A grande diversão do brasiliense é sair para comer fora de casa. Não é à toa que esse programa pesa no bolso das famílias na capital da República. De acordo com a Fundação Getulio Vargas (FGV), na cidade, 5,91% do orçamento doméstico é comprometido com refeições em bares, restaurantes e lanchonetes. No país, o percentual é menor: 3,21%. Com gente disposta a gastar dinheiro com a gastronomia, empresários veem na cidade uma mina de ouro. Investir em Brasília passa a ser uma opção importante para quem sonha em ter a casa cheia e quer garantir um retorno rápido para o dinheiro desembolsado. Nem a crise atrapalhou os negócios no ramo gastronômico.
Se considerado apenas o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), a arrecadação do Governo do Distrito Federal foi de R$ 20 milhões no acumulado de 12 meses encerrados em abril, segundo a Secretaria de Fazenda. O número representou 0,5% do total das receitas com impostos da capital do país. Com o aumento do número de restaurantes e o crescimento da população, a expectativa é de expansão dessa soma.
Há um ano, o grupo paraibano Mangai resolveu desembarcar em Brasília. Em terreno próximo do Lago Paranoá, construiu um restaurante. No andar de cima, há espaço para mil clientes. No subsolo e em parte do salão principal, há inúmeras cozinhas divididas por vidros e 14 câmaras frigoríficas. O prédio tem ainda área para escritórios, salas de treinamento e lazer dos funcionários. O empreendimento é tão grande que, para funcionar no almoço e no jantar, emprega 150 pessoas. “O que nos atraiu em Brasília foi o número de nordestinos na cidade e a capacidade financeira dos moradores”, afirma Lorena Maia Tavares, diretora comercial do grupo Mangai, dono de restaurantes na Paraíba, Rio Grande do Norte e de fazendas fornecedoras de frutas e laticínios para os restaurantes.
Com fila de espera quase todos os dias, o investimento em Brasília se transformou em sucesso. Mesmo assim, o grupo preferiu não se esbaldar nos períodos de bonança. “Tivemos cautela por causa da crise, tínhamos outras pretensões de investimento, mas paramos para ver o que ia acontecer”, revela Lorena. A pausa, no entanto, foi temporária. “A crise é a hora de mostrar quem você é. Se ficar muito temeroso, chega outro mais esperto e leva”, ensina a executiva.
Para Ricardo Pole, empresário do ramo de gastronomia, o mercado brasiliense tem tudo para crescer a taxas extraordinárias, mas perde oportunidades por causa da falta de espaços disponíveis para novos empreendimentos. “Faltam lugares. As entrequadras não têm estacionamentos e o tamanho das lojas são um problema”, avalia ele, que abriu quatro casas desde o estouro da crise em setembro do ano passado. As casas lhe custaram caro. Foram R$ 2 milhões em reformas, cozinhas e mobiliário para inaugurar a Wrap Express, no Pier 21; o Bistrô Gourmet, no ParkShopping; o Laguna, no Casa Park; e o Gameleira, na Vila Planalto. “O jeito é correr para os shoppings em busca de segurança e estacionamentos cobertos”, afirma.
“Mesmo com a crise, ninguém vai deixar de comer fora”, diz Genaro Macedo, proprietário do Genaro Jazz Café, casa aberta há dois meses na 114 Norte. Com um cardápio recheado de hambúrgueres diferentes do convencional, a casa não é apenas um restaurante especializado em sanduíches. É um espaço para amantes do jazz e, no futuro, será um local de shows. “Brasília tem um grande público com renda”, avalia o empresário.
A crise econômica levou David Lechtig, do El Paso, a agir com cautela. Ele pretendia abrir uma nova versão de seu restaurante mexicano para servir comida peruana, mas preferiu ampliar o espaço do El Paso na 405 Sul e criar o El Paso Latino. Com isso, ficou com duas casas em uma. São dois ambientes, dois cardápios com pratos distintos, feitos em uma mesma cozinha por equipes diferentes. A vantagem de manter os dois locais interligados é, segundo David, a economia na contratação de funcionários e a administração mais concentrada. Se abrisse outro restaurante, precisaria empregar 42 pessoas nas duas casas.Com a ampliação do espaço, tem uma equipe de 36. Antes da ampliação, eram 23 funcionários. “Com essa opção, reduzi o custo de pessoal e ainda acompanho de perto as duas casas”, comenta.
Novidade importada
A paixão de Gustavo e Ana Lacerda pela gastronomia trouxe o casal de volta ao Brasil. Com eles, veio uma ideia inovadora no país: a de uma franquia de cupcakes, bolinhos recheados e cobertos com creme — guloseimas tradicionais na Inglaterra e nos Estados Unidos. Os dois abriram o primeiro quiosque da Vintage Cupcakes, fundada por eles nos EUA, no shopping Pátio Brasil e planejam inaugurar mais três pontos de venda ainda neste ano. Quando estiverem com os quatro espaços abertos na capital federal, Gustavo e Ana oferecerão a marca para franqueados. “O Brasil nos pareceu uma opção economicamente viável e Brasília foi escolhida porque a economia da cidade não oscila tanto como no resto do país”, justifica ele. As receitas, preparadas por Ana, são produzidas em uma cozinha montada em Águas Claras por R$ 200 mil. Nesse espaço serão produzidos os cupcakes para distribuir às outras lojas da marca espalhadas pela cidade. (LN)
Reformas para se adaptar à lei
A crise não tem sido uma ameaça aos empresários do ramo de restaurantes em Brasília, mas as novas regras do trânsito viraram inimigas de muitos empresários. Para contornar o problema, alguns contrataram motoristas para levar os clientes que bebem em casa ou apostaram em atrativos diferentes das bebidas para agradar aos consumidores. Para outros, o jeito foi mudar o foco da casa. Foi isso que fez o empresário Gil Guimarães.
Reformar e mudar a cara do restaurante foi a solução dele para o Madrid e o antigo Barcelona. A ideia de renovar as casas surgiu com a lei seca. O primeiro, na 408 Sul, virou Parrilla Madrid e se especializou em cortes nobres de carne, deixando de ser prioritariamente um bar e passando a funcionar mais como um restaurante. O Barcelona fechou e deu lugar ao Baco Pizza Napolitana, uma forneria da rede Baco com sabores especiais na 206 Sul. “Tive que transformar os dois em restaurantes para que as pessoas fossem comer e beber e não beber e comer”, conta.
A lei seca, segundo Gil, não atrapalhou muito o faturamento dos restaurantes, mas puniu bruscamente os bares. “A crise não nos afetou porque hoje voltamos ao patamar de antes da lei seca”, conta o empresário, que considera o segundo semestre do ano passado como o pior de sua história no ramo de gastronomia em Brasília. “Faz um ano que começou a lei seca, e temos 20 garrafas de uísque de clientes que compraram e não vieram beber”, revela. “Para o ramo de restaurantes, essa (a lei) é a crise”, acrescenta. (LN)
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