Economia

Presidente da CNDL coleciona oponentes de peso

Entre eles estão as multinacionais que operam cartões e as administradoras de shopping centers

postado em 14/02/2010 10:43

Há pouco mais de um ano, Roque Pellizzaro era apenas um nome de consenso entre comerciantes que precisavam de um presidente para a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). Atualmente, para alguns setores, é sinônimo de conflito. Brigou com as operadoras de cartão de crédito por custos melhores para os lojistas e contra falhas nas operações. Entrou em choque com o mercado imobiliário em função da Lei do Inquilinato e mantém embates com os executivos de shopping centers em busca de uma regulamentação para que o segmento beneficie o varejo.

Entre eles estão as multinacionais que operam cartões e as administradoras de shopping centersEm pouco mais de um ano à frente da CNDL, ganhou visibilidade e conquistou, senão inimigos, oponentes de peso como a Redecard (operadora dos cartões Master Card) e a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce). No entender de Pellizzaro, as bandeiras que ele levanta são por um modelo macro de varejo para o Brasil.

O homem que está em disputa com diversos segmentos da economia tenta, para este mês, um encontro com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, ou com o diretor de Política Monetária da instituição, Aldo Mendes. Disse que quer entender a omissão do BC frente às operadoras de cartões. ;Já deveríamos ter tentado isso. No fim do ano, com os problemas que tivemos com a Redecard, teríamos que ter buscado o BC;, disse.

Diante dos amigos e pessoas próximas, Pellizzaro é tido como homem organizado, justo e leal. Tem 45 anos e, além da CNDL, administra com a família uma empresa fundada pelo pai em 1956. Dedicado à esposa e aos filhos, se não está em casa nos fins de semana, leva todos para onde estiver, seja no Brasil ou no exterior. Em entrevista ao Correio, ele falou sobre os rivais e justificou o porquê de enfrentar tanta ;gente grande;.

Um lojista brigão que incomoda muita gente
Investidor estrangeiro
Nos próximos 10 anos, Estados Unidos e Europa não têm previsão de crescimento nos seus próprios mercados. A expansão das companhias vai se dar fora do território deles, nos países emergentes. Vão ter de fazer aquisições ou começar do zero. Eles têm de sair dos seu territórios. O que antes era uma opção, hoje passa a ser uma necessidade. No Brasil, um mercado que ainda está cru para a chegada de investidores estrangeiros é o de material de construção. Aqui existem poucas empresas do tipo e são extremamente localizadas. Vestuários e calçados estão na mesma situação. Apesar de termos redes históricas como a C, o mercado ainda é pequeno. Os estrangeiros virão. O setor de mercados também virá. O Wall Mart vai vir mais pesado ainda e tudo isso começa neste ano.

Plano de varejo
A França zoneia o varejo em suas cidades. Divide em três áreas: de venda planejada, por impulso e por conveniência. Eles proíbem grandes plantas de varejo no meio do centro urbano, fica tudo no subúrbio. A compra por conveniência e impulso fica para o pequeno, o restante é para o grande. Com isso, segura a inflação e mantém dois setores que vão dar níveis de emprego e vão distribuir mais renda. É preciso esse tipo de discussão no Brasil, que tipo de varejo nós queremos para o país. Em Brasília as grandes redes ainda estão na periferia. Mas se olharmos os outros centros do país, veremos que não se pensou nisso. Não se pode reverter a estrutura montada, mas podemos estancar a hemorragia. Isso dá um alívio para o trânsito. O Brasil está crescendo em velocidade grande. Quando se impõe um ritmo forte, se não houver um planejamento firme, você começa a admitir distorções que a médio e longo prazo vão ser trágicas. O caso do cartão de crédito e da legislação do shopping center: mercados que cresceram abruptamente, do dia para noite, e nós não nos estruturamos para eles acontecerem. Isso faz com que distorções aconteçam. Por isso, não precisamos acabar com esses segmentos, mas regulamentar. Sou contrário a impor regras que inviabilizem os negócios, mas é necessário discutir os limites, porque senão o Estado não seria necessário.

Cartões de crédito
Temos algumas coisas que podem ser feitas dentro da estrutura do grande mercado. Temos de trazer níveis de concorrência para os cartões. A quebra da exclusividade vai ser um grande avanço. Teremos um mundo antes e um depois dela. Será em 1; de julho. Situação que fez a Visanet chegar ao ponto, do dia para a noite, de jogar fora a imagem que criou para se desassociar da bandeira. Jogou o passado para trás e se transformou na Cielo. No Brasil, o prazo para o lojista receber de um cartão de crédito é de 30 dias. Se ocorrer uma mudança de forma abrupta, se reduzir de 30 para dois dias, por exemplo, pode quebrar todo o sistema. É preciso cuidado com esse processo. Com a quebra da exclusividade, vamos orientar os nossos associados, nesse primeiro momento, que não busquem contratos de fidelização. No primeiro momento eles são lindos. Mas depois, fica preso durante 12 meses em algo não tão bom e todo mundo vai estar pagando mais barato. Por isso, vamos estudar um trabalho de locação de máquinas. Se o mercado continuar cobrando alto, vamos atuar como agente para puxar para baixo. Posso fazer locação, posso comprar e vender com prazo. Posso um monte de coisas nesse novo mercado, que começa em julho, que antes eu não podia.

Almoço com Redecard
Eu fui almoçar em Nova York com Roberto Medeiros (presidente da Redecard). A pessoa que estava com a gente perguntou como eu considerava o Roberto, e eu disse: inimigos cordiais. Nossa conversa foi de uma meia hora de amenidades e ele fez colocações diretas e eu também. O que vejo é o seguinte: o cartão de crédito é uma coisa sem volta. Não tem como acabar. Nunca fomos contra a utilização e a existência do cartão. É como dizer que é contra a chuva, pode até ser contra ela, mas ela vai continuar chovendo. Eu disse a ele: o negócio de vocês é bom, mas está sendo bom para um lado só. Ele justificou. Eu disse que as justificativas até entendo, mas não posso ter um custo do cartão para os lojistas superior a toda carga tributária que o comerciante paga. Os números são gritantes. A distorção é clara. Como essa regulamentação para os cartões vai ser trabalhada? Temos de construir isso juntos, lojistas e operadoras. Disse que ele precisava concordar que a situação está errada. Ai ele respondeu: Roque, no Brasil temos situação de paternalismo em relação à indústria e ao varejo. Aqui nos EUA, a máquina de cartão você tem de comprar, lá nós alugamos. Lá nós temos de dar o papel, aqui o cara compra o papel. Então eu perguntei: vocês já pensaram em dar essa opção para os comerciantes, de comprar ou alugar? Hoje não tenho essa opção. Agora, com a quebra da exclusividade, os amiguinhos que eram antes (Redecard e Cielo) vão começar a se olhar como concorrentes. Depois ele falou: Roque, você gerou um desconforto com suas colocações em relação ao problema com a Redecard, no fim do ano. Eu falei: depende do ponto de vista. Em relação a vocês, desconforto, aos comerciantes, fui aplaudido. Isso ocorreu porque não há regulação ou agência reguladora para os cartões.

BC e os cartões
Estamos lidando com um meio de pagamento. Tem de haver um regramento sobre isso. Eles têm de responder a alguém. Iremos tentar agora uma audiência com o BC (Banco Central) porque nos preocupa muito essa situação. O próprio posicionamento do BC, queremos entender o porquê dessa omissão. Porque isso é questão de honra para a gente. Queremos que o BC mantenha o posicionamento que tinha antes. A pergunta é por que o BC está agindo dessa forma. Queremos saber se eles acham mais interessante essa posição em que estão, se isso é melhor para o Brasil, ou se é pressão do setor financeiro para eles não se manifestarem. Vamos tentar um encontro com o Meirelles (presidente do BC) ou com Aldo Mendes (diretor de Política Monetária da instituição). Já deveríamos ter tentado isso. No fim do ano teríamos que ter buscado o BC.

Shopping centers
Com esse setor ocorre a mesma coisa, mas em um cenário diferente. Não existe nada que regule. No contrato podem pôr tudo. De um lado, você tem uma multinacional e, do outro, uma pessoa que tem uma loja e dois ou três empregados. O Estado existe para regular a relação entre as pessoas, principalmente quando um é muito menor que o outro. Por isso existe o Código de Defesa do Consumidor. Ninguém mais pensa na vida sem ele. Esperamos que se regule onde existem distorções. Hoje há cobrança de 13;, 14; e até 15; aluguel. Você tem um condomínio no qual ninguém tem direito a ver as contas. É preciso transparência. Tem um shopping center que pagava premiação para a diretoria do shopping com o dinheiro do condomínio. Essa confusão entre o que é uma coisa e outra, a legislação precisa dizer. Ficamos de agendar uma reunião com o pessoal da Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers) para debatermos esses assuntos.

Ouça entrevista com Roque Pellizzaro

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