O brasileiro está com menos vontade de gastar em março, em comparação aos dois primeiros meses do ano. Com o crédito encarecido pelas expectativas de alta da taxa básica de juros, somado às pressões inflacionárias neste início de 2010 e a proximidade do fim da isenção tributária para veículos e produtos da linha branca, a Intenção de Consumo das Famílias, medido pela Confederação Nacional do Comércio (CNC), caiu 1,9% frente a fevereiro. Tal queda, segundo o economista Carlos Thadeu de Freitas, mostra a desaceleração do consumo.
Na avaliação dos economistas da CNC, o desmonte do aparato para combater a crise, principalmente o fim da isenção do IPI, reduziu a intenção de compras em março. “A queda foi puxada pelas famílias mais pobres, com renda de até 10 salários mínimos”, afirmou o economista Fábio Bentes. “Os preços altos jogaram para baixo as intenções do consumidor. Ela corroeu o orçamento familiar”, explicou.
Com o orçamento apertado, mas preocupada com uma possível escalada dos juros e com o fim dos descontos em função do IPI menor, a aposentada Maria Mercedes não quis adiar a compra da máquina de lavar e geladeira. Por outro lado, no entanto, ela preferiu adiar parte das compras. “Poder comprar a gente não pode, mas o que fazer?”, questionou a aposentada. “Gostei muito dessa história de IPI, queria que fosse prorrogado para sempre. Terminei minha casa e tenho de comprar os móveis. Até queria poder comprar tudo agora, antes que fique mais caro e os juros subam demais”, relatou a aposentada, que avaliava o tamanho das parcelas para saber se caberiam no bolso.
O levantamento da intenção de gastos mostra ainda que para a parcela da população com a menor faixa de renda na pesquisa, de até 10 salários mínimos, a situação atual do consumo piorou. Ficou abaixo da média de satisfação ao recuar 0,6% entre fevereiro e março. Apesar deste indicador, a maioria dos consumidores entrevistados, 53,4%, acredita que há espaço para o consumo crescer.
AcessoPara a economista da CNC Mariana Hanson, essa piora também está atrelada à capacidade de endividamento das famílias. O quantidade de pessoas com contas a pagar subiu de 61,8% em fevereiro para 63% em março. “Também já está havendo piora nas condições de pagamento a prazo, mas ainda estão melhores que em 2009. O acesso ao crédito ainda está elevado, mas já está em queda. Ainda assim, no curtíssimo prazo, esses dados não tem gerado risco de inadimplência”, avaliou Mariana.
Palavra de especialista
Dívidas acumuladas“O nível de endividamento do consumidor aumentou em março. Acompanhando essa elevação, o percentual de famílias com contas em atraso subiu de 25,6% para 27,3% (entre fevereiro e março). Ainda assim, essa alta não é preocupante. O nível de comprometimento da renda com dívidas caiu. Essa alta de março veio acompanhada também de um aumento do custo de vida neste início de ano. O cenário do crédito também impacta no endividamento e ele vai ser cada vez menos favorável já está havendo uma piora nas condições de pagamento a prazo ainda assim, são melhores do que em 2009. O cartão de crédito é o principal tipo de dívida, seguido pelo carnê e pelo financiamento de carro.”
Marianne Hanson, economista da CNC especialista em inadimplência » Segundo o economista-chefe da CNC, Carlos Thadeu de Freitas, a pesquisa de Intenção de Consumo das Famílias mostrou que a vontade de comprar está diminuindo. Na avaliação dele, os dados indicam que há uma desaceleração natural no consumo e que, por isso, uma elevação da taxa básica de juros pode ser precipitada. O economista afirma ainda que as taxas reais não devem subir agora, por mais que a Selic seja aumentada. Nos últimos meses, só com a expectativa de que ocorreria uma alta de juros nesta última reunião do Copom (realizada ontem), o mercado se antecipou e passou a cobrar mais caro pelo crédito. “Tudo vai depender da ata do Copom. Ela vai dizer até quando e em quanto os juros vão subir”, disse o economista-chefe da CNC.
Entrevista com economista da CNC, Fábio Bentes
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