados ao público adolescente, parece que as cenas de sexo resultam mais em classificações para adultos do que cenas de violência”, comentou à agência internacional AFP.

Realidade e ficção

Os Estados Unidos são o país mais violento entre os estados nacionais desenvolvidos do mundo. A terra do Tio Sam abrange uma população civil que detém 42% das 644 milhões de armas de fogo do planeta (de acordo com o levantamento da Unodc, small arms survey, de 2012), e que em 2015 alcançou a assustadora marca de 355 tiroteios com vítimas fatais em 336 dias do ano.

Dentro de um contexto em que o porte de armas é assegurado constitucionalmente, é quase impossível não se perguntar: existe ligação entre a violência na maior indústria do entretenimento do mundo e o alto número de ações criminosas com armas de fogo?

De acordo com Romer, a importância do estudo está relacionada sim com a possível influência que a violência dos filmes pode ter com a violência da realidade: “Nós não estabelecemos uma conexão direta com o aumento de tiroteios em escolas e outros locais públicos, mas o aumento de violência armada em filmes certamente coincide com esses eventos”, afirmou à agência internacional AFP.

Entretanto, para Wanderley Codo, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília, os estudos acerca da influência dos conteúdos de entretenimento acontecem há muito tempo, mas, pela variação de resultados, é difícil chegar a uma conclusão absoluta.

“Esses estudos existem há muito tempo, mas as conclusões são decepcionantes, pois existem resultados que mostram que cenas violentas podem gerar comportamento violento, porém ,existem outros estudos que afirmam que cenas violentas podem diminuir a violência no público, pois ocorreria uma descarga de violência”, afirma Codo, que ainda completa: “É um problema sem soluções simples”.

Visão de quem faz

Para Felipe Gontijo, cineasta de Brasília que se prepara para lançar o longa-metragem Capital Astucia, a grande presença deste tipo de cenas violentas pode ser resumida como uma ferramenta dos filmes que buscam prender a atenção do público, mesmo que sem muita história. “Eu acho que hoje acontece muito mais porque existe mais facilidade de realizar os efeitos especiais, é mais fácil explodir carros hoje do que antigamente. Mas, em essência, eu acho que é mais uma escolha narrativa em que querem prender a atenção do público.”

* Estagiário sob a supervisão de Severino Francisco

"É chocante como o uso de armas disparou em filmes que são frequentemente direcionados ao público adolescente, parece que as cenas de sexo resultam mais em classificações para adultos do que cenas de violência"
Brad Bushman, coautor do estudo sobre a violência no cinema, em entrevista à agência AFP 

945 filmes 
Quantidade de produções analisadas na pesquisa sobre a violência no cinema

13 anos 
Faixa da classificação indicativa em que o número de armas e cenas de violência cresceu mais




 

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