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Estado de Minas

Conheça atrizes transexuais que viveram em Brasília e fazem sucesso

Quebrando antigos paradigmas, elas encontram espaço na tevê e no cinema


postado em 30/01/2018 06:15 / atualizado em 30/01/2018 10:38

A presença de atores e atrizes transexuais ainda é pequena no mundo do audiovisual. Mas, aos poucos, a televisão, o cinema e o teatro estão abrindo espaço para artistas transgêneros. Nos últimos anos, nomes como Laverne Cox (Orange is the new black), Jamie Clayton (Sense8), Carol Marra (PSI e Brasil a bordo) e Maria Clara Spinelli (A força do querer e Carcereiros) batalharam e conquistaram seus lugares de destaque no mercado.

Inspiradas por esse bom momento de representatividade trans, duas atrizes que viveram em Brasília decidiram seguir o sonho da atuação e, aos poucos, têm conquistado locais de visibilidade no audiovisual. Conheça as histórias de Gabrielle Joie, que está na série Toda forma de amor, do Canal Brasil, e Marcella Maia, que integra o elenco do filme Todos nós 5 milhões.

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)

Gabrielle Joie
Há um ano, a jovem Gabrielle Joie saiu da casa dos pais, em Ceilândia, para tentar a vida em São Paulo. Na época, ela não imaginava que pudesse se tornar atriz. O único flerte com algo parecido tinha acontecido quando ela criou um canal no YouTube para falar de diversos assuntos, entre eles, a transição de gênero. “O canal foi uma das formas descontraídas de me expressar na internet. Começou e continua sendo sem compromisso”, conta.

Apesar de ser um projeto despretensioso, foi ele que deu a oportunidade para que ela conquistasse um papel de protagonista na série Toda forma de amor, de Bruno Barreto, com previsão de estreia ainda no primeiro semestre de 2018 no Canal Brasil. “Aconteceu tudo de uma forma bem imprevisível. Na época eu ainda trabalhava como vendedora numa loja em São Paulo e fui contatada pelo escritor da série, dizendo que o diretor tinha visto meus vídeos e decidimos marcar uns testes para ver minha dinâmica na frente das câmeras. Acabei passando no teste. Para mim foi o começo de uma nova era”, define a atriz.

Na trama, Gabrielle interpreta Marcela, uma jovem que deixa a casa dos pais para viver em uma outra cidade e precisa lidar com questões pessoais e profissionais envolvendo a transexualidade. “Marcela e eu temos muito em comum. A personagem lida com questões muito delicadas, seja com a falta de compreensão da família seja pel os conflitos em torno das relações amorosas, mas o mais incrível é que ela me inspirou bastante por ser uma mulher tão resiliente e autônoma”, explica.

A brasiliense não é a única trans da produção. O elenco tem nomes já conhecidos, como Wallace Ruy (Meu nome é Sarah Parker), Renata Carvalho (O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu) e Glamour Garcia (Salomé). A experiência fez com que Gabrielle decidisse seguir esse novo sonho: “Eu tive a imensa sorte de atuar com tanta gente incrível e experiente. Antes da série, nunca tinha cogitado fazer cursos de teatro e nem imaginava que algum dia faria algo próximo disso. Mas, depois do trabalho, acabei percebendo que é um universo que realmente me deslumbra”. Atualmente, Gabrielle tem feito cursos de atuação e estudado sobre interpretação para se aperfeiçoar para futuros trabalhos.

Quatro perguntas // Gabrielle Joie


A série abordará questões de gênero e tem no elenco atores e atrizes transexuais. Como você enxerga esse tipo de representatividade?
Eu tive a imensa sorte de atuar com tanta gente incrível e experiente num set de filmagem, não foi nada intimidador, na verdade me senti até mais inspirada, principalmente pelas meninas trans que estavam ali, como a Wallace Ruy, Renata Carvalho e Glamour Garcia. A série trata bastante sobre a busca do reconhecimento e aceitação, seja em questões de gênero ou sexualidade, e acho que ninguém melhor que nós mesmas para dar veracidade aos fatos, além de ocupar um lugar importante nesse mercado e exercer um trabalho que pode atingir muita gente. Neste sentido, a representatividade é fundamental, tanto para sermos vistas, quanto para estarmos empregadas no mercado de trabalho e romper os estigmas.

Como é a sua relação com Brasília?
Eu nasci e cresci em Brasília. Na verdade, em Ceilândia, para ser mais específica, na mesma casa que meus pais vivem até hoje. Já faz um ano ano que vim para Sao Paulo a trabalho e tenho vivido aqui desde então, mas sempre que posso eu volto e fico um tempo com minha família pra matar a saudade, minha puberdade foi moldada ali, então é meio impossível eu não criar um vínculo íntimo com Brasília. Às vezes sinto falta da cidade, da família e dos amigos, talvez essa seja a parte chata de eu estar aqui (em São Paulo). 

Além de Toda forma de amor, você já tem projetos futuros da carreira de atriz?
A série me abriu as portas para esse universo e me adentrou numa nova era que não me vejo cansando tão cedo. Fiz contatos incríveis e foi a chance de mostrar meu talento escondido por tanto tempo. Gracas a Deus, com isso, alguns projetos incríveis estão por vir e estou me preparando bastante. 

Dentro do mercado, você percebe de alguma forma um preconceito ou isso nunca foi uma questão na sua carreira?
Sempre trabalhei com a comunicação e tenho lidado com vários tipos de pessoas, algumas muito agradáveis e outras nem tanto assim. O mercado hoje em dia tem falado sobre as questões de gênero e sexualidade com uma perspectiva muito melhor, tentando inserir cada vez mais a diversidade, o que me deixa cada vez com mais água na boca em cada projeto novo que aparece .Mas como nem tudo são flores, é comum ter que enfrentar o preconceito nesse ambiente. Para mim ja foi questão e já perdi alguns trabalhos por conta disso, mas tento não levar para o pessoal, porque se eu levar vai machucar muito.

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)

Marcella Maia
Nascida em Juiz de Fora (MG), Marcella Maia passou a infância, a adolescência e parte da vida adulta em Brasília. Foi no quadradinho que começou a dar os primeiros passos na fase artística e onde também se deparou com os maiores desafios de sua vida. “Sempre que piso em Brasília, lembro de tudo que passei. Não foi fácil. Sofri bullying, preconceito explícito, mas pude construir amizades e fazer parte de um grupo de teatro dentro da Igreja Batista”, relembra.

Há alguns anos, a jovem deixou a capital federal para seguir a carreira de modelo. Atuou em diferentes países da Europa e foi morando lá que conseguiu a oportunidade de atuar como figurante no longa Mulher-Maravilha, protagonizado por Gal Gadot. “Pelo fato de atuar ser o meu grande sonho, sempre busquei isso e pedia ao meu empresário para me avisar se tivesse algo na área de atuação. Surgiu essa oportunidade. Fui escolhida pelo aspecto físico. Foi uma participação muito simbólica nas telas de cinema, mas, para mim, significou tanto”, completa.

No ano passado, Marcella voltou a morar no Brasil e escolheu São Paulo como casa. Atualmente, se divide entre os trabalhos e um curso de atuação. Neste ano, ela retorna nas telonas, dessa vez, num projeto brasileiro. É o longa-metragem Todos nós 5 milhões, de Alexandre Montárgua, em que interpreta a personagem Cristina. “É um filme que vai emocionar o Brasil, porque trata de um tema muito delicado, que é o abandono paterno baseado num censo que diz que cinco milhões de pessoas no Brasil não tem o nome do pai na certidão”, adianta.



A trajetória artística no mundo da moda deram à Marcella uma bagagem para hoje se assumir como uma atriz trans. “Hoje, depois de seis anos da minha cirurgia, sou uma pessoa bem resolvida com a minha sexualidade, com a minha pessoa. Um dos fatores principais que me fez assumir, levantar a bandeira e dar a cara a tapa é que o Brasil é o país que mais mata homossexuais no mundo. Vi uma oportunidade de casar o meu trabalho com uma responsabilidade que acho que tenho, como artista trans, como alguém que venceu a situação social e hoje vive de uma realização pessoal”, defende.

Quatro perguntas // Marcella Maia

Você começou como modelo, mas ser atriz era o seu verdadeiro sonho?
Ser atriz é um trabalho totalmente diferente do trabalho como modelo, em que preciso posar e ser bonita, basicamente isso. O mundo da moda tem a ver com a questão estética. Eu sempre estive ligada a moda por uma questão financeira. Mas sempre tive certeza que era uma questão de tempo. Eu sempre fui independente, então precisava começar, com isso fui criando um embasamento cultura que engloba todo o meio artístico. A carreira de modelo me fez viajar e me lançar. Poder trabalhar lá fora me possibilitou várias coisas, como fazer alguns cursos na área de atuação e dramaturgia. Mas pelo fato de atuar ser o meu grande sonho, eu sempre busquei isso na medida que podia.

Você fez uma participação como figurante no filme Mulher-Maravilha. Como surgiu essa oportunidade?
Eu fui escolhida pelo aspecto físico. Eles queriam uma guerreira. Meu empresário me ligou dizendo que eu estava pré-aprovada. Fiquei agoniada o dia todo. Na madrugada, ele me deu a notícia e às 5h da manhã eu já fui para o estúdio, que fica a duas horas de Londres. Foi uma participação muito simbólica nas telas de cinema, mas, para mim, significou tanto. Me fez pensar é isso que eu quero fazer, que eu quero trabalhar.

Você está fazendo um curso de atuação. Como tem se preparado para o ofício de atriz?
Estou me dedicando muito a minha formação como atriz. Estou priorizando meus estudos, apesar de que sempre tento concilicar com a carreira de modelo. 

Você sente alguma tipo de preconceito no mercado?
Hoje é mais fácil. O assunto passou a ser uma curiosidade e o mercado abriu as portas. Temos trans no esporte, uma drag representando na música, em várias vertentes. Ainda é muito pouco, mas as pessoas estão falando no assunto. Isso é muito legal. É uma era de mudança. Isso me deixa feliz e entusiasmada, me dá vontade de falar do assunto. Logo eu que me bloqueie por anos vivendo uma vida cis hétero, em que eu achava que era feliz, mas só que não.

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